Ciências

Doença charmosa: você removeria?

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 5 min

É inegável o charme de Marilyn Monroe. Esta estrela do cinema ainda representa um símbolo de sensualidade e popularidade. Relógios, quadros, canecas e outros produtos são decorados com sua figura. Na face sempre aparece uma mancha ou pinta escura. Todas que imitam colocam a mancha artificial na pele. Por anos as mulheres sem pintas na face providenciavam-na com lápis de maquiagem antes de sair de casa. Era charmoso, diziam!

Angélica, uma loirinha competente, encantou crianças e adultos com sua mancha escura em uma das coxas. Atribuiu-se um charme especial àquela mancha pigmentada exposta graciosamente em suas exibições. Nas lojinhas se vendiam tatuagens transitórias e adesivos com manchas escuras para aplicarem nas pernas das meninas e adolescentes. Uma boneca da Estrela foi comercializada como Angélica e na perninha de plástico lá estava a mancha pretensamente charmosa e desejada.

Recentemente uma artista se destaca na arte de representar e com a mesma doença no lábio superior. Se Leandra Leal continuar nesta curva ascendente de celebridade teremos imitações de sua mancha discretamente elevada entre a pele e a semimucosa labial. Mas não sei se haverá bonecas, mas quem sabe adesivos, tatuagens passageiras ou até definitivas.

A noção de feio ou bonito, saudável ou agressivo, certo e errado não obedece critérios definidos. A mídia nos condiciona a achar bonito ou gostoso. Estas três artistas apresentam uma doença conhecida como Nevo Celular Pigmentado ou Nevo Celular Melanocítico, uma neoplasia benigna de crescimento lento e limitado, sem invasão dos tecidos vizinhos ou distantes.

Na pele temos várias camadas de células. Por dia perdemos 10 milhões de células epiteliais que ficam por aí em nossos lençóis, roupas, escovas e sabonetes. Na parte mais interna do epitélio da pele conhecida como camada basal tem-se um tipo especial de célula: os melanócitos produtores de melanina. Este pigmento escuro é doado e transferido para as células epiteliais colocá-lo em volta do núcleo como se fosse um chapéu para não deixar os raios solares chegarem até o DNA, pois o lesando pode se ter câncer de pele. As pessoas morenas podem tomar mais sol que os brancos pois estão protegidas por uma quantidade maior de melanina.

É de nascença!

No embrião, um grupo de células especiais derivadas da crista neural migra e se espalha uniformemente por todo o corpo para dar origem aos melanócitos. Mas é difícil se espalhar uniformemente por toda a superfície. Quando esparramamos protetor solar sempre fica um e outro lugar com pequenos acúmulos de creme! Assim acontece com o melanócitos embrionários: alguns pequenos aglomerados ficam em maior número em alguns pontos da pele. Quando crescemos vão aparecendo pequenas manchas acastanhadas ou escuras, sem aumento de volume local. Mas em alguns casos estas células em maior número promovem um aumento nodular.

Estas manchas e elevações são neoplasias benignas derivadas destes inocentes distúrbios do desenvolvimento muito comuns. Se não dão sinais, ficam latentes como defeitos conhecidos como hamartoplasias. Mas se pigmentam e elevam-se por proliferarem como neoplasias benignas recebem a classificação de hamartomas. O mundo inteiro o conhece como Nevo Celular Melanocítico e podem aparecer em qualquer parte. O termo "nevo" identifica doenças que as pessoas nascem com elas.

No meio científico há controvérsias sobre a transformação destes nevos em melanoma maligno, o câncer mais agressivo da pele. Para alguns os casos que dão origem ao melanoma já teriam este potencial desde a formação, mas para outros pesquisadores isto acontece apenas se forem manipulados, expostos ao sol e meio ambiente agressivo. Um melanoma maligno inicialmente pode imitar um nevo melanocítico. Por isto, ao menor sinal de alteração de cor e tamanho ou qualquer alteração da pele ao redor, deve-se imediatamente consultar um dermatologista para avaliação criteriosa.

Devemos ficar atentos aos nevos melanocíticos já que a maior parte das pessoas os possuem na pele. Alguns mais claros, outros mais escuros; uns com pelos, outros sem, maiores ou menores. Reparem nas bruxas e vilãs dos desenhos animados: todas têm nevos no dorso do nariz e com pelo! Os nevos melanocíticos devem ter algo de místico ou encantamento: nas bruxas indicam malvadeza e induzem medo, nas musas sugerem sedução! Coisas estranhas devem acontecer quando doenças passam a ser admiradas e imitadas: eu heim!


Observatório

Fraude brilhante ? No Departamento de Química da USP de Ribeirão Preto, a equipe liderada por Osvaldo Antônio Serra e Ana Cecília Figueira acrescentou marcadores fluorescentes no biodiesel a base de porfirinas e que brilham quando iluminados sem se misturam ao combustível por até 90 dias. Este método de análise torna mais fácil a identificação de adulterações dos combustíveis.

Janelas inteligentes ? Sensores colocados nas maçanetas emitem sinais de rádio para o celular do proprietário do apartamento ou para uma central do prédio indicando o estado de uma janela ou porta: aberto, semiaberto ou fechado. Agora o mesmo processo está sendo aplicado para indicar e controlar a temperatura ambiente da casa. O aparelho central que controla estas funções é discreto e pode ser inserido na decoração do ambiente. A novidade foi desenvolvida no Instituto Fraunhofer em Duisburg na Alemanha. A automatização das casas será cada vez mais frequente.

Redação Científica ? O Professor Dr. Gilson Volpato da Unesp de Botucatu orienta como escrever um trabalho científico em seu site www.gilsonvolpato.com.br. Como autor de livros sobre o assunto, no site aborda vários aspectos da construção da literatura científica com indicações de muitas fontes a respeito, disponibilizando-se ainda muitas aulas sobre o tema.

Alberto Consolaro éâ??professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. Email: consolaro@uol.com.br

Comentários

Comentários