Rio - O governo pretende atacar com uma nova iniciativa de qualificação profissional aquele que é identificado como um dos maiores problemas da nova classe média popular que emergiu da pobreza na última década: a grande rotatividade do emprego, que limita o crescimento da produtividade, tolhendo a ascensão social e o aumento da remuneração.
O projeto, que está em fase final de elaboração na Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), é o de oferecer um programa de qualificação profissional aos trabalhadores do setor formal com salário até dois mínimos. Um detalhe importante, porém, é que a qualificação terá de ser decidida em comum acordo com a empresa contratante, como forma de aumentar a parceria entre empregado e empregador e desestimular a rotatividade.
“Nós temos de mudar a lógica que tem presidido a política de qualificação no Brasil, que é sempre voltada para o desempregado, e não para o empregado”, diz o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Wellington Moreira Franco. Ele acrescenta que, “se queremos melhorar a produtividade, temos que dar qualificação para o trabalhador empregado”
Ricardo Paes de Barros, secretário de ações estratégicas da Presidência da República, explica que 24,5 milhões de trabalhadores formais (número de 2010), ou 56% do total na formalidade, ganham até dois salários mínimos. Em 2000, eram apenas 8 milhões, ou 31% do total do emprego formal. Dos 24,5 milhões, 63% pertencem à nova classe média popular, definida como aqueles em famílias com renda per capita familiar entre R$ 250 e R$ 1 mil.
O objetivo da política de redução da rotatividade é justamente proteger e fazer avançar essa classe média popular.
“Não há hipótese de economia rica, forte, grande, se não tem uma classe média que dê estabilidade política e econômica ao sistema”, diz Moreira Franco. E um dos alvos do governo é reduzir a rotatividade no emprego desse grupo, para aumentar sua produtividade.
Os número são impressionantes. Apesar de corresponder a 56% dos trabalhadores do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o grupo que recebe até dois salários mínimos respondeu por 82% das demissões no mercado de trabalho formal no Brasil em 2010.
Um exemplo é o de Rafael de Souza Pereira, de 24 anos, eletricista com o segundo grau. Rafael trabalhou pouco mais de um ano numa construtora em Volta Redonda, com salário de R$ 792, e saiu no início de 2011. Depois disso, já passou por dois empregos.
Segundo os números de Paes de Barros, a taxa de rotatividade no mercado formal está em alta no Brasil, mas é ainda maior no segmento até dois salários mínimos, no qual cresceu de 55% para 57% entre 2000 e 2010.
Essa rotatividade é em parte explicada pelo enorme aumento dos desligamentos a pedido, isto é, em que o próprio trabalhador pede demissão.
No total do trabalho formal, os desligamentos a pedido quase triplicaram, de 1,53 milhão em 2000 para 4,44 milhões em 2010. Nesse mesmo período, os empregos formais como um todo aumentaram 68%.
Mas o aumento dos desligamentos a pedido é ainda mais impressionante na faixa até dois salários mínimos. Entre 2000 e 2010, eles saíram de 902,5 mil para 2,9 milhões, mais do que quadruplicando.