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Compartilhar e tolerar

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

A vida passa de acordo com nossa percepção e nossa percepção depende criticamente de como observamos cada momento que passa. Às vezes, o movimento da vida pode parecer meio caótico, mas não o é. Como dito na canção: "A vida se move como uma onda", só que cada vez mais gigantesca e estamos presos nela. Se tentarmos controlar a onda, sempre iremos brigar com ela. Se aprendermos a apenas sobreviver na crista da onda, nos tornamos sua vítima. Mas existe outra opção: podemos compreender as regras do movimento da onda e aprender a surfá-la com habilidade, no entanto, é preciso ser realista: com tanta gente no mundo, isto, sem dúvida, está cada vez mais difícil.

Dentro deste contexto, duas atitudes são mandatórias, pois são vinculadas a nossa sobrevivência: primeira, compartilhar e segunda, tolerar.

Toda a nossa sociedade está fundamentada na ideia de que a base da felicidade é receber, no entanto, o homem não adquire a propriedade permanente de coisa alguma neste mundo. Até a vida é somente um empréstimo que nos foi concedido pelo Eterno. Enlutar-se pelos mortos mais do que o necessário é sinal de egoísmo, uma declaração indireta de que a vida humana, particularmente aquela de parentes próximos, é propriedade de alguém e não Dele.

O compartilhar verdadeiro ocorre quando colocamos a necessidade da alma à frente das necessidades do corpo, quando colocamos a necessidade de outra pessoa à frente da nossa própria. Imagine, por um momento, um mundo com dez bilhões de habitantes, mas no qual as pessoas levassem as esperanças e medos de outras pessoas em consideração: o ódio, as guerras, o fanatismo arraigado e as animosidades mesquinhas simplesmente não teriam lugar em tal mundo.

Tolerar também é difícil e é uma atitude muito ambígua. Tolerar é, sentindo-se em condições de dominar, renunciar a uma parte desse poder ou dessa força; é deixar fazer o que se poderia impedir; é ter de si mesmo um conceito positivo o bastante para aceitar o outro com todos os seus defeitos.

Obviamente ser tolerante não é tolerar tudo. Não seria possível tolerar quem se engana e se recusa a corrigir seu erro. Uma vez que o erro é demonstrado ele deixa de ser um direito e passa a ser uma falta.

A ciência, por exemplo, só avança corrigindo seus erros, portanto, não poderíamos pedir-lhe que os tolere. A Bíblia não é nem demonstrável nem refutável, portanto, ou se crê nela ou se tolera quem nela crê.

Só podemos tolerar aquilo que teríamos o direito de impedir; se as opiniões são livres, como devem ser, não dependem pois da tolerância! Se as liberdades de crença, de opinião, de expressão e de culto são de direito, não podem ser toleradas, mas, simplesmente respeitadas e protegidas.

A tolerância só vale contra si mesmo e a favor de outrem: não há tolerância quando nada se tem a perder e muito menos ainda, quando se tem tudo a ganhar. Tolerar o sofrimento dos outros, tolerar a injustiça de que não somos vítimas, não é tolerância: é egoísmo ou indiferença.

Aquele que é tolerante só com os tolerantes, generoso só com os generosos, justo só com os justos, não é tolerante, nem generoso e muito menos justo.

A tolerância precisa ser um momento provisório, uma solução paliativa a espera de algo melhor, isto é, a espera de que os homens possam se amar, ou pelo menos, se conhecer e se compreender.

Se a humildade é a virtude dos verdadeiramente sábios e a sabedoria a virtude dos santos, saber compartilhar e tolerar, para todos nós que não somos nem sábios e nem santos, é vital.

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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