Fortaleza - O Ministério Público Federal no Ceará pediu à Justiça Federal a anulação total ou parcial das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em todo o País. Na ação, o procurador da República Oscar Costa Filho pede também a anulação da determinação do Ministério da Educação (MEC) para a realização de novas provas para os 639 alunos do Colégio Christus que tiveram acesso antecipado a questões do exame.
Para o procurador, a decisão do ministério “não corrige” o problema e trata de forma desigual participantes de um concurso nacional. “Os estudantes (do Christus) não têm nada com isso e estão sendo tratados como cúmplices”, afirmou.
Para o ministro da Educação, Fernando Haddad, é possível reaplicar o Enem para um grupo de pessoas que tenha sido prejudicado ou beneficiado por alguma falha.
Segundo Costa Filho, 13 perguntas de uma apostila entregue aos alunos eram iguais às das provas do Enem -ele defende que essas questões sejam anuladas.
Ele não soube dizer, porém, se essa apostila era uma cópia completa do pré-teste aplicado pelo MEC na escola ou uma prova simulada realizada pelo estabelecimento de ensino. “A Polícia Federal está investigando”, disse.
“Bullying”
Pais e alunos do colégio Christus, em Fortaleza, afirmam que a apostila com as perguntas do Enem também vazou para estudantes de outras escolas da cidade.
Eles citaram os colégios Antares, Ari de Sá Cavalcante, Sete de Setembro e Farias Brito. Os três primeiros negaram ter tido acesso antecipado às questões do Enem. Os dois últimos admitiram, porém, que alunos do Christus podem ter repassado o material a seus estudantes. O Farias Brito não respondeu aos contatos da reportagem.
“Todos eles trocam informações, independentemente da escola em que estão”, diz a advogada Iris Gadelha, mãe de uma aluna do Christus.
A advogada e um grupo de pais reuniram-se com representantes da escola e pediram acompanhamento psicológico para os filhos, que, segundo ela, estão “desmotivados” e sendo alvos de “bullying”. “Estão sendo taxados de patricinhas e mauricinhos privilegiados”, afirma.
A presença da imprensa em frente à escola também incomodou pais e alunos. Houve confusão na saída do turno da manhã, quando duas alunas e uma mãe tentaram tomar a câmera de um fotógrafo.
Nenhum estudante ouvido pela reportagem responsabiliza a escola pelo problema. Procurados, o diretor do colégio, Davi Rocha, e o advogado Cândido Albuquerque, não foram localizados.
O MEC confirmou ontem que 14 questões que estavam em apostila distribuída a alunos do Colégio Christus, de Fortaleza, foram copiadas de dois dos 32 cadernos de pré-teste do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) aplicado no ano passado na mesma escola. As informações são da Agência Brasil.
Segundo dados levantados pelo Inep (órgão do MEC responsável pelo exame), 91 estudantes da instituição participaram, em outubro do ano passado, da fase de pré-teste do Enem.
O pré-teste dos itens é feito para avaliar se as questões em análise são válidas e qual é o grau de dificuldade. Depois de aprovadas, elas são incluídas em um banco de itens utilizado para montar a prova.
De acordo com o MEC, nenhum dos cadernos aplicados aos alunos do Christus foi extraviado, mas os técnicos do Inep constataram que as questões contidas nas apostilas são cópias do material aplicado em 2010. O MEC, entretanto, ainda não esclareceu como o material foi copiado. As escolas que vão participar do pré-teste do Enem são escolhidas por sorteio.