Marília - Cerca de 40 estudantes dos cursos da área de ciências humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) obstruíram o portão principal do câmpus de Marília (100 quilômetros de Bauru) com pedaços de madeira e cavaletes durante todo o dia de ontem em apoio aos alunos da Universidade de São Paulo (USP). Eles também repudiam a repressão policial e a presença da Polícia Militar (PM) no câmpus da capital.
De acordo com Daniel Bocaline, estudante do curso de ciências sociais e professor da rede pública de ensino, a paralisação teve início às 6h. “A decisão da paralisação foi decidida em uma assembleia geral com participação de cerca de 300 estudantes. Não fizemos nenhum comunicado oficial à diretoria do câmpus”.
Professores e alunos foram impedidos de entrar no câmpus, o que gerou revolta daqueles que queriam assistir aula. “Nós fizemos isso porque assim não corríamos o risco de estudantes ficarem com falta”, declarou Daniel. Por volta das 19h de ontem os estudantes fizeram outra reunião para computar o balanço da paralisação, que estava pervisto para as 22h30. Hoje as aulas deverão acontecer normalmente.
Os estudantes armaram uma tenda de plástico onde permaneceram o tempo todo com cartazes com frases a “Globo mente” e “Mídia golpista”. Mas um grupo formado por estudantes de cursos da área da saúde, que era contra o protesto, também protestou.
Houve bate-boca e gritaria. A Polícia Militar foi chamada por estudantes que queriam entrar no câmpus, mas foi dispensada pela diretoria da faculdade, que temia por um confronto entre estudantes e polícia. Alguns professores que apoiavam o movimento e alguns funcionários acabaram tendo a entrada liberada, assim como estudantes que estavam organizando o protesto e puderam ser vistos circulando livremente pelo câmpus.
“Isso é um absurdo, eles estão impedindo o nosso direito de ir e vir. Fecharam os portões com truculência. Os alunos dos cursos de saúde fizeram assembleias individuais e decidiram contra a paralisação. Não fomos respeitados”, disse Elaine Cristina Osorio. “Eles fizeram uma assembleia já no final da noite, aproveitando o cansaço dos alunos que estudam o dia inteiro, além do que muitos tinham ido embora”, completou.
Líderes do movimento dizem que cumpriam apenas a decisão da assembleia, que é soberana. “Eles deveriam ter ido à assembleia. Se não foram, não podem falar contra agora”, disse uma das líderes do movimento Melane Jorge, estudante da biblioteconomia. “Nosso protesto é em solidariedade aos colegas da USP.
João Vitor Freitas Machado, de 18 anos, aluno no 1.º ano de Ciências Sociais, chegou às 6h da manhã para iniciar a obstrução do portão de entrada. “Nós apoiamos a luta dos alunos da USP. A solução não está em colocar a PM em favelas, universidades ou fronteiras. A solução está em investimentos em educação e saúde. O que ocorre é fruto do descaso nessas áreas”, concluiu Machado.
A assessoria de imprensa da Unesp informou que não recebeu oficialmente a comunicação da paralisação e não acionou a presença da PM no local. O câmpus da Unesp de Marília possui cerca de 2.800 estudantes.
Os alunos de Marília protestam contra a reintegração do prédio da reitoria em São Paulo, que ocorreu na madrugada de terça-feira. Segundo a PM, os estudantes estavam dormindo quando a operação começou. Cerca de 400 policiais da Tropa de Choque e da Cavalaria da PM foram acionados, além de um helicóptero Águia e de policiais do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) e do GOE (Grupo de Operações Especiais).
Os militares, portando cassetetes e escudos, fizeram um cordão de isolamento ao redor do prédio e retiraram os estudantes, que não resistiram à prisão. O prédio foi entregue pela polícia a um oficial de Justiça, já que a operação foi motivada por um mandado judicial. Os estudantes detidos reclamaram do tratamento que receberam da polícia.