A morte de Steve Jobs é o assunto do momento. Compactuo com todos que o enxergam como um gênio. O que questiono nestas linhas, contudo, é a obsolescência de suas criações - ou seja, o fato de que suas engenhocas foram feitas, inteligentemente, para durar uma temporada e depois parecerem velhas. O escritor argentino Néstor Canclini é um grande estudioso de comunicação, cultura, sociologia e do quotidiano na América do Sul. Em seu livro "Consumidores e cidadãos", Canclini investiga a cultura moderna no sentido de sua desterritorialização - face à realidade da globalização - e no da transformação da cidadania em consumo (de cidadãos em consumidores).
Por que estamos nos transformando em consumidores ao invés de cidadãos? Porque o lugar do consumo foi tomando o lugar da cidadania nas práticas do mundo atual. Isso aconteceu, principalmente, a partir dos anos 1950, com a "American Way of Life" e todas as suas promessas de felicidade através da compra e da posse de produtos inovadores e facilitadores do dia-a-dia. Tal poder ideológico espalhava a impressão de que os americanos eram melhores do que os outros. Assim, todos os que seguissem o estilo de vida americano estariam no topo da pirâmide da felicidade e do bem estar.
A globalização só fez exacerbar esse sentimento de que precisamos tanto de algo que não era necessário antes, de que não conseguiríamos viver sem a posse de certas coisas que a indústria e a mídia criam. No lugar, portanto, do homem cidadão, que deveria lutar para exercer sua cidadania e garantir seus direitos fundamentais, surge o homem consumidor, que luta para adquirir os produtos que estão em voga no dia de hoje e que logo serão substituídos por outros melhores, tornando-se completamente obsoletos. Steve Jobs era um grande mestre em criar demandas. Seus lançamentos tornavam-se eventos concorridos. Quando lançou o IPad, causou um alvoroço insano no mundo todo, com multidões sonhando - simultaneamente ao anúncio do produto - em adquiri-lo o mais rápido possível. Muitos nem sabiam exatamente para que servia o aparelho.
Por que será que somos tomados por esse frenesi? Por que temos que ter a posse do novo produto no momento do lançamento, se é sabido que em pouco tempo ele estará mais barato? Sabemos que os IPads não vão acabar, e que se todos os seis bilhões de habitantes do mundo quiserem um IPad e tiverem dinheiro para comprar, a indústria irá produzir seis ou mais bilhões de unidades. Então, por que a pressa? Foi assim quando o Windows Vista foi lançado. Formaram-se filas enormes em frente às lojas para adquirir o produto no primeiro dia, mas ele estaria lá no segundo dia, uma semana depois, três meses depois. E tudo isso para descobrirem, mais tarde, que o produto era muito ruim. Ninguém mais quer.
Não sou nenhum apocalíptico da tecnologia, que acha que devemos voltar ao modo de produção pré industrial para sermos melhores. Eu sei que as tecnologias eletrônica, cibernética, robótica e sei lá mais quantas, são grandes facilitadoras de nossas vidas. O que incomoda é o "auê", é ter que ler o novo Harry Porter na madrugada do lançamento, só para sair dizendo: eu já li. O que se discute aqui, na verdade, é o fetiche pela novidade tecnológica. É aquilo que faz o mundo dos Jetsons (o desenho animado) ser o que é: um mundo regido pelo mito da dualidade entre o animal e o humano, o natural e o artificial, o primitivo e o avançado. Através das mensagens que a propaganda espalha, o homem pós-moderno só se sente humano nessas segundas opções. É um modo até legítimo de pensar, mas que tem lá suas muitas consequências. Acredito que Steve Jobs foi um divisor de águas e um grande inventor. Porém, é um tanto incômodo saber que as pessoas do futuro vão olhar para trás e entender que o mundo era um antes do computador pessoal e outro depois. Seria bom, também, ver esse divisor de águas em algo que não pudesse ser consumido, levado para casa, mas sim compartilhado nos ambientes coletivos, no velho mundo da cidadania.
O autor, Luís Paulo Domingues, é colaborador de Opinião