Bairros

Agressão com morte fecha mês violento

Vitor Oshiro Colaborou Tânia Morbi
| Tempo de leitura: 6 min

Espancar até tirar uma vida. Seja utilizando a força do próprio corpo ou algum objeto. O que leva a uma “involução” tão grande do ser humano? No último fim de semana, um homem morreu em Bauru após ter sido encontrado em um matagal com muitas marcas de pancadas pelo corpo. Os vários registros de agressões recentes alertam sobre o descaso com a vida e a possibilidade de tragédias, uma vez que socos e chutes, segundo especialistas, possuem força semelhante a colisões automobilísticas (leia mais abaixo).

Na ocorrência mais recente, Júlio César dos Santos Bernardo, 25 anos, foi encontrado por volta de 2h da madrugada de domingo na rua Dulce Duarte Carrijo, localizado no Núcleo Habitacional Edson Francisco da Silva, conhecido como Bauru 16. No boletim de ocorrência (BO), a testemunha relatou que ouviu gemidos e encontrou a vítima.

Ao verificar que o homem estava bastante ferido, principalmente na região da canela e dos olhos, a testemunha acionou o Corpo de Bombeiros. Sem documentos, a vítima foi encaminhada ao Pronto-Socorro Central (PSC), onde ficou internada e morreu por volta das 19h40 do mesmo dia.

Até ontem, a vítima ainda não havia sido identificada. Entretanto, segundo o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja, como Júlio César não voltava para casa, seu irmão foi até o Instituto Médico Legal (IML) procurá-lo.

“O irmão disse que ele era usuário de crack e saiu de casa no sábado, por volta das 14h30, sem dizer aonde ia. Como ele tinha costume de dormir fora, somente hoje (ontem), o irmão achou estranho o sumiço”, conta. Exatamente no sábado, no dia em que sumiu, a vítima completou 25 anos de idade.

Ainda segundo o delegado, uma testemunha acabou contando para o irmão que Júlio César tinha sido levado por uma ambulância durante a madrugada. “Ele tinha cumprido pena por tráfico de drogas, mas o irmão, que morava com ele no Jardim Andorfato, diz não saber o que poderia ter levado a isso”.

 

Descaso com a vida

O delegado aguarda o laudo confirmando a causa da morte. Entretanto, ele diz seguir duas linhas de investigação. “A primeira é o homicídio mesmo. Já a segunda é de que seja lesão corporal seguida de morte, ou seja, aquele famoso ‘presta atenção’. Como ele era usuário de crack e pela evolução do quadro, isso é bastante possível. Mas, ambos são mortes violentas”, conclui.

No último dia 11, outro caso bastante parecido foi registrado em Bauru. Na ocasião, Emerson dos Santos Castro foi encontrado na quadra 1 da rua Alves Seabra com um ferimento na cabeça. Depois de seis dias internado, ele não resistiu e morreu. Além desses, várias outras agressões ocorreram recentemente (leia mais abaixo).

O titular da DIG, Kleber Granja, não enxerga que haja um padrão do agressor, porém, analisa que os espancamentos comumente decorrem de motivação fútil e não viabilizam a defesa da vítima.

 

Com força de colisão no trânsito, golpes podem culminar em morte

Tanto a medicina quanto a física explicam como uma agressão pode evoluir para uma tragédia. Segundo o médico intensivista e chefe da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base (HB), Nelson Capossoli, há áreas do corpo que representam grande perigo quando atingidas (veja no quadro acima).

“O crânio, o tórax e o abdome são regiões muito perigosas. Dependendo da agressão, o trauma pode realmente levar à morte da vítima”, destaca.

Capossoli relata que, na UTI do HB, os traumatismos cranianos são os mais comuns. “A pessoa precisa entender que chutes e socos, principalmente quando a vítima está sem defesa, podem matar”.

Em todos os casos, o médico alerta que é imprescindível procurar atendimento médico. “Às vezes, o trauma é assintomático. Pode ser o caso de uma hemorragia interna, por exemplo. Porém, isso vai aumentando e, em pouco tempo, o quadro se complica”, finaliza.

A pedido do JC, o professor de física Paulo Roberto Pires Maciel Filho fez uma estimativa da força de um soco. Segundo ele, o soco de uma pessoa de porte físico comum tem força média de 1 mil Newton, o que equivale a uma colisão de aproximadamente 55 quilômetros por hora. “Se considerarmos um chute, isso pode ser multiplicado em quatro vezes”, alerta.

Já em relação ao uso de objetos, ele afirma que a força não aumenta muito, porém, como a superfície é rígida, o estrago é ainda maior.

 

‘Agressor entende que é injustiçado’

O que faz um acidente de trânsito evoluir para uma agressão com três fraturas na mandíbula de um dos envolvidos, como o caso registrado em Bauru no fim de semana? Para o psicoterapeuta Arnaldo Vicente, presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia Cognitiva e coordenador do Centro de Terapia Cognitiva (CTC) da cidade, é uma “distorção” da realidade.

“O agressor entende que está sendo injustiçado pela outra pessoa e acredita que isso trará sérias implicações para ele. Então, ele enxerga o outro como inimigo e acha que precisa dar uma lição nele”, explica.

O psicoterapeuta explica que essas atitudes são reflexos dos Pensamentos Automáticos Negativos, os chamados PANs. “Todo mundo possui esses pensamentos negativos, que agem na amígdala central. Porém, algumas pessoas distorcem a realidade de forma muito grande e se guiam por eles”, relata Arnaldo Vicente, completando que “é preciso prestar atenção no comportamentos e que, caso necessário, procurar ajuda profissional”.

 

Mês violento

De acordo com levantamento extraoficial feito pelo JC, caso confirmado homicídio, Júlio César Bernardo foi a 33.ª vítima deste tipo de crime em Bauru este ano. O registro também põe o mês de outubro na liderança de mais violento de 2011, com seis mortes registradas.

Na sequência está o mês de maio, com cinco mortes; depois aparecem os meses de janeiro, agosto e setembro, com quatro assassinatos cada. Fevereiro teve três homicídios e março, junho e julho seguem com dois assassinatos. Já abril teve somente uma morte.

 

Acidente de trânsito termina com 3 fraturas na mandíbula de jovem

Além dos dois casos graves relatados nesta reportagem, outras recentes ocorrências em Bauru evidenciam a realidade violenta. Também na madrugada de domingo, um jovem de 20 anos foi espancado com socos e chutes após se envolver em um acidente de trânsito na Nações Unidas. Ele teve três fraturas na mandíbula e precisará de cirurgia. Na madrugada anterior, dois jovens - em ocorrências distintas - foram brutalmente espancados na avenida Getúlio Vargas por um grupo de cerca de cinco indivíduos. Um deles foi agredido até com golpes de capacete.

Outro caso que chamou a atenção da cidade foi o do estudante universitário Giovanni Comora Silva, 19 anos, que foi espancado em 18 de agosto em uma casa noturna. O jovem permaneceu internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Beneficência Portuguesa com traumatismo craniano e fratura em toda a face. Dias depois, os agressores se apresentaram.

 

 

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