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Crianças dão ?vida eterna? a super-heróis

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Aceituno Jr.

Yan é fã do Ben 10 e já teve duas festas de aniversário com o tema do super-herói, além de brinquedos e objetos de decoração

Batman foi criado em 1932, mas com sua capa preta e uniforme de morcego, continua arrebatando as novas gerações. O Super-Homem, também septuagenário, é outro herói adorado pelas crianças. Mais novo, com “apenas” 50 anos de existência, o Homem-Aranha também inspira as brincadeiras, a decoração dos quartos e as fantasias - no sentido literal, inclusive - da garotada nascida já neste século. 

Os três são apenas alguns dos antigos super-heróis mundialmente conhecidos que ainda fazem grande sucesso entre os pequenos. Embora novos personagens também venham ganhando espaço, como Ben 10, Pokémon e Dragon Ball Z, eles conseguiram manter a preferência do público infantil tornando-se até mesmo mais politicamente corretos para atender às transformações da sociedade contemporânea.

O fato de terem feito parte da infância de pais e avós desta nova geração de crianças também conta para a renovação desta paixão, conforme explica o professor Pelópidas Cypriano, chefe do departamento de Artes Plásticas do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São Paulo. “Pode até ser que o que o filho venha a odiar o que pai adorava, pelo antagonismo próprio que existe entre uma geração e outra. Mas é bem comum o avô transferir suas paixões para o neto”, observa.

Foi o que aconteceu com a funcionária pública Ziley Mara Calepso de Castro, 46 anos, avó do pequeno Fernando, de apenas 1 ano e 2 meses de idade. Mesmo sem entender quase nada sobre a história do personagem, ele já demonstra predileção pelo herói incorporado pelo fotógrafo Peter Parker, que também  marcou a infância de sua avó.

“Hoje (ontem), ele foi a uma festa a fantasia vestido de Homem-Aranha e também tem um boneco, que é um dos que ele mais gosta de brincar. Espero que ele continue gostando, porque é um personagem muito humano e que quer fazer sempre o bem”, pontua.

Pelópidas afirma que, como toda paixão, não há um motivo racional que leve uma criança a idolatrar mais um do que outro personagem de ficção. Além do incentivo familiar, ela pode ser estimulada por coleguinhas de escola e pela televisão.

 


Fantasia e realidade


Não há, em nenhum aspecto, correlação direta com a personalidade do herói, que nem sempre tem comportamento tão irretocável como o esperado para alguém que luta contra o Mal. “O Pica-Pau tinha muitas atitudes reprováveis e violentas, o Homem de Ferro era um bêbado que fomentava o mercado de armas, mas nem por isso influenciaram o comportamento agressivo das crianças. Elas sabem distinguir intuitivamente entre fantasia e realidade”, diz o professor.

Mas, para atender às expectativas da sociedade atual, os desenhos são permanentemente atualizados e, ao longo do tempo, se tornaram mais pedagogicamente responsáveis. “Os heróis tentam atender a demanda de valores de cada época. Hoje, certamente, existe um patrulhamento muito maior acerca da agressividade, então eles se adaptam, embora a essência seja mantida”, cita.

Ainda na década de 1960, o próprio Homem-Aranha surgiu como um herói mais humanizado em relação a seus colegas “das antigas”. Nesta adaptação de valores, entretanto, a mulher continua ocupando um espaço restrito nos quadrinhos e desenhos animados. “Elas ainda não protagonizam as histórias, mas deixaram de desempenhar papéis meramente decorativos. Elas já tomam decisões, são mais livres e ativas”, aponta.

São mudanças que procuram fortalecer a relação de consumo entre as crianças e seus super-heróis, mas Pelópidas diz que este interesse mercadológico não diminui o valor afetivo e os ganhos lúdicos para os pequenos que se deixam levar pelas histórias fantasiosas de seus ídolos da ficção. “A criança quer brincar, divertir-se e é isso que importa. O produto em si (herói) não é algo ruim. Basta observar o uso que se faz dele”, assegura. 

 

É festa!

Além de cumprir seus compromissos em defesa do Bem, os super-heróis nunca faltam às festas infantis, nas tradicionais comemorações temáticas de aniversário. Em não raras vezes, o aniversariante, inclusive, escolhe como roupa de gala o uniforme do personagem, composto por capa, máscara e insígnia.

O pequeno Paulo Henrique, filho da fisiologista Ana Cláudia Martins Sampaio Teixeira, 40 anos, comemorou seus 4 anos vestido de Homem-Aranha. “Foi ele quem pediu. Foi bem legal”, diz a mãe.

De acordo com ela, o interesse surgiu no ano passado, por influência dos amigos de escola. “Ele também gosta do Batman, Super-Homem e do Buzz Lightyear (boneco astronauta do filme Toy Story), mas ama mesmo o Homem-Aranha. Já saiu para passear na rua com a fantasia que ele usou no aniversário. A gente incentiva, porque ele se diverte muito”, comenta.

 

Novos personagens estimulam a interação

As mães entrevistadas pelo JC contam que os novos personagens de desenho animado também tem espaço garantido nas brincadeiras da geração de crianças. E, diferentemente do que ocorre com os super-heróis de longa data, o mercado lança em nome deles produtos que estimulam a interação entre os pequenos.

Márcia Renata de Oliveira Carvalho, 41 anos, mãe dos trigêmeos Augusto, Gustavo e Vitória, de 9 anos, conta que Augusto é aficcionado pelo desenho japonês Pokémon, que engloba uma variada gama de produtos, incluindo pequenos bonecos e cards que podem ser trocados entre crianças, como ocorriam com figurinhas e papéis de carta na década de 1980.

Já Yan, filho de Lissandra Mahnis Ruiz, 34 anos, gosta de assistir ao desenho animado norte-americano Ben 10. Com 5 anos, ele já teve duas festas de aniversário com o tema do personagem, que envolveu toda a garotada. Além de fantasia, tem adesivos do herói adolescente colados na parede do quarto, jogo de cama, o famoso relógio de pulso que, na ficção, permite que Ben 10 se transforme em criaturas alienígenas. “Amanhã (hoje), ele vai ganhar um brinquedo do personagem. Mas ele também gosta de Batman, Homem Aranha, Homem de Ferro e Dragon Ball Z.”

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