Esportes

Personagem: O ?Homem-Bomba? do Verdão

Wagner Teodoro e Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 8 min

Homem-bomba, corneteiro, dedo-duro, antipalmeirense, marionete, persona non grata, inimigo número 1 da torcida e do próprio clube. Esses são alguns dos rótulos que os desafetos e muitos torcedores colocam em Gilto Avallone. Polêmico, o conselheiro do Palmeiras não foge das críticas e nem das perguntas, mas reafirma sua independência no momento de também criticar, seja a administração do clube, comissão técnica, jogadores e a própria diretoria.

Bauruense, Avallone é sócio do Palmeiras desde 1958 e conselheiro há mais de 30 anos. Hoje, aos 72 anos, é membro do Conselho de Orientação e Fiscalização (COF) e se envolveu em várias controvérsias, que se tornaram públicas, despertando a ira de parte da torcida e até do técnico Luiz Felipe Scolari. Mordaz, Avallone não se intimida com os "adversários" e segue mantendo sua postura inabalável na política palmeirense, que está em constante ebulição. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que o dirigente deu ao Jornal da Cidade:


Jornal da Cidade - O senhor é bauruense. Quanto tempo viveu aqui? Vem sempre à cidade?

Gilto Avallone ? Saí daí em 1963. Meu pai (Rafael Avallone) era comerciante, meu tio (Nicola Avallone) foi prefeito e deputado pela cidade. É uma família de tradição em Bauru. Vou muito aí, a cada 40 dias estou em Bauru.

JC - Como foi que o senhor se tornou sócio e entrou no Palmeiras?

Avallone - Meu pai sempre foi palmeirense desde criança, desde praticamente a fundação. O Palmeiras foi fundado praticamente na época que meu pai nasceu. Meu pai fez muita amizade com os diretores do Palmeiras a partir da década de 40. E toda vez que o Palmeiras jogava em Bauru, meu pai oferecia um almoço para todos os dirigentes do Palmeiras. Virou uma tradição do Palmeiras em Bauru isso. Meu pai passou a ser o representante do Palmeiras e, quando o time jogava em Bauru, cuidava de hotel, acomodação, de tudo. Daí, tornei-me sócio, amigo de todos. Foi uma amizade muito forte que meu pai teve com eles. Fiquei sócio em 1958, mas já acompanhava o time desde menino.

JC - Qual o cargo que ocupa hoje no clube?

Avallone - Sou conselheiro desde 1977 e, hoje, membro do Conselho de Orientação e Fiscalização (COF). Este conselho é fiscal, que orienta e aprova as contas. São 15 membros eleitos pelo Conselho Deliberativo, pelo período de dois anos.

JC - Como o senhor analisa o atual momento do clube?

Avallone ? Vejo muito entristecido. O Palmeiras não tem mais aqueles homens que davam um murro na mesa e que, quando acontecia qualquer coisa, não deixavam a situação se prolongar, resolviam, sentavam numa mesa para discutir. Isso no Palmeiras acabou há um bom tempo. Ficam grupos formados, interesses pessoais e o clube está praticamente superendividado. O comprometimento da diretoria passada atingiu quase 80% do orçamento deste ano e das receitas. Fora, estas... não sei se posso falar em loucuras, porque, se dá certo, o cara é maior gênio do mundo. Mas foi alertado à diretoria passada para não trazer de volta nem o Kléber e nem o Valdívia. Primeiro, por problema financeiro e, depois, porque senti que não daria certo, principalmente pela passagem deles pelo clube anteriormente. Problema de comportamento.


JC ? Em cima disso, quais perspectivas o senhor vê?

Avallone ? Apesar de termos eleito o presidente (Arnaldo Tirrone), perdemos as eleições. Porque elegemos um presidente e uma diretoria com os quais ficou combinado que o grupo deste ano procuraria sanear as finanças, equilibrar as contas, procurar conduzir o clube para que, mesmo que se classificasse em 10º, 12º no Campeonato Brasileiro, no ano que vem investir. Fizeram tudo ao contrário, torraram o dinheiro e estamos na iminência de chegar em 16º, 15º.

JC ? Entre as polêmicas que o senhor se envolveu ultimamente, uma delas foi com Scolari, que chegou a chamá-lo publicamente de puxa-saco. Como o senhor analisa o trabalho dele?

Avallone ? Ele colocou no vestiário um cartaz a meu respeito (acusando Avallone de ser "informante da imprensa" e alertando para ter cuidado no vestiário). Graças a ele, tenho um site (www.nossopalmeiras.com.br) que passou a ser conhecido no Brasil inteiro. O site tem mais de mil acessos diários, é uma coisa tremenda. Mas (a divergência) é questão de salário e postura dele. Eu digo que, e não é ofensa, ele é marketeiro, não é técnico. Ele joga muito a imprensa contra os jogadores e os jogadores contra a imprensa. A motivação dele é essa. Ele passou pela Seleção Portuguesa. Se fosse bom, não teria voltado.

JC ? O senhor admitiu que municia o Ministério Público com informações sobre as obras da Arena Palestra...

Avallone ? Nunca municiei o Ministério Público sobre obras da Arena. Isso foi coisa distorcida que fizeram a meu respeito. O que aconteceu é o seguinte. O Palmeiras tinha árvores centenárias, um verde que protegia aquela região. Por coerência, também tem que preservar ali. Foi a minha briga. Fiz uma representação no Ministério Público para que se preservasse o verde. Daí, falaram que eu era contra a Arena. Eu não sou contra a Arena. Sou contra o contrato, prova que, para você ter uma ideia, até hoje não tem memorial descritivo da obra. Não da Arena, das obras de contrapartida, de um ginásio poliesportivo, de um conjunto administrativo. Não tem nada disso. Alguma coisa está errada.

JC ? Parte da torcida o condena por querer embargar a obra da Arena...

Avallone ? Condena. Mas já estou acostumado. Já tive ameaça de morte, me xingam pela Internet...

JC ? Mas o que o senhor tem a dizer a estas pessoas que o criticam?

Avallone ? Que não conhecem nada, ninguém conhece o Palmeiras. É fácil você, como torcedor, querer o maior craque do mundo. Não quer nem saber quanto paga. Não é você que paga a conta, que administra. Mas no fim do mês vence, chega para ser pago. Uma coisa é ser torcedor, outra coisa é ser dirigente, ser membro de órgão que fiscaliza e tem que tomar conta.

JC ? Outra crítica é que o senhor vem mudando de lado dentro da política do clube, apoiando diferentes diretorias, estando, hoje, ao lado de Mustafá Contusi, de quem era crítico no passado...

Avallone ? O Mustafá é um cadáver insepulto. Está fora há mais de 12 anos e os caras não esquecem dele. Só que tem o seguinte, eu briguei com ele vinte e poucos anos. Fui inimigo ferrenho dele. Sempre nos respeitamos, ele com as ideias dele e eu com as minhas. Até que, quando começou determinados temas, vi que ele tinha razão e tive a hombridade de procurá-lo e dizer ?você está com a razão e, daqui para frente, vou estar junto com você?. E justamente começamos mais quando o presidente quis se eternizar no poder, que foi a prorrogação do presidente (Afonso) Della Monica.

JC ? Seus críticos dizem que o senhor é manipulado por Mustafá e é marionete dele...

Avallone ? Tenho 72 anos e ninguém vai me conduzir. Acho que a hora que você participa de um grupo, se reúne a cada dez dias para discutir os casos, sai tudo mais ou menos fechado, ninguém impõe vontade. É que ele bate de um lado e eu bato do outro.

JC ? O senhor se considera um corneteiro?

Avallone ? Não. Você não quer que seu time ganhe sempre? Então, a hora que você vê uma coisa errada, faz críticas. O que não pode é atirar pedra e esconder a mão. Então, a raiva que eles têm, essas críticas a mim, é porque falo na frente deles. Nunca deixei para falar nada escondido. Briguei com o Felipão, não fazendo críticas a ele por intermédio de terceiros. Eu mesmo falei para ele as coisas. Tem que ser assim, muito autêntico. Tem que ser crítico e saber receber a crítica. Mas, na verdade, são os jornalistas que passam para mim o que aconteceu. Eu também não tenho todo esse poderio de informações. Eles (jornalistas) sabem que eu falo, nunca houve off comigo.

JC ? Existe uma proposta de eleições diretas para presidência do clube. O senhor é contra ou a favor?

Avallone ? A favor se obedecer determinadas regras. Você não pode chegar lá e dizer ?o sócio vai eleger o presidente?. Tem que fazer determinadas regras para que o clube não caia nas mãos de aventureiros. Sou favorável desde que o cidadão tenha largo período de sócio, um largo período de mandato de Conselho. Não pode chegar um cidadão que tem dois, três anos de sócio e sair candidato.

JC ? O senhor sabe de segredos de bastidores que não podem ser revelados?

Avallone ? O clube não é de ninguém. Então, não existem segredos de bastidores. Pode ter em uma contratação que se vai fazer. Tem que ser transparente e por essa transparência é que mais brigo no Palmeiras. Por isso que eles, às vezes, falam que sou corneteiro. Não conta, não, que passo para frente. Agora, por exemplo, estão atrás de mais um barrigudo para a comissão técnica. Estão falando no César Sampaio. É uma aberração. É empresário de jogador. Agora, pegar empresário de jogador para ser diretor administrativo do time. Mais R$ 70 mil, R$ 80 mil... É muito barrigudo, precisamos de jogador e não de diretor. Se tem jogador, não precisa de técnico. Técnico atrapalha, é capaz até de dar palpite errado.

Comentários

Comentários