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A vida de quem trabalha com a morte

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Lidar com a morte faz parte da vida. O clichê, no caso, vale dobrado para alguns profissionais. Para homens e mulheres no ramo funerário, momentos de extrema dor alheia são rotineiros, mas nem por isso passam despercebidos, tampouco sentidos.

Quem literalmente trabalha com a morte, ainda mais no Dia de Finados, neste ano celebrado na próxima quarta-feira, sabe que a vida não é fácil, assim como é dificílima a situação das pessoas que dependem da competência desse profissional.

Coveiros, auxiliares funerários, que encaram talvez uma das mais árduas missões - a de preparar os corpos para a despedida final -, além de motoristas de carro fúnebre, entre outras funções, estão certamente entre as profissões mais evitadas pelas pessoas, mas também entre os trabalhos imprescindíveis, que recebem outro clichê: alguém tem que fazer o serviço.

Karina de Almeida Tonzar, 24 anos, encara diariamente uma tarefa que espantaria muito marmanjo com barba na cara. Desde fevereiro, ela trabalha tanto na remoção quanto na preparação de corpos para sepultamentos realizados pelo departamento de necrópoles e funerária da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru, a Emdurb.

Com a serenidade de um filósofo ao som de música clássica, ela diz encarar o batente como qualquer outro. Karina conta ter prestado o concurso para a função ciente de tudo o que encontraria pela frente.

Apesar de lidar diretamente com a morte ? algumas vezes nas mais brutais faces ? ela conta que um dos principais obstáculos vencidos, surpreendentemente, foi consolidar-se num universo em que a grande maioria dos profissionais é masculina.

"Já vi e trabalhei com gente desmembrada de acidentes ou outras causas, em decomposição. Mas não tenho problemas. No começo é um pouco complicado a gente se habituar. Mas, com o tempo, fazemos o nosso trabalho normalmente", afirma. "É claro que a gente se impressiona algumas vezes também, principalmente com o sofrimento de quem está vivo e perdeu alguém importante", ressalva.

E é nessa hora, para Karina, que o psicológico e a frieza profissional entram em ação. "Quem está ali, num momento difícil, deve ser tratado com muito respeito. Já aconteceu de eu ver gente que conheci em vida, como um antigo vizinho. Crescemos juntos e senti muito. Mas busquei o equilíbrio, em respeito à família", assegura.

Aos olhos do chefe, a jovem auxiliar funerária segue exatamente a cartilha de um profissional exemplar.

No caso específico desse ramo, ninguém, acentua Paulo André, gerente de necrópoles e funerária da Emdurb, trabalha pela morte. Pelo contrário: "são funções extremamente necessárias, essenciais e que estão em prol, na realidade, da vida, através do atendimento e respeito a quem, no momento da perda, passa por dor tão profunda", sintetiza.

O grande segredo, de acordo com Karina, para que o trabalho não traga negativismo à vida, mesmo lidando com a morte, é fazer o que muita gente, em empregos cheios de "vitalidade", deixa de lado. "Quando vou para casa e converso com meu marido, esqueço de trabalho", ensina.


Da pá virada


Quem também encara com naturalidade e até uma dose de bom humor, sem perder o respeito, sobre o cotidiano entre urnas, túmulos, cravos e velas, é o coveiro Marco Aurélio Diogo, de 37 anos. Há três anos e meio, ele trabalha numa média diária de três sepultamentos, revezando-se em jornadas nos cinco cemitérios municipais de Bauru.

Apesar de divertir-se dizendo que já viu de tudo, mas não arrisca fazer "serão" noturno, Marco Aurélio também afirma já ter se acostumado a lidar diretamente com a morte. Segundo ele, uma das principais dificuldades do trabalho está longe de sustos ou "assombrações". "É complicado quando tem que quebrar a calçada e entrar embaixo da prateleira (dentro de túmulos)", conta ele, narrando e demonstrando como faria caso tivesse que colocar um esquife em local mais difícil dentro de jazigos.

Mesmo com toda a naturalidade, ele também afirma que, de prima, apesar de também ter prestado concurso ciente do que é o ofício, teve um pouco de dificuldade, principalmente em presenciar, diariamente, o sofrimento alheio.

Assim como qualquer outro profissional, ele conta que também chegou a sonhar que trabalhava. "Já sonhei que enterrava gente e também fiquei sem dormir, no começo, imaginando a dor do pessoal", confessa, observado pelos colegas Luiz Carlos Medeiros e Aparecido Soares de Oliveira, o mais experiente, com seis anos de profissão.

Somente dois episódios, da mesma natureza, intrigaram Marco Aurélio durante os mais de três anos de cemitério. "Já vi corpo com o crânio virado dentro do caixão, duas vezes. Vai saber o que aconteceu", indaga.


Para sempre


Se o papo é assustador, quem reúne algumas histórias é o faxineiro Benedito Julião, que há 25 anos trabalha no Cemitério da Saudade, a maior necrópole de Bauru. "É muita coisa da imaginação", desconversa, para depois emendar: "tem a história dos noivos que morreram de acidente e foram enterrados em túmulos separados e distantes. Há quem diga que via os dois juntos, à noite. Eles só teriam parado de aparecer quando os corpos foram colocados juntos", reproduz.

Corajosos, dedicados, respeitosos, bem-humorados ou contadores de "causos", os profissionais que trabalham com a morte, ao menos juntos à reportagem, demonstraram uma característica comum: ninguém reclamou de acordar cedo para ganhar a vida.


Graças a Deus


Longe de reclamar, pelo contrário, há quem levante as mãos para o céu por ter encontrado, indiretamente na morte, uma grande oportunidade de negócios e, desta forma, melhorar de vida. É o que aconteceu com o hoje empresário Nilton Agnelli Filho, que, de vendedor ambulante de velas, passou a produzi-las e hoje é dono da própria fábrica. "Queria a independência financeira e consegui", comemora. "Nesta época, a produção e o faturamento chegam a triplicar", comemora mais ainda. "Muita gente não quer trabalhar com a morte. Mas alguém tem que fazer esse tipo de trabalho", acentua. "Graças a Deus sou eu".

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