Lá se vão 20 anos. No Dia das Crianças do longínquo ano 1991, nascia um dos tantos "filhos" do Jornal da Cidade. No entanto, o recém-nascido nunca deixou de ser criança. Passaram-se duas décadas. Nesse tempo, ele ficou mais encorpado, se encheu de cores para combinar com as outras crianças, mas nunca deixou de ser divertido, brincalhão e cheio de histórias para contar.
Como uma forma de comemorar a data, republicamos a seguir a primeira de todas as histórias que, ao longo do tempo, vêm encantando a criançada e também pais, tios, avós, etc. O texto inaugural do JC Criança fazia uma alusão ao surgimento do Dia da Criança. Para aqueles que tiveram a oportunidade de ler esta história há 20 anos, é hora de relembrar e reviver aquele momento tão marcante. Quem não leu, tem a chance de fazê-lo, agora.
A lenda do arco-íris
Garotinho morava numa cidade chamada Brincadeira, onde vivia sozinho, numa casa no meio da estrada. Todas as manhãs, ele conversava com uma jabuticabeira que recebia os raios de sol logo quando a noite virava dia de novo. Cada jabuticaba tinha um nome: a maior era Papai; a mais delicada, Mamãe; e as outras três, Irmãozão, Irmão e Irmãozinho.
Numa noite, Garotinho sentiu vontade de falar com as jabuticabas, mas isso só era possível quando o céu estava azul. Mesmo com as estrelas iluminando aquela única árvore que existia perto de sua casinha, Garotinho tentou:
- Por que vocês ficam aí, grudadas? Será que não podiam morar comigo?
- Você não deveria estar preocupado com isso hoje... ? ecoou uma voz.
- Por quê? Por quê? Por quê?
Garotinho ficou horas e horas parado, triste, olhando aquelas jabuticabas que nada diziam. Quando chegou meia-noite, ele resolveu ir dormir. Arrumou a caixa de fósforos como sempre fazia. Primeiro, um punhado de grama para ficar macio.
Depois, apanhou mais um pouco para fazer travesseiro e, por último, cobriu-se com uma folha de maracujá-branco, planta que ele visitava uma vez por mês e que ficava a três horas de caminhada, já que seus pés eram do tamanho de uma semente de amendoim. Dormiu como um anjo, talvez o menor que existia...
Esfregou os olhinhos, coloridos como o arco-íris. ? Nossa já amanheceu? ? murmurou sozinho.
- Nós amamos você, Garotinho! ? gritaram cinco vozes ao mesmo tempo.
Quando Garotinho olhou com mais calma à sua volta, viu um arco-íris em toda a extensão da parede. Foi mais perto e... Não acredito! ? pensou. As cinco jabuticabas que ele conversava todas as manhãs estavam saltitando nas curvas daquele arco-íris. Garotinho, com um grande sorriso nos lábios, tocou a parede... No momento em que se deu conta, tinha virado uma jabuticaba.
Como vivia muito sozinho, Garotinho não se conteve. Abraçou e beijou Papai, Mamãe, Irmãozão, Irmão e Irmãozinho. Depois, todos pularam amarelinha, brincaram de esconde-esconde, pega-pega, nadaram no rio que tinha num ponto do arco-íris e cantaram muitas músicas.
Quando as jabuticabas pararam para descansar, de repente, surgiu uma semente daquela fruta redonda, negra e tão saborosa. A Mamãe pensou que aquela semente tinha que germinar e, num gesto delicado e rápido, deu três tapinhas em seu bumbum. A semente começou a chorar e, pouco a pouco, foi se transformando numa jabuticaba-bebê.
- Meu filhinho! Que lindo! ? disse mamãe, com lágrimas nos olhos. Ela pegou-o no colo e, emocionada, olhou de perto seu filhinho caçula. Mas, quem diria? A jabuticaba-bebê era o Garotinho!
Papai, Mamãe, Irmãozão, Irmão e Irmãozinho não se lembravam mais de que Garotinho, quando não era jabuticaba, visitava-os todas as manhãs. Na lenda do arco-íris, o Dia da Criança surgiu em 12 de outubro, quando Garotinho deixou de ser sozinho, de viver numa casa no meio da estrada e de dormir numa caixa de fósforos.