Atenção moradores do Parque Santa Edwiges, Pousada da Esperança, Parque Jaraguá, Jardim Tangarás, Parque das Nações, e de todos os outros bairros que sofrem com as ruas de terra, falta de galerias ou margeiam córregos e erosões: anotem o número dos bombeiros, tirem a galocha e a capa de chuva do armário e preparem seus guarda-chuvas - a temporada de aguaceiros está para começar.
A recomendação é séria e serve para cerca de 40% dos bairros da cidade que terão de enfrentar, em meio a muita lama e sem a infraestrutura adequada, mais uma temporada de chuvas, que tem início este mês e segue até março.
“Não quero nem ver. Em janeiro passado já foi terrível. Triste saber que vou ter de passar por isso de novo sem que nada tenha mudado”, lamenta Maria Aparecida Guimarães, moradora do Núcleo Pousada da Esperança há 14 anos.
A constatação de que 40% dos bairros de Bauru não estão preparados para o aguaceiro típico do verão é do urbanista José Xaides de Sampaio Alves, professor do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, que atribui o problema de enchentes e erosões ao mau planejamento de ocupação do solo, que imperou até a década de 1980.
Naquela época, segundo o urbanista, os loteadores não eram obrigados a prover asfalto e galerias para os bairros.
“É uma herança que a cidade tem. De 1950 a 1979, muitos bairros foram abertos, o que rendeu a Bauru o título de Cidade Sem Limites. Contudo, os loteamentos foram feitos com base no planejamento do lucro, desconsiderando a necessidade de infraestrutura, que ficou a cargo da prefeitura. Essa, por sua vez, não deu conta até hoje”, explica Xaides.
Quem recebeu essa herança, por sua vez, não se cansa de demonstrar insatisfação. Para ver de perto quais são os problemas vividos e como eles afetam os moradores desses bairros, a equipe dos JC percorreu diversos pontos da cidade. Não foi difícil encontrar ruas sem asfalto nem galeria, cheias de lixo, entulho e buracos, além de moradores indignados, que faziam ‘fila’ para relatar os problemas do local.
Questionado sobre o despreparo dos bairros para a temporada de chuvas, Eliseu Areco Neto, secretário municipal de Obras, reconhece que a pasta tem um longo caminho a percorrer nesse sentido e estima que ainda restam 2.500 quadras na cidade sem pavimentação, sendo que 25% delas precisam também de galerias.
“Estamos nos esforçando, mas, infelizmente, ainda falta muito a se fazer. São obras caras e que devem ser bem feitas para não jogarmos dinheiro fora. Esse mês, por exemplo, demos um grande passo: iniciamos a construção de 30 quilômetros de galerias em diversos bairros da periferia. A obra custará R$ 10 milhões”, afirma Areco, que acrescenta que também já está em fase de aprovação a pavimentação de mais 400 quadras.
Além disso, segundo o secretário, a prefeitura está construindo piscinões para conter a água de determinados bairros e, recentemente, comprou uma máquina para efetuar a limpeza das bocas de lobo com mais rapidez, otimizando o serviço.
O prefeito Rodrigo Agostinho reconhece que a pavimentação e a canalização da água são os itens de maior necessidade no município, contudo, afirma que não é possível atender toda a população de uma única vez.
“Não tem como. Estamos fazendo por partes. Primeiro, priorizamos as ruas onde os ônibus passam. Depois, fizemos as ruas que não precisam de galerias e que os moradores trabalharam em esquema de asfalto comunitário, contribuindo com verba. Agora restaram as ruas que precisam de galerias”, explica.
E acrescenta: “Sei que a situação é complicada, mas pode esquecer: não vou colocar asfalto em rua que precisa de galeria e não tem. É jogar dinheiro fora”, defende o prefeito, que estima que, se as obras continuarem no ritmo em que estão, o problema da cidade será solucionado em dez anos.
Erro não pode se repetir
Se os problemas atualmente enfrentados pelos bairros de Bauru com relação à falta de infraestrutura para receber a chuva são uma herança da omissão das administrações das décadas de 50 a 80, somadas ao planejamento ditado pelo mercado, é preciso ficar de olho para que essa herança não continue aumentando.
O alerta é do arquiteto e urbanista José Xaídes de Sampaio Alves, professor do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, que afirma que a população deve ficar de olho e cobrar para que todas as medidas presentes no estatuto cidade, elaborado em 2001, sejam cumpridas.
“Antes não tinha regulamentação, por isso as pessoas faziam e desfaziam da cidade da forma como queriam. Hoje, temos leis. É preciso que sejam cumpridas”, defende.
Para Xaídes, a fiscalização com relação ao surgimento de novos loteamentos e a obrigação por parte do loteador de pavimentá-los e drená-los deve ser rígida.
“Além disso, penso que o município deve cobrar dos bairros em melhores condições uma contribuição maior pelas melhorias e destiná-las a melhoria dos bairros em estado precário. A cobrança de outorga onerosa e a transferência do direito de construir para obter mais áreas verdes também devem ser aplicadas”, afirma.