Três décadas dedicadas à aviação
Especialista em meteorologia aplicada à aviação, nem sempre o domínio da profissão foi fácil para Eurípedes Francisco de Almeida, mais conhecido como o professor Chicão do Aeroclube de Bauru. "Tive dificuldades em regulamento de trafego aéreo e meteorologia aeronáutica. Depois de muito estudar, hoje sou professor nisso".
Filho de militar, Chicão nasceu em Barretos, viveu em muitas cidades do Interior de São Paulo, mas foi em Bauru que se encontrou, realizou o sonho de trabalhar com aeronáutica e constituiu família. Ele é casado e tem três filhos.
Apaixonado pela profissão de professor, Chicão voltou às salas de aula e, aos 60 anos de idade, formou-se em ciências aeronáuticas na ITE, onde também leciona há cinco anos. "Eu era o aluno mais jovem da turma (risos). Foi uma emoção sem igual receber o diploma das mãos de Ozires Silva e de Marcos Pontes", lembra.
Emotivo e humilde, foi com lágrimas nos olhos que Chicão falou de sua relação com os alunos e das lembranças que tem dos pais. Confira estes e os demais assuntos revelados pelo professor na entrevista, abaixo.
Jornal da Cidade - Como começou a sua trajetória nos ares?
Eurípedes Francisco de Almeida (Chicão) - Entrei na aviação aos 30 anos e só de aulas no aeroclube eu tenho mais de 30 anos. Sou autodidata em aviação. Eu tentei fazer o curso, mas na época achei que ele era muito fraco. Eu havia feito vestibular para engenharia e como tinha um bom conhecimento de matemática, física e tal, resolvi abandonar a faculdade para ser piloto. Estudei sozinho. Comprei uma série de livros, embora, naquele tempo, não houvesse grande quantidades de títulos sobre o assunto, como hoje. Isso sem contar que alguns livros eram terríveis. Estudei muito e passei na prova para piloto privado. Fiz exame médico e foi uma euforia danada quando peguei minha carteirinha. Depois fui fazer as aulas de voo, o que não foi muito fácil por eu não ter muito tempo.
JC - Foi um percurso difícil?
Chicão - Quando me formei para piloto privado, eu comecei a estudar para piloto comercial. Apanhei muito nessa fase. Foi uma época difícil. Chorei sobre os livros, mas aprendi. Com 50 horas de voo, eu já dava aulas para caras que tinham duas ou três mil horas em curso mais avançado. Então, virei um especialista em navegação aérea para piloto comercial.
JC - Quais foram os maiores desafios superados?
Chicão - Eu nunca tive dificuldades em navegação, teoria de voo e conhecimentos técnicos, mas sim em regulamento de trafego aéreo e meteorologia aeronáutica. Então, eu tive algumas dificuldades quando tirei o curso de comercial, porque não tinha escola para isso, na verdade, e a gente era obrigado a estudar sozinho. Mas, estudei muito, passei e resolvi estudar para aprender. Depois de muito estudar, hoje eu dou aulas de meteorologia aeronáutica e regulamento de trafego aéreo. O "regulamento" tem muitas siglas e em "meteorologia" eu me deparei com códigos e coisas que eu nunca tinha visto na vida. Fiquei horrorizado, mas consegui e sou professor nisso.
JC - E o que o senhor ensina?
Chicão - Além de dar aulas de meteorologia aeronáutica e regulamento de trafego aéreo, também leciono navegação aérea para piloto privado, piloto comercial... Também dou aulas para comissários e aulas de taxi-aéreo. Depois de formado piloto, logo tive um problema auditivo e, na época, a aviação era muito difícil, hoje está bem melhor, até fácil. Tenho vários alunos voando na Gol, na TAM... Alguns são até comandantes. Um deles, no ano passado, veio me trazer a carteira dizendo que aquilo era por minha causa. O que deixa um professor contente é quando você ensina, o aluno aprende e consegue uma colocação maior que a sua. O professor é uma escada, na verdade. Tenho formado pilotos nesse Brasil inteiro. Outra coisa curiosa é quando o aluno vai fazer prova, passa e me liga dizendo: "Chicão, passei. Se não fosse você..."
JC - O senhor sempre se emociona ao falar dos alunos como agora?
Chicão - Sim. Eles me agradecem, mas na verdade eu é que aprendo com eles. É uma emoção fantástica. O professor não só ensina, mas também aprende. Ser professor de aviação está no meu sangue, assim como a paixão pelo Aeroclube de Bauru.
JC - É verdade que o senhor se formou aos 60 anos?
Chicão - Formei-me em ciências aeronáuticas na ITE. Sou aluno da primeira turma. O curioso é que muitos dos professores foram meus alunos no aeroclube. Tinha 60 anos quando me formei e dou aulas na ITE há cinco anos. Queria dar aulas na faculdade e, com não tinha graduação, voltei às salas.
JC - Imagino ter sido emocionante o momento da formatura?
Chicão - Foi inesquecível. Eu era o aluno mais jovem da turma (risos). O curioso é que muitos dos formandos também foram meus alunos. Foi uma emoção sem igual receber o diploma das mãos de Ozires Silva, fundador da Embraer, e do astronauta Marcos Pontes. Isso foi um orgulho muito grande para mim.
JC - O desejo de voar sempre o acompanhou?
Chicão - Desde criança. Eu me lembro do meu encantamento aos 5 ou 6 anos de idade quando eu via aqueles aviões da força aérea que faziam manobras e escreviam nos céus. Eu ficava admirado, maravilhado, sem palavras (risos). Corri atrás de ser piloto aos 30 anos, mas nunca é tarde, né!
JC - Qual era sua profissão nessa época?
Chicão - Eu tive uma série de profissões. Sou desenhista mecânico, projetista de ferramentas, retificador ferramenteiro, ferramenteiro de bancadas e trabalhei por 10 anos em uma empresa também com ferramentaria.
JC - O senhor passou por grandes aventuras nos céus?
Chicão - Na verdade eu voei pouco. Primeiro porque era difícil voar naquela época, depois eu tive um problema auditivo que me impossibilitou. Mas eu não sou um cara frustrado, ao contrário, sou feliz porque eu faço o que eu gosto e é nisso que está a importância da vida.
JC - Acredita que a aviação é uma carreira perigosa?
Chicão - Não. A aviação é muito segura, desde que o piloto siga todas as normas de conduta. É mais perigoso andar de carro ou bicicleta em Bauru (risos). O perigo da aviação está nas condições meteorológicas. É por isso que o piloto precisa fazer um estudo apurado das condições meteorológicas quando vai fazer um voo. E isso precisa ser de onde ele está, para onde ele vai e como o tempo está se desenvolvendo ao longo do caminho. Caso não faça isso, ele pode se dar mal. Agora, para ser piloto é preciso, em primeiro lugar, gostar muito. Depois é "meter a cara". Os pilotos lutam para estudar e, se tiverem força de vontade, conseguem chegar lá. Uma coisa é que não é possível parar de estudar. É uma profissão que está em constante mudança e é preciso acompanhar essa evolução.
JC - E o senhor já passou por poucas e boas no ar?
Chicão - No final da década de 1980, eu estive em dois garimpos, um no norte do Mato Grosso e outro em Boa Vista. Fui para voar, mas acabei não voando porque era muito difícil. Estive em um garimpo próximo a Venezuela quando o ex-presidente Fernando Collor de Mello chegou por lá. Tinha um monte de aviões e os garimpeiros todos apareceram. A primeira coisa que ele fez foi dinamitar as pistas (risos). Já passei alguns apuros indo de Cuiabá para Campo Grande. Encontrei uma nuvem brava no caminho...Eu não estava pilotando, mas foi um negócio nada fácil, estávamos sobre o Pantanal...Mas, fora isso...
JC - Por que a "nota 10" para os seus pais?
Chicão - Ah, porque foram pessoas maravilhosas. Meu pai era sargento da Polícia Militar. Foi um pai amigo, pai bom... Não me lembro de ter levado um tapa sequer do meu pai. Ele se dedicava integralmente à família. Não sei se eu consigo, mas eu tento ser igual a meu pai. Tento ser para os meus filhos o que ele foi para mim. Também guardo um carinho muito grande por minha mãe. Fui um privilegiado por ser filho deles.
JC - O senhor veio de Barretos para Bauru ainda criança?
Chicão - Na verdade eu não conheço a cidade. Meu pai trabalhou em muitos municípios e por isso eu nasci em Barretos, mas saí de lá muito pequeno. Morei em Ribeirão Preto, Sertãozinho...Contudo, minha vida é aqui mesmo, em Bauru.
JC - O que gosta de fazer fora do trabalho?
Chicão - Nada (risos). Às vezes eu me dou o luxo de ser preguiçoso. Já estudei, trabalhei e me empenhei muito. O tempo que eu tenho livre, eu gosto de meditar, ler alguma coisa sobre yoga, ver filmes...Ficar tranquilo mesmo. Hoje, se eu pudesse voltar no tempo, eu faria tudo igual, porém, melhor. A aviação está muito fácil, Bauru está exportando muitos pilotos e ainda está faltando profissionais na praça.