O papa Bento 16, em seu "Jesus de Nazaré" (1º vol., 2007; 2º, 2011), embora diga que pretende mostrar o Jesus real, diz também que a sua fonte são os evangelhos. Estamos diante de uma obra de hermenêutica, de teologia, e não de historiografia.
Como foi possível naqueles primeiros vinte anos depois da morte e ressurreição de Jesus, que grupos desconhecidos, proscritos, à margem da sociedade, pudessem ser tão criativos a ponto de impor o Cristianismo?
O Jesus histórico ultrapassou todas as categorias disponíveis da interpretação, e só é possível compreendê-lo a partir do mistério de Deus.
Quando Bento 16 foi eleito papa, eu estava em Ubatuba, sem nenhuma preocupação com a vida ou a morte, mas ainda pude dizer lá comigo mesmo: "É um papa feito à medida para mim." Ao contrário de muitos outros católicos, que viam nele a figura do inquisidor, quase cruel em sua luta contra mudanças que humanizassem a Igreja.
Chamam-no ainda de Joseph Ratzinger, como a lembrar sua origem alemã, até querendo relacioná-lo com o nazismo, esquecendo-se da figura doce e conciliadora de Bento 16, que une cada vez mais o Cristianismo, além de nos aproximar das outras religiões.
Eu via como uma tábua de salvação a sua proposta contra o relativismo, que tanto mal tem feito ao mundo de hoje, negando valores absolutos como o bem, a verdade, a arte, Deus ou o próprio homem. O relativismo é a permissividade da socidade de hoje.
É muito difícil, quase humanamente impossível compreender a figura de Jesus. Muitos pensadores (dos útimos 150 anos ou dos primeiros quatro séculos do Cristianismo) humanizam tanto Jesus que chegam a se esquecer de sua divindade.
Por mais que vejamos Jesus como homem, próximo de nós, não podemos esquecer-nos de que é da mesma substância que o Pai. É esta verdade simples, mas difícil de aceitar para muitos, que Bento 16 ensina.
Nada de meias verdades. Jesus não foi apenas o homem revolucionário, mas Deus esvaziado de sua divindade para conter todas as fraquezas e misérias humanas.
José Carlos Brandão ? pai, professor e poeta, autor de "O silêncio de Deus" e "Memória da terra", entre outros.