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À beira do precipício
Residências precárias, construídas sem quaisquer orientações técnicas, vizinhas de córregos e grandes erosões e localizadas em ruas de terra sem nenhuma infraestrutura.
Pode ser difícil acreditar, mas, em Bauru, pelo menos seis bairros reúnem essas características, o que faz com que a temporada de chuvas, que começa neste mês e segue até meados de março, seja recebida com temor pelos moradores destes locais. A preocupação é mais que justificável.
“Moro aqui no Parque Jaraguá há um ano e dois meses e estou vendo a hora do meu quintal desmoronar. Eu já fiz várias obras para impedir que isso aconteça, mas nunca se sabe. Minha vizinha, dona Benedita, por pouco escapou de uma tragédia. Parte da casa dela foi engolida pela erosão. Até o netinho dela já caiu no buraco”, lamenta Aparecida da Silva, que divide alguns cômodos do barraco com Roseli Aparecida de Lima.
A limpeza e a organização da casa das vizinhas contrastam com o local onde elas moram. Do lado de fora da casa, uma erosão enorme, mato, terra, lixo e medo. Do lado de dentro, cera no chão, organização, e muitos sonhos.
“Eu trabalho na lavoura de laranja e vou para a roça com o coração nas mãos. Tenho dois filhos, um de 13 anos e outro de 10 anos, e morro de medo que aconteça alguma coisa enquanto não estou em casa. Mas não tenho outra alternativa”, se queixa Roseli.
Em situação de perigo também está a família de Valdevino Antunes de Oliveira, que mora às margens do Córrego da Ressaca, no Parque das Nações há 33 anos.
“É um milagre nunca ter me acontecido nada até hoje”, explica ele, que em três décadas de convivência com a situação começa a apelar para ajuda divina bem antes da temporada de chuvas começar.
“Minha casa já foi interditada várias vezes pela Defesa Civil, até que construí ela um pouco mais para cima. Porém, agora, um condomínio fechado canalizou sua água e decidiu despejá-la bem aqui ao lado de casa. Estou entre o rio e a água do condomínio. Não tem pra onde fugir”, reclama.
Além do Parque Jaraguá e do Parque das Nações, as favelas da Vila São Manoel, Santa Filomenta, Jardim Ivone e Jardim Nicéia são consideradas área de risco. A única alternativa para esses locais é a remoção dos moradores, que, aos poucos, está sendo feita pelo programa Minha Casa, Minha Vida, do Governo Federal. Resta saber se a chuva vai esperar até que todos estejam em segurança.
Canoas em alerta
Anote aí: em dias de chuva intensa, quem for transitar pelas avenidas Mara Lúcia Vieira, Alfredo Maia, Comendador José da Silva Martha na altura da linha férrea, e pelas ruas Guatemala e Cuba, não deve se esquecer de trocar o carro ou a moto por uma canoa ou barco.
A princípio, a recomendação pode até soar como uma brincadeira, mas, na verdade, dá o tom do risco que estes locais oferecem aos desavisados em dias de temporal. Isso porque todas estas vias ocupam hoje o espaço que, um dia, já foi de propriedade dos rios ou córregos que as cortam.
“As casas e ruas foram construídas no espaço de vazão destas várzeas. Quando chove, nada mais natural que o rio ocupar este espaço”, explica Álvaro José de Brito, coordenador da Defesa Civil de Bauru.
A notícia ruim é que, com o passar do tempo, se nada for feito, o problema tende a se agravar. Isso porque a água que escorre pelas ruas em direção aos córregos, sempre localizados em fundos de vale, levando consigo terra e lixo.
“Esses materiais serão depositados diretamente nos córregos ou rios, causando erosões nos bairros de terra e o assoreamento dos leitos, que acaba por elevar a altura da água e ampliar o problema das enchentes”, explica José Xaídes de Sampaio Alves, urbanista e professor do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).
Armando Fernandes, 57 anos, funcionário de um galpão localizado na baixada da avenida Mara Lúcia Vieira, vizinho do Córrego Água do Sobrado, sabe bem como esse fenômeno funciona na prática.
“Quando chove, inunda tudo por aqui. Nem tanto pela altura do córrego, que é baixa, e bem mais por conta da terra que desce da rua Liburtino Grillo e entope os bueiros, impedindo que a água passe. É terrível”, reclama.
A solução para este problema seria, portanto, a criação de galerias e implementação de asfalto nas ruas localizadas acima dessas regiões de vale, além da criação de reservatórios de contenção de água.
“Temos um plano de macrodrenagem onde está previsto a construção de barragens, mais conhecidas como piscinões, nos Córregos da Ressaca, da Forquilha, da Grama e Água dos Sobrado e Água Comprida, além do Parque do Castelo que já foi feito”, enumera Maria Helena Rigitano, da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan).
A eterna falta de asfalto
“Se eu já perdi as esperanças? Faz tempo! Falar que falta asfalto por aqui, que faltam galerias, que sobram erosões e buracos é, literalmente, chover no molhado. Eu passo o ano ligando na prefeitura pra reclamar dessas coisas”, desabafa Maria Aparecida Guimarães, moradora da Pousada da Esperança há 14 anos.
Terra, buracos, lixo, erosões, casas com rachaduras e carros encalhados nas ruas, entre outras coisas, são elementos que compõem o cenário de diversos bairros da periferia de Bauru. Problemas que são agravados em época de chuva.
Estão sob este mesmo pano de fundo, além do Núcleo Pousada da Esperança, os Parques Santa Fé, Roosevelt, Santa Edwiges, Viaduto, Santa Cândida, São João e Jardim Tangarás, entre outros pequenos bairros.
“Nestes bairros falta, basicamente, infraestrutura. O que pode ser resumido em galerias e asfalto. Sabemos que, quem mora nestes locais, sofre com o transtorno. Por isso, estamos trabalhando neste sentido. São situações que geram grande demanda, mas necessitam de muita verba para serem resolvidas. Estamos fazendo aos poucos”, explica Eliseu Areco Neto, secretário municipal de Obras.
Enquanto o asfalto e as galerias não chegam, os moradores se viram como podem. Não é raro ver pedaços de tábuas fazendo o papel de pinguelas para que as pessoas possam atravessar de um lado para o outro do buraco. Quanto aos carros... esses, sim, ficam sem alternativa.
Um exemplo da situação foi um carro que caiu em uma cratera na rua Waldemar Gregório de Moraes, no Parque Viaduto, no exato momento em que a equipe do JC nos Bairros conversava com Sandra Mara dos Santos, 32 anos, moradora do local.
“Aqui é direto assim... E quem paga o conserto do carro é o proprietário, que também paga impostos pela rua, que, por sua vez, permanece sem solução”, reclama.
José Xaídes de Sampaio Alves, urbanista e professor do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), estima que cerca de 40% de todos os bairros de Bauru padecem do mesmo mal.
O buraco é mais em baixo
Sim, ruas de terra são grandes incômodos. Elas são vulneráveis, vivem cheias de erosões, impedem que as casas nela localizadas permaneçam limpas e acumulam lixos. Mas, em certas ocasiões, a gravidade do problema vai além dos transtornos cotidianos: afeta a saúde das pessoas.
Rosimeire dos Santos Monteiro, 35 anos, que o diga. Morando há cinco anos na rua Dulce Seabra Parisi, no Jardim Silvestre, ela coleciona histórias que envolvem momentos de emergência e muita lama.
“Eu estava para parir minha filha e meu marido chamou o Samu. Só que, por conta da situação da rua, a ambulância não chegava à porta de casa. Teve de parar na esquina e meu marido me carregar até lá. Foi um caos total. Mas, graças a Deus, deu tudo certo”, lembra.
Fora isso, Rosimeire já teve de acudir a sogra várias vezes, que escorregou na lama da chuva jogada para dentro do quintal.
“Só para constar, o ônibus corta volta do Jardim Silvestre. Espero ansiosamente o asfalto chegar até aqui. É uma questão de saúde e qualidade de vida”, explica ela.
A famosa Nações Unidas
Um grande erro de projeção transformou parte da avenida Nações Unidas em uma das vias mais perigosas da cidade em dias de chuva. O cálculo é simples: ‘pequenas’ tubulações para acolher, além da água canalizada do Ribeirão das Flores que passa sob a pista, o volume de chuva acumulado vindo de diversos bairros que margeiam a via. Isso, somado ao trânsito intenso. Resultado: tragédias.
Elas são várias ao longo dos anos e vão de danos no asfalto a mortes por afogamento.
“A Nações é uma via que inunda com grande facilidade. Começa a chover e logo tudo enche de água. Isso acontece porque a tubulação é pequena para a quantidade de água. Quando fizeram a avenida não contaram com o crescimento da bacia”, explica Álvaro José de Brito, coordenador da Defesa Civil de Bauru, que recomenda alerta especial no trecho que vai do Parque Vitória Régia ao Terminal Rodoviário.
Contudo, solucionar o problema da avenida não está na lista de planos de urgência do município.
“Por dois motivos. O primeiro: não acho justo com os bairros da periferia. A Nações é um problema, sim, mas para reformá-la eu teria de abrir mão de asfaltar e canalizar centenas de vias. Segundo: não temos o dinheiro total para as obras”, resume Rodrigo Agostino, prefeito da cidade.
Segundo Eliseu Areco Neto, secretário municipal de obras, três projetos para a avenida estão em estudo. Todos com custo estimado em torno de R$ 50 milhões.
“São obras faraônicas que, se forem realizadas, vão interferir em todo o meio urbano margeado pela via. Uma opção seria a criação de um piscinão no lugar do Parque Vitória Régia. E os outros dois estudam a abertura do sistema de captação de água”, explica.
Sendo assim, por enquanto, o melhor ainda continua sendo evitar a avenida assim que os primeiros pingos d’água caírem do céu.
Atenção redobrada
Merecem atenção redobrada em dias de chuva as quadras finais das avenidas Castelo Branco e Bernardino de Campos, além da rua Felicíssimo Antônio Pereira, na altura da antiga fábrica da Bunge, e dos viadutos da Duque da Caxias e Rodrigues Alves, na altura do Cruzamento com a Rodovia Marechal Rondon.
Esses locais, segundo Álvaro José de Brito, coordenador da Defesa Civil, acumulam água com facilidade e, por isso, podem provocar acidentes. Como alternativa, vale observar os pontos onde o alerta é presente e evitar estes trechos.
