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Protestos

Antônio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Sem dúvida esses movimentos "em onda" que pipocam pelo mundo, protestando contra tudo e quase todos, representam o inconformismo de 25 a 30 milhões de pessoas de todas as idades barradas na porta de entrada ou expulsas do mercado de trabalho. Um sentimento que rapidamente se torna indignação na medida em que se conhecem os detalhes das "imoralidades" praticadas nos mercados financeiros e toleradas pelos governos por mais de uma década, conforme chamou a atenção num comentário recente o prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz.

Milhões de pessoas desempregadas ou subempregadas continuam privadas do direito de ganhar honestamente seu sustento e de suas famílias nas sociedades mais ricas do universo. Nos Estados Unidos, mais de metade da poupança ou do patrimônio que imaginavam ter (suas casas, ações, etc.), foi para o beleléu, de forma que não é pouca a indignação que sentem. Ainda agora o GALLUP fez uma pesquisa interessante perguntando aos americanos "quem você acha que são os responsáveis por essa tragédia?" Dois terços responderam que é o Governo; um terço culpa os banqueiros. Então, eles estão indo acampar diante dos escritórios em Wall Street e em frente à casa deles .

Nenhum governo pode permitir ao sistema financeiro fazer o que bem entende. Mas não adianta culpar os mercados, é perda de tempo depois do estrago que fizeram. O culpado, em última instância, foi o governo porque era obrigação dele controlar o mercado. Era sua obrigação enxergar que essa gente estava armando há muito tempo uma patifaria igual a que fizeram nos anos 29/30 do século 20! É por isso que os governantes, hoje, não ousam ir em frente e culpar os bancos. Diante das manifestações, a declaração do presidente Obama foi muito cuidadosa: ele disse "eles têm alguma razão"; o secretário do Tesouro, Geithner demonstrou alguma solidariedade para com os "indignados, sem muita ênfase e o melhor foi o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, que descobriu a pólvora: "eles (os enragées) não deixam de ter alguma razão, brigando contra as autoridades"... Só não disse quem são essas tais autoridades: o Obama, o Geithner e ele próprio Bernanke!

Quer dizer, a autoridade não tem nem como se defender. Mas não acredito que isso terá consequências imediatas. Talvez as respostas venham nas eleições de 2012 e Obama não se reeleja. Como os prováveis "desafiantes" até agora são tão ruins, quem sabe ele se recupera. As imbecilidades que os candidatos republicanos que já se movimentam têm dito a respeito da crise e como vão enfrentar as suas consequências, mostram aquela "firmeza" que a ignorância sustenta. Permite supor então que é muito pouco provável que haja grandes mudanças, a não ser para pior... Os Estados Unidos têm, no entanto, uma enorme capacidade de sair dos enroscos em que se metem. Eles começam fazendo tudo errado e de repente fazem a coisa certa. Quase sempre é assim... mas só depois de fazer uma porção de coisas erradas.

O autor, Antônio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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