A mucosa distingue-se da pele por não ter uma espessa camada de queratina na superfície. A pele não é transparente, sendo mais grosseira e, nos animais, conhecida como couro. A mucosa sem queratina expõe suas células diretamente no ambiente da boca, laringe, faringe, traqueia, estômago, intestino, reto, pênis, vagina e útero. Mas a boca, laringe e faringe são muito mais exigidas. No tabaco temos milhares de produtos químicos agressivos. Nos alimentos temos conservantes, acidulantes, corantes, pesticidas e herbicidas. No ar os hidrocarbonetos saem dos escapamentos e chaminés. Para complicar o álcool das bebidas, dos antis-sépticos e dos medicamentos potencializa 15 a 50 vezes os efeitos carcinogênicos dos demais fatores. Tem-se ainda os vírus oncogênicos como o HPV e herpesvírus.
Anos a fio estes produtos ficam modificando os genes no DNA das células das mucosas. No tempo pequenas modificações vão se somando e acumulando. Os mecanismos bioquímicos anulam estas modificações, mas depois de anos o organismo pode perder o controle sobre estas células alteradas que passam a proliferar desordenadamente e deixam de revestir e regularizar a superfície da boca, faringe e laringe. No lugar aparecem áreas vermelhas, ou eritroplásicas, juntamente com áreas brancas, ou leucoplásicas, mas podem aparecer úlceras que não reparam.
A mucosa tem esse nome porque na superfície produz e esparrama um muco lubrificante, uma verdadeira meleca hidratante e deslizante para eliminar o atrito entre as partes anatômicas como lábios, língua e dentes, assim como nas pregas vocais. Quando a mucosa fica vermelha, branca e ulcerada as partes se atritam com aspereza e inflamam a região promovendo a rouquidão ao falar.
Algumas substâncias carcinogênicas atuam apenas modificando o DNA, sendo chamadas de iniciadoras. Mas muitas outras, se caracterizam por ficar induzindo estas células modificadas a proliferarem o que pode gerar uma nova população de células diferentes, bizarras ou atípicas para nosso organismo ou neoplasia maligna. Essas substâncias são chamadas de promotoras. Mas outras dezenas de substâncias induzem o aparecimento clínico exuberante das neoplasias malignas incipientes e são chamadas progressoras.
Viver em condições urbanas implica em estar mais ou menos em contato constante com estas substâncias e vírus. Isto nos cabe decidir. Se fumar serão contatadas milhares destas substâncias. Se beber, vamos potencializar e muito seus efeitos. Se respirar o ar das cidades industrializadas mais algumas centenas de produtos ficarão em contato. Se preferirmos produtos industrializados optamos por novos contatos químicos, mas se ingerirmos frutos e legumes sem prepararmos adequadamente para a ingestão comeremos herbicidas, pesticidas e fertilizantes. Todas estas opções são nossas, assumamos!
Quando estes produtos atuam sobre as mucosas modificam células, mas mesmo assim o organismo, via sistema imunológico, têm células e produtos que matam as atípicas e bizarras. As chamadas células NK ou natural killer matam todos os dias milhares de células diferentes que aparecem circulando pelos tecidos. Os linfócitos T citotóxicos comandados pelos linfócitos T auxiliares também conseguem eliminar estas células diferentes, do mesmo modo que muitos mediadores induzem um suicídio celular chamado apoptose nas células alteradas. Mas, um estilo de vida estressante diminui a competência do sistema imunológico e estes mecanismos podem falhar. Quando isto acontece, podemos ter o início de um câncer, inclusive na laringe! O estresse estimula muito as glândulas suprarrenais a produzir grandes quantidades de corticosteroides que do sangue vão para os tecidos. Estes hormônios são depressores do sistema imunológico.
A fórmula: tabaco + álcool + ambiente poluído + estresse mental é igual a um elevado risco em contrair um câncer ao longo da vida, especialmente após os 50 anos de idade. Esta fórmula pode explicar porque o Presidente Lula teve câncer de laringe. Sua origem humilde, estilo de vida urbana e metropolitana com intensa atividade sindical e política indicam que houve um somatório de fatores atuando em seu corpo que o levaram a contrair esta doença!
Diante da solidariedade ao inegável lutador que os brasileiros generosos oferecerão, fica uma pergunta: o que estamos fazendo com a nossa fórmula de vida?
Alberto Consolaro ? Professor itular da USP e Colunista de Ciências do JC