Ciências

O ?cárcere privado? na escola!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Que coisa linda, transmito-lhe meu conhecimento! Pode ser bonito, mas ultrapassado.

As diretrizes mundiais da Unesco (Organização da ONU para Educação, Ciência e Cultura) indicam que se deve educar para a vida. O que Machado de Assis leu durante toda a vida poderia ser colocado na edição dominical do jornal. Por mais que queiramos, não conseguimos guardar todo o conhecimento no cérebro. Para guardar conhecimento temos o computador, e para transferi-lo existem os "pen drives" e a Internet.

O professor não representa mais o detentor do conhecimento, cabe a ele a função de orientar a busca do saber, induzir o outro a raciocinar, questionar e refletir, enfim, ter capacidade de análise crítica. O professor deve deixar claro que pensar é quase um instinto, enquanto que refletir requer abstração do conhecimento: eis a essência de nossa atividade mental, exclusiva do homem enquanto espécie.

O professor induz o ler, escutar, falar e ver como ferramentas para o pensar e refletir. Ele executa a arte de ensinar, aprender, desaprender e reaprender a todo instante: eis a arte de viver! Quando tomei conhecimento pela primeira vez das orientações da Unesco de educar para a vida, lembrei do meu velho pai em sua simplicidade dizendo: a melhor escola é a vida. Devemos ensinar que saber e sabor são palavras de mesma origem.

O conhecimento está registrado nos obeliscos, papiros, livros, enciclopédias e bancos de dados. Devemos ensinar e aprender a transitar pelo conhecimento, a ganharmos habilidades para resgatá-lo quando preciso, e assim desenvolvermos capacidade de usá-lo da melhor forma e quando necessário.

No lugar de usar o cérebro para guardar informações como datas, fórmulas e dados, vamos utilizá-lo para guardar e compor sentimentos, emoções, reflexões, criatividade e muitas outras coisas boas que a vida oferece. Deixemos a memória para os computadores e acessórios, ao cérebro deixemos as coisas nobres decorrentes da abstração, reflexão e discernimento.

O que seria educar para a vida? Um engenheiro ou um médico, quando tem um problema a resolver em sua atividade profissional, o que faz em seu escritório ou consultório? Se tranca em uma sala e se isola do mundo exigindo de sua memória o resgate de alguma informação ou procura uma fonte de conhecimento como o livro e a Internet? Permanece isolado e em preces pede ajuda celestial ou solicita auxílio via e-mail, sms ou ligação para seus colegas mais experientes, especializados ou ainda para seus antigos professores?


"Prisão"

Quando um professor tranca seus 50 alunos em uma sala de aula, impede a comunicação entre os colegas, exige que desligue os celulares, ipads e notebooks, corta o acesso à Internet e banco de dados e ainda proíbe que se consulte livros e cadernos de anotações, estaria esta avaliação ou prova de conhecimento reproduzindo o que acontece na vida do aluno!?

A resposta é não. Esta situação é surreal, ela não existe na vida! As avaliações das escolas desde o início até o doutoramento devem ser para treinar ou reproduzir o que acontece na vida real. A pessoa deve ganhar habilidades para a vida diária. Que me desculpem meus respeitosos colegas, meus antigos professores, mas trancar alunos e cortar qualquer tipo de comunicação com o mundo, impedindo a fala e a ajuda mútua para a resolução de problemas, impede qualquer gesto de solidariedade, compartilhamento e espírito de vida em grupo. No código civil isto tem nome e se chama "cárcere privado"! Ou perda do direito de ir e vir.

As avaliações podem envolver todos na resolução de problemas propostos: colegas, pais, outros professores, irmãos, tios e avós, pois estariam aprendendo a buscar, resgatar e auxiliar sendo solidários no atingir o objetivo comum. Claro que as provas devem ser individualizadas e elaboradas para este contexto.

Em casa, como o filho vive a resolução dos problemas: com diálogo, pesquisa de preços, informação ao telefone ou em conversas familiares semanais. Como o filho percebe que os pais ganham sabedoria: em livros, sites, jornais e revistas de informação. Os mais importantes professores são os exemplos, a postura e a forma de viver dos pais: o modelo se reproduzirá inevitavelmente!

Muitos professores e pais estão aplicando esta forma de ensinar e avaliar preparando pessoas para a vida sem exigir imitação de uma memória fria de computador com suas informações. O nosso cérebro não deve ser igual à memória do computador, mas reservado para reflexões e sentimentos na busca de uma vida cheia de amor!


Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br

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