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Muitas vezes, a oportunidade está atrelada a espontaneidade, por meio de ações a princípio despretensiosas. Gestos altruístas em prol de outras pessoas ou entidades, aos olhos do mercado de trabalho, contam muitos pontos na hora de contratar. É o que afirmam especialistas na área de recursos humanos. Eles atestam: voluntariado tem peso enorme no currículo.
Para algumas pessoas, contudo, voluntariado representa filiar-se a instituições mundiais com bandeiras igualmente globais. Diferente desse pensamento, uma atitude em benefício do próximo pode ser realizada na própria cidade e até mesmo na rua onde moramos.
Em Bauru, não falta gente comprometida em ajudar outras pessoas, principalmente jovens, seja através de instituições filantrópicas ou por iniciativa própria.
Desde 2009, o estudante Adham Felipe Marin, 16 anos, engrossa o contingente de jovens que, de um jeito ou de outro, mostram que ser humano ainda tem jeito.
Independentemente à possibilidade de ser visto com melhores olhos pelo mercado de trabalho no futuro, o adolescente garante que se dedica semanalmente ao entretenimento de crianças hospitalizadas pela gratificação em saber que, ao menos, minimizou o sofrimento dos pequenos atrelados a um leito ou paredes hospitalares.
“A gente leva alegria para essas crianças”, festeja o rapaz, atualmente cursando o segundo colegial e integrante do Projeto Alegria, que, diariamente, envia voluntários para instituições hospitalares da cidade. “É um trabalho recreativo, o mais importante é que as crianças se distraem”, considera.
O adolescente conta que sua atenção voltou para o trabalho voluntário a partir de uma matéria de jornal sobre o tema. Desde então, ele conta que não há dinheiro que pague pela realização pessoal que sente ao deixar o Hospital Estadual, onde está toda segunda-feira à noite junto a crianças acometidas por uma série de doenças, algumas delas de partir o coração do mais pró-ativo voluntário. “A gente pensa em ajudar, mas quem sai ajudado somos nos mesmos”, ensina.
Com o mesmo pensamento, mas ciente de que gestos nobres podem ser revertidos em benefícios proporcionais, a jovem veterinária Larisa Besan de Góes, de 23 anos, também faz o que pode para alegrar crianças internadas.
Integrante do mesmo grupo que Adham, ela enaltece as lições aprendidas tanto na ala infantil do hospital quanto com idosos também com a saúde debilitada. “Cada lugar é uma lição de vida”, considera. “É importante (em termos profissionais), mas acho que, no momento em que vamos ajudar, não podemos pensar em nada, a não ser em colaborar”, conceitua a jovem, ainda em busca de colocação no mercado de trabalho.
Segundo ela, o maior propulsor para a iniciativa voluntária foi o amor que nutre por crianças e idosos. “Se eu pudesse iria todos os dias, até mesmo aos sábados à noite”, acentua a voluntária. “No hospital, o caso que mais me marcou foi de um garoto de seis anos, que tinha leucemia. O menino não largava de mim”, recorda Larissa, que, vestida de palhaço, faz as crianças esquecerem a dor.
Em família
Independentemente ao fato do trabalho voluntário turbinar as chances de colocação profissional, ele é um bom exemplo e pode ser passado de geração para geração.
É o que acontece com o casal Henrique Rocha dos Santos e Jânia Freitas dos Santos. Moradores do Jardim Redentor, eles, ao lado da filha Camila, de 15 anos, trabalham com crianças e jovens atendidos pelo Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac).
Com o colorido dos fantoches e brincadeiras, eles participam da evangelização de aproximadamente 300 pessoas, entre crianças e adolescentes. Henrique, que toca violão, ainda anima os alunos com sessões musicais antes das aulas. Anteriormente, o casal se dedicava à distribuição de sopa, na mesma instituição. “É maravilhoso poder ajudar outras pessoas”, testemunha Jânia. “Às vezes, o benefício nem é para eles, mas sim por nós mesmos”, acrescenta, orgulhosa da filha adolescente, que segue a mesma trilha, ao lado dos pais.
Sem culpa por ser melhor
Esse sentimento, desde que sincero, por parte do voluntário, explicam especialistas no recrutamento de recursos humanos, pode sim acarretar benefícios na carreira profissionais, dos quais o jovem candidato a uma vaga no mercado deve se orgulhar sem culpa, já que a iniciativa é verdadeira.
“O comprometimento com uma causa a favor de outras pessoas conta como ponto positivo no momento da avaliação”, atesta a psicóloga Lívia Cordeiro, especializada em seleção de profissionais. “O trabalho voluntário resulta em vivência pessoal, ainda com o diferencial do princípio ético demonstrado por quem se dispõe a faze-lo”, acentua.
Flexibilidade e pró-atividade são outros atributos evidenciados por quem se dispõe, sem remuneração, em prol de alguém ou por uma causa. “A vivência do trabalho em equipe, algo muito exigido pelas empresas, é outro ponto a favor. O jovem mostra que não tem problemas em sair da zona de conforto”, detalha a psicóloga.
Altruísmo é benéfico ao aspecto emocional
Fazer o bem faz bem também para quem o pratica. A reciprocidade por abraçar uma causa, seja na sensação gratificante em simplesmente ajudar outras pessoas, ou então ter o esforço reconhecido com um currículo turbinado até mesmo para termos profissionais, é algo natural da própria essência humana.
É o que atesta a psiquiatra Florence Kerr Correa. Professora da faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu, ela observa que o ato de abraçar uma ideia e lutar por ela, envolvendo-se em programas beneméritos ou simplesmente agindo em benefício do próximo, é uma maneira a qual, instintivamente, encontramos para preencher nosso próprio vazio.
O diferencial, detalha a psiquiatra, é a natureza das ações, já que, na busca por lutar por algo, o ser humano tanto pode agir para o bem quanto para atitudes nem tão construtivas. “O princípio é o mesmo. O amor a uma causa tanto pode ser para o bem quanto para o mal também”, argumenta Florence.
De acordo com a psiquiatra, o fato de estar em grupo também é outra premissa humana e incentivaria as pessoas a se mobilizarem. Daí, novamente, a importância dos valores individuais. “A maioria das pessoas que têm um ideal, um foco ou acha que seu trabalho beneficia alguém se sente melhor do que outras que se sentem vazias. Algumas profissões, por si só, propiciam esse sentimento (de gratificação). Em outras, há a necessidade de se pertencer a um grupo”, observa Florence.
