Comentários recentes divulgados nas páginas econômicas e colunas especializadas em finanças têm feito referência aos riscos que envolvem a disseminação do crédito ao consumidor. Alguns analistas revelam o temor que possa se formar no Brasil uma "bolha" de crédito, a exemplo do que aconteceu nos Estados Unidos na década passada ou algo similar ao que se vê hoje no continente europeu. Essa é uma preocupação normal dos analistas em tempos de crise global, mas não creio que se aplique ao Brasil. É preciso ter as informações corretas e elas não apontam naquelas direções. Pelo contrário.
As melhores informações que se têm hoje sobre os níveis de comprometimento do crédito no Brasil são as que se encontram na última pesquisa da FFA, Consultoria e Pesquisas Econômicas, uma organização a serviço da Federação do Comércio de São Paulo. Elas possuem uma amostragem ampla e cuidadosa do comportamento das operações do crédito nas Capitais e outras grandes cidades em todo o Brasil. São ponderações muito ajustadas. Do que eu conheço, trata-se do melhor levantamento que existe sobre o endividamento do consumidor. A pesquisa da FFA mostra que não tem base a perspectiva de que se está formando uma bolha de crédito no Brasil. Em primeiro lugar, o que existe é que houve uma disseminação maior do crédito das famílias no ano passado que continua este ano, alimentando o crescimento do consumo. Em segundo lugar, é preciso lembrar que as medidas macro-prudenciais que o Banco Central e a Fazenda utilizaram ainda não completaram os seus efeitos. De forma que é bem provável que o nível do crédito ao consumidor esteja conforme o limite apontado pelo BC que é de 15% do volume total do crédito. Hoje, talvez um pouquinho acima disso, mas seguramente retornando ao limite.
O terceiro ponto é que não há nenhuma indicação que o nível do endividamento médio da renda mensal esteja aumentando. Ele, na verdade, é mais ou menos constante e parecido com 29% da renda. Isso mantém muito baixo o risco de ocorrer no País uma crise em função dos volumes de crédito. É um número bastante aceitável e o sistema bancário brasileiro está muito vigilante.
Temos hoje um controle adequado nas concessões de crédito, de forma que é muito improvável, dado o cuidado do Banco Central, um aumento da inadimplência em consequência do que seria um exagero no volume de crédito ao setor privado. A amostragem feita pela Federação do Comércio de São Paulo, através da FFA - Consultoria e Pesquisas Econômicas provavelmente é a que tem a informação mais recente, constante e segura de todas as pesquisas sobre o crédito ao consumidor no Brasil.
O autor, Antônio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC