Depois de 21 dias detido na Cadeia Pública de Barra Bonita, Sandro Luiz Fernandes passou sua primeira noite na penitenciária de Tremembé 2, no Vale do Paraíba, região de São José dos Campos.
Por volta das 6h de ontem, o advogado bauruense foi transferido para o presídio conhecido por abrigar envolvidos em casos de grande repercussão na mídia (leia mais abaixo).
Segundo o delegado Antônio Ângelo Meneghel, da Cadeia de Barra Bonita, o procedimento de transferência já era aguardado pela administração penitenciária. “Nossa unidade é transitória. Aqui temos uma detenção provisória que não é adequada em casos como este de grande repercussão. Assim que recebemos ele (Sandro) já solicitamos a transferência para uma unidade adequada. Estávamos apenas aguardando uma vaga”, diz.
Em contrapartida, a defesa de Sandro alega ter sido surpreendida com a informação. “Não fomos informados disso e, sinceramente, apesar de conhecermos as deficiências do sistema prisional brasileiro, não esperávamos isso”, disse o advogado Hélio Marcos Pereira Junior, informado pela reportagem do JC sobre a transferência.
“Nesse momento preferimos não dar muitas declarações para preservar toda esta situação, mas devemos mudar algumas posturas no caso. Esperamos que ele (Sandro) seja mantido em cela separada, conforme estava em Barra Bonita”, limitou-se o advogado.
Sandro Fernandes estava em Barra Bonita desde o dia 30 de setembro, data em que teve prisão preventiva decretada após mais de 6 horas de depoimento na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Na ocasião, além dele, sua esposa, Fernanda Gomes Fernandes, também foi presa e levada à cadeia feminina de Avaí.
Ele é acusado de molestar duas jovens de 18 anos (que teriam sofrido os abusos entre 8 e 16 anos de idade), uma adolescente de 13 anos e um menino de 9 anos, todos de sua família, além de uma quinta suposta vítima, que trabalhou na residência do advogado.
Abatido
Bem diferente do traje social que costumava usar, o advogado deixou a Cadeia Pública de Barra Bonita de abrigo e sandálias. As imagens registradas pelas reportagens da Rede Record e do SBT mostram Sandro visivelmente abatido. Suas únicas palavras ainda dentro da viatura que o levou para Tremembé fazem menção ao menino de 9 anos que, segundo ele, “está sendo massacrado”.
Em princípio o advogado foi levado a um hospital local, onde realizou exame de corpo de delito para, em seguida, viajar pelos 438 quilômetros que separam as duas cidades.
Chegada
Em nota, a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) informou que Sandro deu entrada no presídio de Tremembé por volta das 14h. Ainda segundo a secretaria “ele permanecerá em regime de observação por 10 a 15 dias” e, nesse período, “poderá receber visitas apenas de advogados”.
O regime de observação citado pela SAP é semelhante ao que passou o jornalista Pimenta Neves, que também esteve detido em Tremembé por ter assassinado a ex-namorada Sandra Gomide, em 2000. Sandro deve ficar isolado por, pelo menos, duas semanas, e só depois terá contato com outros presos.
Presídio é conhecido por detentos famosos
O presídio Doutor José Augusto Salgado, também conhecido como Tremembé 2, para onde seguiu ontem o advogado Sandro Fernandes, não costuma abrigar presos comuns.
Construída em 1948, há 9 anos a penitenciária recebe os chamados presos especiais. De acordo com a SAP, com capacidade para 239 detentos o espaço hoje é dividido por 337 homens.
De acordo com a definição da própria secretaria, os presos levados para Tremembé costumam sofrer rejeição junto à população carcerária por estarem envolvidos em casos de grande repercussão ou por terem cometido crimes como pedofilia e estupro. Ainda são encaminhados a região do Vale do Paraíba condenados que correriam risco de morte em outros presídios, como ex-policiais e ex-agentes penitenciários.
São os casos de Alexandre Nardoni, acusado de matar a filha Isabella; dos irmãos Cravinhos, condenados pela morte dos pais de Suzane von Richthofen; do segurança Lindemberg Alves, acusado de matar a ex-namorada Eloá Pimentel, de 15 anos; e do segurança João Alexandre Rodrigues, que confessou ter esquartejado e queimado seus dois filhos.
Além desses, outros presos que tiveram seus nomes em exposição na mídia estiveram em Tremembé, como o médico Roger Abdelmassih, denunciado por 56 acusações de estupro em sua clínica particular; o jornalista Pimenta Neves; Francisco de Assis Pereira, o “Maníaco do Parque” acusado de torturar, estuprar e matar no mínimo 6 mulheres, e o agente penitenciário Alexandre Zambonaro Gonçalves, também de Bauru, acusado de ter assassinado os comerciantes Maurício Yamanoi, 41 anos, dono do bar Japa Lalá, e José de Nazaré Mendes, 72 anos, pai do proprietário do bar do Português.
No dia 30 de junho Zambonaro foi encontrado inconsciente, mas ainda vivo, dentro da cela onde permanecia preso desde junho do ano passado, na Penitenciária 2 de Tremembé. Ele chegou a ser levado ao Pronto-Socorro da cidade vizinha Tatuapé, mas sofreu uma parada cardíaca e não resistiu. A principal suspeita é que tenha cometido suicídio exatamente um ano e 11 dias depois da data dos crimes cometidos.
Fernanda, esposa do advogado, segue presa em Avaí e recebe visitas da mãe
A esposa do advogado Sandro Luiz Fernandes, Fernanda Gomes Fernandes, que também teve a prisão preventiva decretada no dia 30 de setembro por haver indícios de que tenha sido conivente com os abusos, segue na Cadeia Feminina de Avaí.
Conforme apurou o JC, não há determinações para que Fernanda seja transferida como ocorreu com Sandro. Uma funcionária da cadeia de Avaí, que pediu para não ser identificada, confirmou que Fernanda segue a mesma rotina desde quando foi presa, se alimentando normalmente mas sem o benefício do banho de sol. “Temos condições de receber esse tipo de casos com maior destaque na mídia por aqui. É bem diferente dos presídios masculinos, por exemplo. Ela (Fernanda) está numa cela separada, sem contato com as demais detentas, e recebe regularmente, às quintas-feiras, visita de sua mãe”, disse a funcionária.
Com capacidade para 48 presas a cadeia de Avaí abriga hoje 70 condenadas que, conforme o JC apurou, mesmo sem contato direto dom Fernanda Fernandes teriam conhecimento de sua presença. “Todas as celas possuem televisores e rádios e, logo no dia em que ela (Fernanda) chegou, as demais detentas já tomaram conhecimento disso”. Conforme apurado pelo JC, a chegada de Fernanda à cadeia feminina de Avaí gerou um princípio de tumulto: “As detentas gritaram e xingaram muito, batendo panelas e canecas nas grades. Na verdade elas só queriam dizer que não aceitavam que a Fernanda se misturasse”.
Fernanda foi indiciada como coautora dos crimes, já que as vítimas teriam pedido sua ajuda, sem que ela adotasse nenhuma providência sobre as denúncias.
Judiciário aguarda apenas um laudo referente ao caso, ressalta delegada
Já concluído pela delegada da DDM de Bauru Priscila Bianchini de Assunção Alferes, o inquérito do caso segue nas mãos do Judiciário. De acordo com ela, apenas um dos laudos solicitado à perícia ainda não foi entregue. “Os laudos psicológicos e sexológicos realizados nas vítimas, bem como os laudos das análises nos computadores apreendidos na casa do Sandro, já foram entregues ao Judiciário. Só resta o laudo da cena, que é a descrição da casa onde a família morava”, diz.
Em contato com a reportagem do JC, uma tia de três das cinco supostas vítimas de Sandro confirmou que foram solicitados dois tipos de exames pela investigação. “Além do exame psicológico, que confirmou que todos falavam a verdade e não mentiram, houve também ‘exame físico’. Não entendi muito o porquê, já que os casos teriam acontecido muito antes. Disseram que foi solicitado por precaução”.
A reportagem entrou em contato com um médico legista, que pediu para não ter seu nome revelado. Ele confirmou que, em casos parecidos, os exames realizados nas vítimas são fundamentais para a investigação, mas geralmente são feitos logo após os abusos denunciados. “Se passar alguns dias, algumas semanas e até alguns anos, fica complicado provar alguma coisa. É claro que, se houver ruptura do hímen no caso de meninas bem novas, temos uma situação que pode ser estudada. Mas se é uma coisa que passou muito tempo, é difícil encontrar alguma prova. Nem mesmo no caso de penetração anal, por exemplo, já que a musculatura pode se recompor após alguns dias”.
Questionada sobre o parecer dos laudos, a delegada preferiu manter a discrição. “Não posso revelar detalhes sobre o processo, por dois motivos, primeiro porque o caso segue sob segredo de Justiça, e segundo porque há ordens superiores para que não seja comentado sobre isso”, diz.