Praticar o bom jornalismo é correr riscos, seja na linha de tiro de uma praça de guerra ou no computador ao escrever um artigo. O mundo, em geral, é perigoso. Tentar contá-lo é ainda mais. A imprensa tem o poder de mostrá-lo cada vez mais cru e mais próximo, ao mesmo tempo que nos protege.
Por mais honesta ou imparcial que seja, a verdade quando tem sua versão exposta nas páginas, nas telas ou na caixa de som nos remete a sensações, digamos, virtualizadas. Então, queremos cada vez mais sentir que aquilo tudo é real. No fundo, apreciamos ver o conflito, ouvir o zunido das balas, sentir o perigo da realidade, na segurança do sofá da sala. O repórter vai lá, vê, registra e nos entrega, delivery, o produto editado, opinado, pronto. O que resta a nós?
Deveríamos nos indignar. Todos os dias bandidos e policia matando e morrendo. Todos os dias o trânsito violentamente roubando vidas. Todos os dias dores, tragédias e perdas, desnecessárias e gratuitas, dão subsídios, os mesmos de sempre, para mais uma edição.
Assistimos anestesiados, como se o mundo, visto, não fosse o mesmo, vivido. Não somos traficantes, nem caçadores deles. Não dirigimos em alta velocidade, nem enchemos a cara; não somos irresponsáveis, nem inconsequentes. Não é minha tribo, minha laia, nem meu mundo. Não é comigo! Mas somos omissos.
Tudo a nós é tão distante, até que um dia acontece com a gente. Uma bala perdida, um carro desgovernado, um assalto na esquina, e a tragédia se instala. Mas é preciso que um mal nos atinja para saber que devemos evitá-lo? Claro que não! Uma notícia, com criteriosa elaboração, não se resume a passatempo numa sala de espera ou elo entre a novela das sete e a das nove.
No processo da informação, e uma vez atingidos por ele, não nos cabe mais alegar que somos apenas receptores, passivos; somos, sim, protagonistas desta história. Conhecendo o mundo em tempo real, não é mais possível tratá-lo como virtual.
Como extensão das nossas vistas, o jornalista Gelson Domingos da Silva, repórter cinematográfico da Rede Bandeirantes, ao levar um tiro no peito no exercício da profissão, na manhã de domingo, dia 06 de novembro, teve seus olhos fechados em definitivo, para, quem sabe, por um instante, abrir os nossos.
O autor, Luís Victorelli, é jornalista, assessor de imprensa da USP, câmpus de Bauru. Foi diretor e conselheiro do Sindicato dos Jornalistas-SP, Comissão Estadual da Qualidade do Ensino de Jornalismo e Associação Brasileira de Jornalismo Científico - ABJC