Política

Cetesb avalia ?limpeza? em bosque

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

As denúncias do grupo Acorda Bauru acerca da retirada de árvores e possível desmatamento em uma Área de Proteção Permanente (APP) do bosque Parque União já chegaram à Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), que vai vistoriar o local para avaliar se houve ou não crime ambiental. Por outro lado, o titular da Secretaria municipal do Meio Ambiente (Semma), Valcirlei Silva, argumenta que a ?limpeza? executada pela administração municipal teve como objetivo recuperar uma área já degradada, que deverá ser urbanizada pela Prefeitura de Bauru.

O secretário confirmou a versão do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), publicada na edição de ontem do Jornal da Cidade, explicando que a intervenção no local era uma reivindicação antiga das comunidades em torno do bosque. A novidade é que Valcirlei admitiu a retirada de cerca de 20 árvores do bosque, tomado por vegetação cerradeira. "Todas as árvores eram leceunas, uma espécie exótica que prejudica a vegetação nativa", pontuou.

O titular da Semma explicou que a tubulação que existia em um afluente do Córrego do Castelo existente no local foi destruída pela chuva e pela erosão. O resultado foi o acúmulo de entulho e lixo jogado também por moradores. No entanto, após a ?limpeza? da prefeitura no local, Valcirlei diz que ainda não sabe sequer como todo esse material depositado no local será retirado.

Isso porque a intenção da administração é urbanizar o bosque, plantando novas árvores, reformando a calçada em torno da mata, melhor a iluminação do local e abrir uma trilha para caminhada. O secretário enfatiza, porém, que esse será um trabalho a longo prazo e o fato de a Semma não saber sequer como vai começar as intervenções mostrar que há projeto para isso.

Ambientalistas retrucam


Apesar dos argumentos da administração municipal, a Cetesb já recebeu os registros de reclamações e vai realizar uma vistoria no Bosque Parque União. O gerente do órgão em Bauru, Alcides Tadeu Braga, afirmou que técnicos avaliarão se havia no local vegetação que poderia ter sido suprimida, além de outros fatores relevantes para que eventuais providências sejam tomadas.

A denúncia contra a intervenção que foi iniciada há cerca de um mês partiu do grupo Acorda Bauru. Biólogos ligados ao grupo apontam a existência de uma nascente no local e rebatem os apontamentos do secretário do Meio Ambiente. O argumento é de que as leceunas são de pequeno porte e havia no local árvores grandes.

Outro questionamento se dá pelo fato de a ?limpeza? não foi feita de forma gradativa e não foi autorizada por órgãos ambientais competentes, como a legislação exige em casos de APPs.

Valcirlei Silva afirma que acompanhou todo o trabalho e garante que não houve a retirada de árvores da vegetação nativa. O secretário ressalta que a Polícia Ambiental foi comunicada sobre a intervenção. "Não fizemos nada escondidos até porque o local é aberto. O entendimento é de que a limpeza não afeta a vegetação do local", pontuou.

O titular da Semma, porém, admite que, caso a legislação seja ?levada ao pé da letra?, poderão ser constatadas irregularidades. "Acontece que há um problema social no local, que estava sendo usado para criminalidade. Os arredores já são urbanizados. Não tem como tirarmos as casas e as ruas de lá e também não poderíamos deixar do jeito em que estava", defendeu Valcirlei.

População comemora terraplanagem


Enquanto o grupo Acorda Bauru e ambientalistas protestam contra as intervenções da prefeitura no Bosque Parque União, moradores que vivem em frente ao local comemoraram a supressão da vegetação. Relatos dão conta de que mortes e crimes já foram registrados por lá. O bosque seria utilizado também como ponto para uso e tráfico de drogas.

O maquinista Arlindo Fideles Junior, 40 anos, mora na quadra 2 da rua Antonio Padilha desde que nasceu. Ele conta que muitas árvores estavam condenadas por cupins e caiam com a chuva. "Além disso, o pessoal usa aqui como depósito de lixo e entulho. A própria prefeitura chegou a plantar umas árvores, mas elas não vingavam", explica ele, que elogiou a ação da prefeitura.

Outra moradora, que vive em frente ao bosque há 47 anos, e prefere não se identificar confirma que a ?limpeza? era uma reivindicação antiga. "A gente não tinha nem como passar de um lado para o outro. Era muito perigoso".

Já a técnica de enfermagem e leitora do JC Renata Gonçalves da Silva procurou a reportagem para registrar sua indignação diante da postura de ambientalistas. "A gente que mora aqui vive a realidade do bosque, que estava sendo tomado por vândalos. Eles arrebentaram o alambrado que existia e a gente vivia com medo. Essa era uma obrigação da prefeitura. Inclusive, cheguei a assinar um abaixo-assinado nesse sentido", pontuou. Ela questiona também a informação de que moradores do local teriam se manifestado contrariamente à ação da prefeitura.

Comentários

Comentários