Neide Carlos |
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Cada vez mais jovens preferem se debruçar sobre as apostilhas de concursos antes dos cadernos curriculares das faculdades |
Lá atrás, na distante década de 80, os jovens cantavam em prosa e verso que para “ter carro do ano, pagar imposto, ter filho na escola... comprar feijão, você tem que passar no vestibular”. Não que os versos de Renato Russo, cantarolados pelos Paralamas do Sucesso, estejam desatualizados. Longe disso. A maioria dos jovens recém-saídos do ensino médio ainda sonha com uma vaga na universidade. Mas o cenário começa a mudar. Em Bauru, ainda não há número exato do contingente de jovens que buscam a carreira estável antes de perseguir o diploma universitário. Mas alguns estudantes, logo após a conclusão do ensino médio, ou até mesmo ainda durante essa fase, já buscam aperfeiçoamento específico visando as cada vez mais concorridas vagas oferecidas nos concursos públicos.
Bons salários e estabilidade no emprego puxam os postulantes ao sonhado emprego, principalmente na esfera federal. “Se olharmos a média de idade dos candidatos em concursos, caiu de 30 para 25 anos. A faixa etária média entre os inscritos é de 19 a 25 anos”, analisa Norival Ferraz, professor e proprietário de escola preparatória específica para seleções públicas.
Segundo ele, essa diminuição na faixa etária ocorre há cerca de cinco anos, sendo que a presença de candidatos mais novos nos processos de seleção pública, estima o professor, cresceu em torno de 20%, no mesmo período.
No entanto, ressalva, a maioria dos jovens ainda não está focada nos concursos e continua voltada aos vestibulares. “Aumentou o numero de candidatos jovens em concurso, mas não podemos dizer que houve uma ‘troca’, deixando o vestibular. Na maioria (dos postulantes aos cargos públicos) ainda são pessoas maduras, que sabem o que querem e veem no concurso a possibilidade de garantir um emprego e depois buscar a faculdade”, esclarece.
Para ele, a universidade, no caso do novo perfil de postulantes a cargos públicos que se desenha, preencheria o campo da realização pessoal, após a obtenção de um emprego estável e rentável, ou então, com o diploma como forma de preencher requisitos para editais mais avançados. “As vezes a pessoa ‘perde’ quatro, cinco anos numa faculdade. Se passasse esse tempo estudando entraria em qual concurso quisesse”, relaciona.
Estabilidade
Estar ancorado a um regime sólido de bons rendimentos e benefícios, para Agostinho Guerra, diretor do complexo Damásio de Jesus, é um dos fatores que atraem maior parcela de jovens candidatos aos concursos públicos. Segundo ele, boa parte dos concurseiros, inclusive, apesar de ter o diploma universitário, inscreve-se em processos que exigem o nível médio, como um degrau antes do emprego dos sonhos. “Há um aumento (de jovens) principalmente pela questão da estabilidade”, observa. “Como há o aumento da procura no concurso público, está mais difícil passar. Então, na verdade, a pessoa tem diploma universitário presta provas que exigem. A pessoa prefere se garantir, mesmo com salário menor e tendo atributos mais do que o necessário ao cargo”, acentua.
Especificamente no ramo do direito, especialidade da escola, o ingresso em cargos cujo “patrão” é o Estado, é também incentivo à conclusão do nível universitário. Muitos jovens recém-formados sequer iniciam-se na profissão, se fazem é por pouco tempo, e se debruçam sobre material de estudo para conseguir aprovação nos concursos. “Um advogado recém-formado, se já não tem uma carteira boa (de clientes), um escritório formado, tem dificuldades no início. No entanto, se está num emprego público, faça chuva ou faça sol, o salário está lá no final do mês”, compara.
É nessa esteira que o delegado de Polícia Rogério Zuim Uehara se apoia para buscar degraus ainda maiores. Aprovado em concurso público estadual aos 28 anos, o bauruense que atua como plantonista na Zona Leste da Capital, apesar de gostar da função, quer alcançar postos ou na magistratura ou Ministério Público. “Advoguei por pouco tempo, em Bauru, mas me apliquei mesmo em estudar”, credita. “Uma das melhores formas para se preparar é matricular-se em curso preparatório, pois otimiza o tempo”, aconselha, Uehara, que se dedicou aos estudos, especificamente para o concurso, durante pouco mais de dois anos. “É preciso ter foco de profissional”, ensina ele, dono de uma das 140 vagas, disputadas por 26 mil inscritos.
Para ele, os horários e metas estabelecidas devem ser seguidos religiosamente pelo concurseiro. Mesmo em casa, o candidato deve portar-se como numa empresa. “A visão é profissional. Assim como num trabalho, onde temos horário para entrar e sair”, compara. “Eu estudava, de segunda à sexta-feira, das 7h30 às 22h30, com uma hora de almoço. Aos finais de semana, sábado até meio-dia”, receita o ex-aluno do Damásio de Jesus.
Maturidade
Com 24 anos, o candidato Heitor Haddad Sacoman já acumula uma boa experiência pelas provas que prestou. Diplomado em Administração de Empresas, ele busca um cargo público onde possa exercer a formação. Matriculado há dois meses em curso preparatório para concursos, ele trabalha por conta própria, ao lado da mãe, na empresa de decoração de festas que montou.
“Pretendo aliar a atividade empresarial com cargo obtido em concurso. Desta forma, quero aumentar minha renda aliada à estabilidade”, visa. “Sinto maior maturidade a cada prova prestada”, considera o otimista estudante. “O ano que vem será repleto de vagas”, espera o aluno da LFG Concursos.
Trabalho público deixa de ser ‘sombra’
No período – estimado entre os anos 1970 e 1980 – em que para ser “alguém na vida” era obrigatório passar no vestibular então somente, o funcionalismo público no País passou por uma fase de inércia, com cargos pouco valorizados, e, consequentemente, pragmatismo profissional, com pessoal desmotivado e inerte tanto economicamente quanto na parte funcional.
O cenário, a partir da década de 1990 – especificamente a partir da entrada do Plano Real – , começou a mudar. A injeção de ânimo, no caso, foi de dinheiro, com aumento substancial nos salários de postos-chave, elevando a produtividade e a fuga de recursos humanos para o setor privado.
“Fizemos uma pesquisa e verificamos que os salários dos administradores públicos eram 30% inferiores aos de quem ocupava cargos correspondentes no setor privado. Fizemos a balança começar a pender para o outro lado”, comentou Luiz Carlos Bresser Pereira, ex-ministro da Administração Federal e Reforma do Estado na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista à revista Veja, edição de julho deste ano.
Contudo, foi mesmo a partir do governo Lula que os concursos retomaram com fôlego total, pontua o cientista político Ricardo Ismael, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).
Para o estudioso, que trabalha no núcleo de Gestão Governamental e Políticas Sociais da instituição fluminense, esse quadro não tende a mudar, ao menos tão cedo. “Há (grande oferta de concursos), desde o governo Lula, e acho que isso não será revertido”, considera, em entrevista por telefone ao Jornal da Cidade.
Apesar de um breve hiato na abundância de vagas anunciadas observado neste ano, em comparação com os períodos anteriores, ele acredita que 2012 tende a ser um ano “de ouro” para os concurseiros, principalmente àqueles que já se preparam há algum tempo. “A tendência é de volta. O Estado precisa ampliar seu papel, renovar quadros, não deixar que os mesmos envelheçam”, conceitua.
Segundo ele, algumas grandes estatais ligadas à chamada administração indireta, como Petrobrás, Eletrobrás, BNDES ou Banco Central, nunca deixaram de ser atrativas ou de ter quadros qualificados. “Pode ser que num momento ou outro tenham segurado um pouco (contratações). Mas, geralmente, além do salário vantajoso, sempre tiveram recursos próprios como empresas grandes, que não mudam muito ao longo da história” observa.
De acordo com o pesquisador, é na parcela ligada ao ramo conhecido como administração direta que o velho estereótipo do “carimbador de papel” se aplica. “Quando se fala do funcionário público existe uma diferenciação. O problema maior sempre foi na administração direta, áreas de saúde, educação, segurança pública. Aí sim há uma mudança, em parte já a partir do governo FHC, na gestão do (ministro) Bresser Pereira”, credita.
Essa mudança, conforme o professor da PUC-RJ, se dá, principalmente, a partir da criação dos cargos de gestão sobre recursos públicos. “Instituída a carreira de gestor público, aquela ideia do velho funcionário que só ficava carimbando tende a ser superada. O gestor está voltado para resultados”, diferencia ele, acreditando numa mudança gradual, a médio ou longo prazo.
Nessa esteira, confia Ismael, cada vez mais “sangue novo” entra no setor público. “A gente vê muito jovem e os concursos muito disputados, pelos salários que oferecem nesta área de gestor. Há uma perspectiva, não apenas no Governo Federal, mas também nos Estados, com essa carreira”, enfatiza.
O ‘Papa-prova’
Atualmente num dos cargos mais cobiçados na esfera pública, o procurador da República Manoel Pastana é um dos maiores exemplos de que água mole em pedra dura tanto bate até que aprova. Após quatro tentativas frustradas de ingressar como sargento da Aeronáutica, o primeiro concurso que prestou, obteve aprovação apenas na quinta. Daí em diante, o ex-faxineiro paraense, de família humilde, não parou mais de passar.
Após formar-se em Direito, emplacou outras cinco aprovações – três delas em primeiro lugar – até assumir o cargo atual. Autor do livro, “De Faxineiro a Procurador da República” (Editora Pastana), o ex-aluno de escola pública ensina concurseiros a não desistir dos objetivos, além de divulgar denúncias relacionadas ao Ministério Público Federal e à própria Presidência da República.
As lições de obstinação e persistência de Pastana são talvez algumas das mais valiosas para quem realmente deseja passar numa prova para preenchimento de cargo público. Apenas no último concurso promovido pela Polícia Federal (PF), um dos mais almejados do País, para cargos de escrivão e agente, mais de 114 mil candidatos se inscreveram.
Desse montante, também de acordo com números divulgados pela revista Veja, apenas 1.760 foram selecionados para exames psicotécnicos e físicos. Dessa peneira, resultaram 653 aprovados, encaminhados para treinamento na Academia Nacional de Polícia, em Brasília (DF). Após período de instrução, com recebimento de metade do salário de um policial federal, restaram 518 formados, 78 a menos do que o déficit de efetivo da corporação.
Atrativo
Nos últimos cinco anos, ao menos em Bauru, houve um aumento em 50% nos jovens, com menos de 30 anos, inscritos em concursos públicos. A observação é do diretor da escola LFG Concursos da cidade, Ricardo Martins Garcia. “Antes predominava uma faixa etária na casa dos 30, 35 anos. Agora diminuiu. A estabilidade no trabalho, salários melhores do que no setor privado e plano de carreira, desde o primeiro dia, incentivam”, relaciona.
Garcia confirma os bons ventos esperados para a partir do próximo ano no campo de concursos públicos. “Temos notícias de que a Receita Federal lançará, de 2012 a 2015, mais de 13 mil novos cargos de alto salário, entre R$ 5 mil e R$ 12 mil”, vislumbra.
“Hoje, alunos só com ensino médio buscam salários de R$ 1,5 mil a R$ 5 mil. Entre os graduados, vai disso a R$ 18 mil e até a R$ 22 mil”, acrescenta Ricardo. Muitos (estudantes) saem do ensino médio e vem para o curso preparatório apenas para o concurso neste nível. Em seguida, estabelecido financeiramente, com uma renda de R$ 2 mil, ele parte para uma graduação”, observa, estimando que cerca de 10% de seus alunos optaram pelo concurso antes da sala de aula universitária.
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