O comportamento da economia brasileira tem sido bastante bom desde o agravamento da crise financeira de setembro de 2008/9, comparado com o do resto do mundo, principalmente com as economias mais desenvolvidas. Pagamos um alto preço nos meses seguintes com a queda do ritmo robusto de crescimento do PIB, mas sempre mantendo nossa economia com expansão média superior à dos parceiros importantes, na América e no continente europeu.
A continuidade de um ritmo de baixo crescimento da economia de nossos parceiros por todo este período pós-crise, no entanto, já interfere negativamente na perspectiva de expansão da economia brasileira. Os fracos resultados dos programas de recuperação da economia americana (que mantém um desemprego de 9.2%) e, ainda pior, os 16,2 milhões de desempregados na zona do Euro (que supera os 10% em toda a área), mostram que não podemos contar com ventos externos favoráveis por muito mais tempo do que se calculava.
O que ameaça o futuro da economia é a possibilidade de que a morna resposta das sociedades de maior consumo às políticas econômicas descoordenadas e sem eficiência (porque sem credibilidade!), acabará reduzindo o crescimento durante muitos anos, impedindo a solução do problema fiscal criado por elas mesmas. Hoje o remédio tecnocrático (despesas públicas e juro real negativo) esgotou sua potencialidade. Os balanços do FED e do BCE estão em limites preocupantes e os Tesouros dos EUA e dos países da CEE estão tão endividados que não se pode esperar deles muita coisa. Essa visão pessimista da situação da economia mundial estimula alguns ingênuos, persistentes e generosos otimistas a acreditarem (pela décima vez, nos últimos 170 anos) que chegamos, enfim, ao final do capitalismo e vamos entrar na era do solidarismo, onde o lucro será anátema e os mercados serão sociais. A História mostra que talvez seja um pouco prematuro declarar tal morte. Capitalismo é o codinome da "economia de mercado", que foi lentamente construída ao longo da história, por uma seleção quase biológica na procura, pelo homem, de uma organização social que lhe desse, ao mesmo tempo, liberdade individual e eficiência produtiva. Ele nunca é o mesmo e modernamente tem evoluído num jogo dialético entre a escolha democrática nas Urnas (onde cada cidadão tem um voto) e o Mercado (onde cada um tem tantos votos quanto seja seu patrimônio). Quando a Urna erra, impondo restrições ao Mercado que não cabem na Contabilidade Nacional, o sofrimento do eleitor leva-o a corrigir o poder incumbente; quando o Mercado erra e impõe mais sofrimento do que benefícios, o eleitor é levado a corrigi-lo nas Urnas.
É a Urna, no fundo, que garante o aperfeiçoamento contínuo do processo de busca simultânea da liberdade de iniciativa individual e da eficiência produtiva. É a Urna que vai restabelecer a "credibilidade" perdida que impediu o funcionamento da solução tecnocrática. A única boa notícia do exterior é que nos próximos 12 meses, teremos eleições livres em 24 países, aí inseridos os Estados Unidos e boa parcela dos povos da Eurolândia ! O "capitalismo" não vai acabar. Vai dar mais um passo na mesma direção do lento processo civilizatório como tem feito nos últimos 170 anos...
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC