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¿Por qué no te callas, Lula?

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

"¿Por qué no te callas? (espanhol para "Por que não te calas?") foi uma frase dita pelo rei Juan Carlos de Espanha ao presidente venezuelano Hugo Chávez, durante a XVII Conferência Ibero-Americana, realizada na cidade de Santiago do Chile, no final de 2007."

Recortei a definição acima do site da Wikipedia. A frase é a voz de um imperialismo fracassado, mas que ainda sustenta as principais manchetes dos jornais. Quem tem tendência para pensamentos de extrema direita consegue deslocar seu contexto e a utiliza de maneira distorcida.

"Por que você não cala a boca?" soa melhor. E exprime todo o ranço de um suposto primeiro mundo diante de suas ex-colônias rebeldes (como é o caso da Venezuela), que teimam em não obedecer suas ordens. As ex-metrópoles coloniais, é bom lembrar, são agora reféns de um interesse muito maior: a coroação das grandes corporações privadas.

Este não é um discurso de revolucionários de esquerda babando de raiva. Podemos acompanhar através de jornais, da TV e da internet a guerra política que está sendo travada entre os desejos de um primeiro mundo agonizante (mas que ainda agonizará por muito tempo) e os dos países periféricos.

O primeiro mundo está desesperado porque agora suas próprias populações decidiram protestar contra a "ordem". Este ano, os governos dos Estados Unidos, da Espanha, da Itália e da Inglaterra enfrentaram manifestações populares contra o poder do capital neoliberal. Porém, a partir da década de 1980, os Estados da elite mundial "encolheram" tanto para seguir o plano financeiro global, que não têm soberania para controlar a situação e acalmar o povo. A não ser na porrada.

Os países periféricos da União Europeia, como a Grécia, também protestam. O governo grego é pressionado pelo topo da pirâmide política europeia, que por sua vez é pressionado pelas corporações, para que paguem a conta. "Pagar a conta", nesse processo de ladroagem pública deslavada, significa diminuir mais ainda o tamanho do governo, contratar menos médicos, construir menos escolas, demitir muito mais gente. Surpreendendo a todos, o governo grego tentou jogar a decisão para os gregos, através de um referendo: diriam sim ou não ao jogo da elite mundial.

A ideia do referendo foi ótima, não por ser uma saída para a crise, mas porque obrigou os barões europeus e seus representantes a tirar a máscara de "bom moço" e revelar a face do "dono da bola". O seminazista presidente francês, Nicolas Sarkozy, esbravejou contra isso, dizendo que o referendo grego deveria decidir se eles continuam ou não na União Europeia - palavras que parecem sair da boca de um capataz. Resultado: desistiram do referendo. A Grécia TEM que aceitar a ajuda, sob as condições dos credores. A doença neoliberal é tão grave, que logo haverá um banco batendo na sua porta, apontando uma arma e dizendo: "-Você vai ter que aceitar este empréstimo!" É o modo mais fácil de deter a massa que não quer ser controlada.

É por isso que a imprensa ocidental imbeciliza gente como Hugo Chavez e Evo Morales. Eles não são "legais pra caramba", mas também não são "bons selvagens" que aceitam as regras que Wall Street inventou para mandar no mundo. Esses caras atrapalham o sonho americano - que cada vez mais se transforma no sonho de uma pequena parte dos americanos.

É nesse contexto que contemplo a velha classe média brasileira. Como sempre ultrajada com tudo, ainda sonhando com os bons tempos da ditadura militar, a antiga classe média não tolera ter que dividir espaço no shopping, no supermercado e no trânsito com a nova classe média e, então, comemora o câncer de Lula. Afinal, foi ele quem colocou esse monte de pobre no mercado consumidor (não é assim que eles falam?). É óbvio que Lula não foi exemplo de lisura política, bem como todos os seus antecessores. Além disso, deixou o país no jogo do mercado mundial (não sei se para nossa sorte ou azar). Mas acabou fazendo um governo (pasmem) social democrata, fenômeno raríssimo em um mundo onde os Estados são obrigados a desaparecer quase por completo, para que não atrapalhem os verdadeiros chefões do livre mercado.


O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história e colaborador de Opinião

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