"Passei o ano inteiro estudando. Sacrifiquei meus fins de semana para ficar em casa cercada de livros, deixei de namorar, de sair com os amigos. E para quê? Para nada." O desabafo, feito em meios às lágrimas, é de Ingrid Elias Almeida dos Santos, 17 anos, que, ontem, compareceu à Universidade Sagrado Coração (USC) mas não pôde participar do primeiro dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) (leia mais na página 27).
Cerca de dez minutos após o fechamento dos portões, ela e um grupo de aproximadamente sete estudantes tiveram de se retirar da sala de aula, onde seriam aplicadas as provas, por não estarem com a documentação exigida pela organização do exame. De acordo com as regras, todos os candidatos deveriam comparecer portando o RG original ou carteira de trabalho, como documento de identificação, e apresentá-los antes do início das provas.
Ingrid compareceu com o RG escolar e o documento não foi aceito. E ela teve de se retirar da sala. "Isso (Enem) iria definir minha vida", afirmou. "Eu me preparei muito bem para as provas. Eu tinha certeza que iria conseguir uma nota boa, que iria me ajudar a realizar meu sonho de fazer Faculdade de Direito. Eu sonho com isso há nove anos. Me preparei para isso esse tempo todo, e agora não posso fazer as provas. Não é justo", lamentava ela, na saída do local da prova. "Vou ter de atrasar minha vida em um ano por causa disso", dizia, chorando.
Ingrid contava com uma boa participação no Enem para, posteriormente, solicitar bolsa de estudo para o curso de direito em Bauru. A estudante conta que nem ela nem a família têm dinheiro para pagar pelo curso. Por isso, depende dos benefícios de uma bolsa de estudo. Ela descarta, inclusive, prestar vestibular para direito em alguma universidade pública porque não teria como se manter financeiramente em outra cidade.
A mesma angústia viveu, ontem, Eslaysa Ligia Oliveira Marcolino, 17 anos, também "expulsa" da sala de provas. Ela relatou à reportagem que perdeu o RG na semana passada e a carteira de trabalho está com o departamento pessoal da empresa onde trabalha. Sem nenhum dos documentos exigidos, ela levou o RG escolar. "Se ele não é aceito para fazer uma prova, então para quê serve?", perguntava ela, sem conseguir conter as lágrimas.
Eslaysa comentou que, recentemente, tirou 30 dias de férias para estudar em tempo integral e partir para o Enem bem preparada. "De nada adiantou meu esforço, foi tempo perdido. Desperdicei minhas férias", lamentava.
A estudante diz que pretende fazer vestibular para design de interiores e direito e contava com a nota do Enem para ajudá-la nesse propósito. Tanto ela quanto Ingrid iriam prestar o Enem pela primeira vez. Se elas quisessem, segundo foram informadas pelos fiscais de prova, podem comparecer para as provas marcadas para hoje, desde que levassem a documentação exigida. No entanto, elas acreditam que não responder as 90 questões de ontem tira delas a possibilidade de alcançar uma nota boa o suficiente para ajudá-las a realizar o sonho de ingressar no ensino superior.
Sentimentos distintos dividem alunos
Em meio à multidão que se aglomerou em frente ao portão principal da Universidade Sagrado Coração (USC), no início da tarde de ontem, era possível notar dois públicos bem distintos. De um lado, jovens que não conseguiam esconder o nervosismo pela proximidade do exame. De outro, a turma mais zen e segura de suas potencialidades.
Neste grupo estava o "veterano" Guilherme Dias, 26 anos, que já encarou, segundo ele, cinco grandes vestibulares até o momento e se prepara para o sexto no fim deste ano. Formado em artes plásticas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Guilherme procura agora uma vaga no curso de design, também da Unesp. Para isso, inscreveu-se para o Enem e, ontem, mostrava-se tranquilo e confiante em um bom desempenho. "Na minha opinião, manter a calma no momento das provas influencia cerca de 50% no resultado final", disse.
Igualmente tranquilo estava Gustavo Sabbatini Reis, 18 anos, que partia para seu terceiro Enem. "Estudei bastante. Acredito que estou bem preparado. O único problema é que a prova é cansativa. Mas é só manter a calma que tudo correrá bem", comentou o estudante que tentará uma vaga no curso de engenharia de produção, na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Ao lado dele estava Giovana Bernardino, 18 anos, corroendo-se de nervosismo, apesar das suas duas experiências anteriores de Enem. "Desde ontem, eu estou muito nervosa. Não estou conseguindo comer direito, mas acredito que quando a prova começar vou me acalmar porque estudei bastante. É só prestar atenção nas questões", disse.
Outra que não conseguia esconder a apreensão com a proximidade do início das provas era Juliane de Andrade Silva, 16 anos. Ontem, foi sua estreia no Enem. "As pessoas falam que é fácil, mas para mim é uma grande novidade porque até então só fiz simulado na escola", conta.
O fato do exame demorar 4 horas e meia também deixou Juliane apreensiva. "Acho que vai ser um pouco cansativa." Mas, segundo ela, é tudo uma questão de aprendizado e que, no fim, será importante para realizar seus planos de cursar veterinária na Unesp de Botucatu.
Isabela Silvério, 21 anos, também não conseguia controlar o nervosismo. "Estou muito nervosa. Dá para perceber, né?" Ela revelou que ficou três anos longe dos bancos escolares e este ano começou a fazer um curso técnico de contabilidade, que está ajudando a relembrar muitas das matérias da época do colégio. "Acredito que dá para fazer uma boa prova." Isabela pretende prestar vestibular para o curso de design, na Unesp.
As provas do Enem continam hoje, a partir das 13h. Serão 90 questões de linguagens, códigos, matemática e suas tecnologias e redação. O exame de hoje terá uma hora a mais de duração do que ontem, ou seja, 5h30. Em Bauru, são cerca de 10 mil inscritos. As provas estão sendo realizadas na Faculdade Anhanguera, Instituição Toledo de Ensino (ITE), Preve Objetivo e USC. (AC)