São Paulo - As declarações do deputado Roque Barbiere (PTB) comparando a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) a um camelódromo deflagraram uma crise na Casa, com protestos na base governista e na oposição e ameaças de abertura de processo de cassação de mandato por quebra de decoro parlamentar.
Em reuniões reservadas, entretanto, integrantes dos partidos revelaram o temor generalizado nas bancadas de que Barbiere possa ampliar o incêndio caso se sinta acuado pelos colegas. A principal preocupação é que o petebista aponte nomes de deputados que supostamente teriam negociado suas emendas ao Orçamento com empreiteiros e prefeitos.
Hoje, o deputado enviará um depoimento por escrito ao Conselho de Ética da Casa. Segundo seus aliados, ele dirá que a intenção sempre foi acabar com o sistema de indicações de emendas por deputados, que considera passível de corrupção, e que não citará nomes de colegas.
Cada um dos 94 deputados paulistas pode apresentar ao governo do Estado indicações para a transferência de R$ 2 milhões em verbas para obras em seus redutos eleitorais.
Em agosto, Barbiere afirmou que até 30% da Casa negociava essa cota com empreiteiros. Ao voltar a falar no tema, anteontem, o deputado disse que "cada um (deputado) tem uma maneira, cada um tem um preço" e que "isso é igual camelô, cada um vende de um jeito".
Ontem, ele passou o dia trancado em seu gabinete. Só recebeu o líder da sua bancada, Campos Machado, o único a defendê-lo publicamente. Pouco antes das 20h, Barbiere deixou o gabinete negando estar pressionado. "Estou sempre tranquilo."
Em breve pronunciamento no plenário, Campos Machado fez um pedido de desculpas em nome de Barbiere, mas terminou com uma frase interpretada nos bastidores como ameaça velada.
"Defendo que a apuração seja feita de maneira rigorosa. Mas insinuações, provocações, como líder da bancada, não vou aceitar", disse. "Punam os culpados, se houver, mas não atire uma pedra sem ter certeza do alvo que vai atingir."
Segundo ele, Barbiere "não teve a intenção de constranger nem incriminar" os colegas com as declarações que fez anteontem.
O presidente da Assembleia, Barros Munhoz (PSDB), afirmou que Barbiere poderá responder por quebra de decoro se não explicar as acusações.
Alckmin pressiona
São Paulo - O governador Geraldo Alckmin subiu o tom da resposta ao deputado estadual Roque Barbiere (PTB), que denuncia a venda de emendas na Assembleia Legislativa paulista. Alckmin disse ontem no Palácio dos Bandeirantes que Barbiere deve "apontar nomes": "Eu entendo que o deputado tem o dever, como homem público, de tendo conhecimento de um fato errado, denunciar. Isso é uma obrigação".
O governo paulista avalia que não pode se tornar refém das declarações. A interlocutores, Alckmin disse que, ao falar do suposto esquema sem citar nomes, Barbiere compromete todo o Legislativo. O governo atribui as acusações a disputas eleitorais: Barbiere mirava colegas que destinaram verbas para a sua região.