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Educação, vida e fé na visão de Cortella

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 9 min

Cada vez mais ligado à vida profissional, ao invés de desenvolver uma maneira eficaz para harmonizar trabalho com demais afazeres, o homem moderno tende a separar seus relacionamentos e sua maneira de agir. A vida agitada e a falta de tempo impostas pelas metas a serem cumpridas refletem também na maneira como é conduzida a vida que muitas vezes é separada e chamada de "social".

Com o propósito de debater sobre o tema, Mário Sérgio Cortella, um dos filósofos mais conhecidos do Brasil, realiza no próximo dia 13, às 19h30, na escola de línguas FourC de Bauru, palestra com o tema "Valores e o desenvolvimento de uma performance harmoniosa".

Segundo o próprio Cortella destaca em entrevista ao JC, o tema é uma análise sintetizada sobre a necessária harmonia da vida com a atividade profissional, e que também é tratado em seu novo livro, "Vida e carreira - um equilíbrio possível?", escrito em co-autoria com Pedro Mandelli e publicado pela editora Papirus. "Existe um mito estranho que algumas pessoas levantam que é de separar a vida profissional com outras interfaces da vida. Algumas pessoas dizem até que a vida profissional não está equilibrada com a vida pessoal, quando na verdade não temos duas vidas diferentes, e sim uma vida e uma profissão. Abordamos a necessidade de se construir equilíbrio e harmonia da vida no conjunto. A intenção é mostrar que a vida profissional é parte da vida pessoal e não algo separado", conta.

Doutor em educação, aos 57 anos Cortella mantém a cadeira de professor titular da Pontífice Universidade Católica (PUC-SP) desde 1997 com docência e pesquisa no Departamento de Fundamentos da Educação e na Pós-Graduação em Educação.

Sua atuação por 32 anos no Departamento de Teologia e Ciências da Religião e o trabalho desenvolvido ao lado de Paulo Freire na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo no governo de Luiza Erundina (1989/93), frequentemente o colocam em meio a discussões sobre temas relacionados com educação e religião.

Em entrevista concedida ao JC ele dissertou sobre o sistema de educação no Brasil, a banalização das funções da religião e também comentou sobre a falta de ideologia do que chama de "mundo vazio".

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?Vivemos em um mundo muito vazio?, diz filósofo


Considerado "o filósofo do Brasil" por sua participação efetiva em debates sobre temas polêmicos na sociedade brasileira, Mário Sérgio Cortella faz uma análise da juventude que, em meio à era da informatização, ainda recorre às lutas de combate à Ditadura Militar e às ideologias pregadas por herois do passado para reafirmar o compromisso de defender seus direitos.

As dissertações sobre os temas, de acordo com o filósofo, compõem a função da ciência que prega o incentivo ao pensamento crítico, e que hoje é mais bem vista no País:


Jornal da Cidade - O que é filosofia?

Mário Sérgio Cortella - "É a capacidade de indagar, de não se conformar com o óbvio, de se perguntar pelos ?porquês? e não se conformar apenas com os ?comos? das coisas. Filosofar é ir buscar as razões, em busca de explicar as coisas. Em síntese, é uma insatisfação com os ?comos? e uma busca pelos ?porquês?.

JC - Qual o grande papel da filosofia?

Cortella - "A filosofia pode nos tirar de uma certa área de conforto que é a acomodação às explicações mais óbvias da vida e da história. Cabe à filosofia, em sua trajetória, não se satisfazer com aquilo que parece óbvio mas procurar ir atrás daquilo que não está sendo visto. Em última instância, a tarefa da filosofia é ajudar a suspeitar, a ter um pensamento crítico".

JC - Como é ser um filósofo?

Cortella - "Essa é uma atividade que vem encontrando uma valorização maior nesses últimos anos. Há algumas décadas era considerada uma atividade muito lateral e, portanto, muito superficial na importância na sociedade, mas hoje já ganha uma estrutura e um status um pouco mais elevado à medida que o tema filosofia passou a interessar mais as pessoas. Assim sendo, é menos intranquilo hoje dedicar-se à atividade do exercício filosófico do que foi à pouco tempo.

JC - Mas essa é uma valorização, ou ?modinha??

Cortella - "As duas coisas. Temos tanto a valorização da filosofia como moda, como uma coisa passageira, como também temos pessoas que de fato, por conta até da exaustão produzida por um mundo marcadamente tecnológico, foram conduzidas à percepção da necessidade de se pensar mais e não viver de forma robótica e automática".

JC - Como enxerga o mundo informatizado?

Cortella - "A informatização trouxe praticidade. Mas o prático nem sempre é o certo, é apenas o prático".

JC - Como assim?

Cortella - "Por exemplo, é mais prático colar do que estudar, mas colar não é o correto. Quero dizer que a comunicação facilitada também gera uma falta de comunicação. Neste mundo nós não ficamos e daqui nada levamos. Os chineses têm um ditado que diz que ao final de uma partida de xadrez, o pião e o rei vão para a mesma caixinha. Então, a questão é o que realmente vamos deixar quando formos embora?".

JC - Falta ideologia?

Cortella - "Sim. Porém isso é uma responsabilidade da geração adulta que aqui está. Afinal de contas, as crianças e os jovens não nasceram prontos. Ter o Steve Jobs (co-fundador da Apple que morreu na última quarta-feira) como heroi, por exemplo, é uma coisa muito boa. Pois ele é um exemplo em sua trajetória de alguém dedicado, inteligente, esforçado e que construiu uma relação de aproximação de comunicação. A grande encrenca é quando alguns jovens e crianças tornam heróis pessoas que não têm importância, que são apenas famosos. Esse mundo que está sem ideologia é um mundo muito vazio devido a fluidez tola e superficial. Escola, família e mídia precisam assumir sua tarefa em vez de ficarem apenas apontando o dedo para os jovens e achando que o jovem de hoje é vazio quando ele em grande medida foi esvaziado pela geração adulta".

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Educação: ?Estamos no fim do começo?


Filósofo por formação e docente há mais de 35 anos, Cortella se sente mais a vontade quando chamado de professor. Sua relação com a educação, os estudos realizados sobre o tema e a estreita relação com Paulo Freire ? seu orientador de doutorado - o fizeram uma referência no assunto.

Assim como Freire expôs em diversos trabalhos, Cortella enxerga na educação muitas saídas para os problemas da sociedade, mas critica o fato de inúmeras famílias transferirem sua responsabilidade para as escolas:


JC - Avalie o sistema de educação?

Cortella - "Não podemos ter sobre a escola brasileira nem uma visão catastrófica e nem uma visão triunfalista. Isto é, não podemos olhar do mesmo jeito que estávamos há 20 anos porque nós melhoramos demais. Mas também não podemos ter uma visão triunfal achando que já melhoramos o necessário. Ao contrário, para usar uma frase antiga, estamos apenas no fim do começo e não no começo do fim de nossa trajetória. Várias coisas já foram feitas, mas muitas ainda precisam ser realizadas. Não dá pra ficar em estado de pânico, mas também não dá pra relaxar".

JC - E quais medidas podem trazer melhorias?

Cortella - São necessários quatro grandes medidas dentro da educação. Primeiro - A democratização do acesso e da permanência, para aumentar o número de pessoas na educação básica e não apenas no ensino fundamental. Segundo - a democratização da gestão, para termos uma maior participação da comunidade escolar, com pais, alunos, professores e funcionários na gestão da educação na cidade. Terceiro - maior qualidade de ensino, com a formação de educadores e educadoras com investimentos mais significativos. E em quarto lugar - educação de jovens e adultos pois, num mundo que se discute a alfabetização digital, nós ainda temos 14 milhões de homens e mulheres com mais de 15 anos de idade que não sabem ler nem escrever sequer o lema da própria bandeira na qual está escrito ?Ordem e Progresso?".

JC - O Brasil investe pouco em educação?

Cortella - "Do ponto de vista do PIB (Produto Interno Bruto), o Brasil investe (em educação) o equivalente às nações mais desenvolvidas, que é de 4,5% a 5%. Só que isso serve para países que já estavam numa recuperação das condições da educação. Para um país como o nosso, isso é só um ponto de partida. Nós temos de chegar aos 7,5% do PIB nos próximos anos no campo público e privado. Pelo menos até 2020 temos que chegar a um investimento de até 10% do PIB para que possamos sair de condições mais precárias.

JC - Por que existe pouco entusiasmo de candidatos ao tratar a educação em suas campanhas?

Cortella - "A educação, embora não esteja em uma condição que consideramos satisfatória, se encontra em um patamar superior a outras áreas sociais. É o caso da habitação, do saneamento básico e da saúde. Por isso todas as vezes que se pergunta à população em geral quais as prioridades que ela tem, efetivamente ela se encontra menos insatisfeita com a educação escolar do que com as áreas de saúde, habitação e transporte, por exemplo. Portanto é compreensível.

JC - A escola assumiu as vezes da família?

Cortella - "Esse é um grande erro, mas acontece. O papel da escola é fundamental, assim como o da família e de toda a sociedade. O que não se pode é transferir responsabilidades".

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?Algumas religiões cumprem função e outras se aproximam da patifaria?


Considerado por muitos estudiosos o "ópio do povo", a religião também é objeto de estudo do filósofo brasileiro. Sua relação com a fé, aliás, vem desde a adolescência, quando auxiliava na celebração de missas com apenas 14 anos.

Em uma sociedade cada vez mais intolerante, o Brasil se configura como um dos países com maior índice de homicídios do planeta. A religião, para Cortella, tem o poder de exercer papel fundamental na busca de uma melhor convivência entre todos, mas também já virou alvo de aproveitadores:


JC - Qual o papel da religião?

Cortella - "Não existe uma única expressão religiosa. Religião é sempre tratado no plural. À medida que temos uma sociedade plural e pluralista, a religião também é no plural. Algumas religiões hoje são alienadas, estão voltadas para uma ausência de senso crítico e se dedicam a mero negócio no campo religioso. Já outras que são mais autonomistas e libertadoras, fazem um trabalho mais voltado à comunidade, e esse seria o grande sentido. Mas não há hoje um único modo de religião.

JC - As pessoas ficam muito mais na oração do que na ação?

Cortella - "Uma parte delas (religiões) cumpre uma função importante de agregação e solidariedade, e outras por usarem como mero negócio, exploram seus fieis e se aproximam da patifaria. Então você tem algumas práticas religiosas que são patifes e outras que são altamente relevantes. A decisão das pessoas espero que seja cada vez mais por religiões que cumpram seu papel junto às comunidades".


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