Jerusalém - O soldado israelense Gilad Shalit e centenas de palestinos cruzaram as fronteiras de Israel em sentidos opostos ontem, com a troca de prisioneiros trazendo alegria para as famílias, embora tenha feito pouco para amenizar décadas de conflito.
Em uma das maiores trocas entre os dois lados, o sargento Shalit, de 25 anos, foi levado através da fronteira entre a Faixa de Gaza e a península do Sinai, do Egito, e entregue num posto de fronteira israelense, de onde foi conduzido a um helicóptero que o esperava para transportá-lo a uma base aérea de Israel, onde se encontrou com seus pais.
Simultaneamente, Israel começou a libertar 477 presos palestinos dos mais de 1.000 que fazem parte do acordo. Testemunhas viram o primeiro grupo chegando a Gaza. Outros devem ser libertados na Cisjordânia ocupada.
Outro grupo de 550 deve ser libertado ainda neste ano, e cerca de 40 estão sendo enviados para exílio na Turquia - que confirmou que aceitará cerca de dez -, Catar e Síria.
O ambiente em Israel era de júbilo, com cartazes de “bem-vindo ao lar” nas ruas e passageiros do transporte público assistindo ao vivo transmissões da troca em telefones celulares.
Shalit era visto como “o filho de todos” e pesquisas de opinião mostraram que a maioria dos israelenses apoiava o acordo mil-por-um, embora muitos dos presos libertados tivessem sido condenados por ataques que resultaram em mortes.
“Senti falta de minha família”, disse Shalit, que estava magro e respirando às vezes com dificuldade, em entrevista a uma TV egípcia antes de ser entregue a Israel. A declaração à emissora foi divulgada depois de sua transferência para Israel. “Espero que este acordo vá promover a paz entre Israel e os palestinos”, disse ele.
No enclave costeiro palestino, líderes islâmicos do Hamas alegaram defesa pela hostilidade em relação a Israel que, ontem pelo menos, ofuscou os esforços dos rivais liderados pelo presidente palestino, Mahmoud Abbas, na Cisjordânia.
Mas não havia nenhum sinal de Israel ou do Hamas de que o acordo poderia ser um ponto de partida para o diálogo. “O povo quer um novo Gilad, o povo quer um novo Gilad”, clamavam dezenas de milhares de pessoas em um comício em Gaza para os prisioneiros libertados, pedindo que seus combatentes capturassem mais soldados para ajudar a libertar alguns dos 5 mil palestinos ainda detidos por Israel.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, saudando o retorno de Shalit para casa, advertiu os ex-prisioneiros de que eles estariam “colocando suas vidas em risco” se “retornassem ao terror.”
Defendendo o acordo que deixou um sabor amargo em Israel, Netanyahu disse que sentiu a dor dos parentes de israelenses mortos por alguns dos palestinos libertados, mas salvar um soldado do cativeiro era um imperativo bíblico judaico.
Entenda o caso
Jerusalém - Gilad Shalit, que também tem nacionalidade francesa, foi sequestrado em 25 de junho de 2006, durante uma operação do Exército israelense na Faixa de Gaza, segundo a versão palestina, e em sua base em território israelense perto do limite de Gaza, segundo a versão israelense.
Quando capturado, Shalit era cabo e tinha 19 anos. Ele foi promovido a sargento durante seu sequestro e estaria em alguma parte da Faixa de Gaza, dominada pelo Hamas desde 2007, quando o secular Fatah, do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, foi expulso do território à força.
Nos últimos anos, Israel e Hamas fizeram negociações com a mediação do Egito, mas as divergências eram grandes sobre o número de palestinos que o grupo islâmico exigia que fossem libertados e o destino deles -Israel queria que ao menos 450 fossem exilados em vez de retornarem às terras palestinas.
O principal obstáculo para Israel era a libertação de aproximadamente 400 presos envolvidos em crimes violentos. O governo do Estado judaico se negava a libertá-los ou exigia que fossem enviados à faixa de Gaza, embora seu lugar de procedência e residência familiar fosse a Cisjordânia.
Ainda em julho deste ano, o chefe das Forças Armadas de Israel, Benny Gantz, escalou uma equipe especial para revisar a investigação sobre o cativeiro de Shalit, após o fracasso de várias tentativas de acordo com o Hamas.
Na época, o ex-chefe das Forças Armadas Gabi Ashkenazi disse, pouco antes de deixar o cargo, que Israel não possuía as informações exatas sobre a captura do soldado e, por isso, não tinha meios para localizá-lo e nem agir para sua libertação.
O Hamas chegou a divulgar um vídeo de Shalit no cativeiro após a mediação de países europeus. Antes disso, esforços da comunidade internacional tinham rendido apenas o envio de algumas cartas e um áudio.
Na última tentativa de acordo, o Hamas já exigia a libertação de mil presos em troca de Shalit.