Pacientes de Bauru que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) para realizar consultas médicas especializadas podem amargar uma longa espera. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, as áreas de maior demanda geram uma fila que pode durar até dois anos, como é o caso de atendimentos oftalmológicos e dermatológicos. O tempo é reduzido para um ano a um ano e meio em consultas com cirurgiões vasculares e gastroenterologistas.
Atualmente, de acordo com a pasta, a rede básica de saúde acumula 22.490 consultas que foram solicitadas ao Estado, mas que ainda não foram disponibilizadas nos hospitais públicos da cidade, como o Hospital de Base e Hospital Estadual (HE), ou no Ambulatório Médico de Especialidades (AME). Inaugurado há pouco mais de dois anos para desafogar o gargalo deste tipo de serviço, nem mesmo o ambulatório deu conta de reduzir a demanda (leia abaixo).
A unidade, que atende mais 17 municípios da região, oferece aproximadamente 2 mil consultas para Bauru. A cidade, entretanto, teria uma demanda estimada de 10 mil consultas por mês, conforme cálculos do secretário municipal de Saúde, Fernando Monti. “Isso revela que ainda precisamos de outros aparelhos para a área especializada. Estamos agendando as consultas dentro daquilo que nos é atribuído, mas não tem sido o suficiente”, avalia.
Por meio de nota, o Departamento Regional de Saúde de Bauru (DRS-6) destacou que desconhece qualquer informação sobre demanda reprimida na cidade. Informou ainda que solicitou, por mais de uma vez, que a secretaria municipal enviasse a relação de pacientes com pendência de consultas, mas nunca teria recebido qualquer resposta.
No início do funcionamento do AME, a secretaria chegou a reclamar de que as vagas ofertadas pelo Estado não correspondiam às necessidades do município, o que fazia com que sobrassem consultas em algumas especialidades e faltassem em outras. Mas, segundo Monti, esta distorção já teria sido minimizada.
“Este não é mais o problema, assim como os índices de faltas de pacientes, que têm se mantido num nível baixo. A questão é que, em algumas áreas, a capacidade de atendimento está esgotada. A demanda é realmente muito grande”, resume.
No caso da oftalmologia, por exemplo, o número de consultas solicitadas em espera é de 4.241. A diretora da Central de Regulação do município, Janete Aparecida Fraga da Silva Soniga, explica que, por mais que a oferta mensal seja de 500 consultas nesta especialidade, dificilmente a demanda reprimida é reduzida. “O número de novas solicitações ao longo do mês acaba sendo maior que esses 500 pacientes que foram atendidos”, pontua.
Via sacra
Para piorar, a via sacra dos bauruenses não acaba depois que conseguem ser submetidos à primeira consulta ou mesmo quando obtêm um diagnóstico. A demora pode se arrastar durante todo o processo de tratamento, até mesmo para agendar uma cirurgia, caso o procedimento não for considerado de urgência.
“Conheço uma pessoa que está com câncer e teve retorno agendado para o ano que vem. Até lá, vai ficar sem nenhum acompanhamento médico”, comenta Rose Lopes, membro do Conselho Gestor do Pronto-Socorro Central (PSC). “Se há essa fila enorme de consulta, é sinal que todos os outros procedimentos também estão no gargalo. A pessoa demora para conseguir a consulta, depois demora para fazer exame, depois demora para conseguir retorno. É uma distorção que pode comprometer a saúde do paciente”, completa. Também nos casos de cirurgia, é o Estado quem estabelece os pacientes prioritários de acordo com sua capacidade de atendimento.
Uma solução apontada por Monti para minimizar o problema seria o município assumir a gestão plena da saúde, ou seja, passar a ofertar também os serviços de especialidades, a partir do recebimento dos recursos da União que hoje são repassados à gestão estadual. “Uma medida que poderia colaborar para diminuir esta fila é a implantação das redes de atenção, que temos discutindo junto ao Ministério da Saúde como uma ideia para prestar atendimento integral aos indivíduos”, pondera.
Por meio da assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde, o DRS-6 informou que aguarda que o município encaminhame a lista de pacientes à espera de consulta para avaliar as providências a serem adotadas.
Oftalmologia e dermatologia são as campeãs
As especialidades com maior demanda por consultas no Sistema Único de Saúde (SUS) são oftalmologia e dermatologia. Na avaliação da diretora da Central de Regulação do município, Janete Aparecida Fraga da Silva Soniga, o aumento do número de pacientes em busca deste tipo específico de atendimento foi motivada pelo envelhecimento da população.
“Claro que a demanda começa desde a infância, quando a criança entra na escola, mas aumenta de acordo com a idade. Quando mais idoso for o paciente, mais frequentes se tornam os problemas de catarata e glaucoma, por exemplo”.
A segunda especialidade mais procurada, segundo o ranking da Secretaria Municipal de Saúde, é a de dermatologia. Mesmo com o Instituto Lauro de Souza Lima suprindo mensalmente uma cota da demanda municipal, que também é distribuída para o Hospital Estadual e Ambulatório Médico de Especialidades (AME), a demanda se mantém em 3.213 consultas ainda não atendidas.
“A prevalência de problemas de pele é muito grande. Embora a capacidade de atendimento seja grande, a demanda é maior ainda”, pontua o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti. De acordo com ele, as áreas de reumatologia e cirurgia vascular também geram as maiores filas de espera devido à pequena disponibilidade de profissionais nestas especialidades.
Mesmo com instalação do AME,a demanda aumentou neste ano
Inaugurado em outubro de 2009 para desafogar o atendimento médico especializado, o Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Bauru conseguiu reduzir momentaneamente a demanda por consultas. Mas, conforme a reportagem apurou, a unidade teria atingido sua capacidade máxima de prestação de serviço, o que teria feito com que o volume de pacientes em espera voltasse a aumentar.
De fato, segundo os números informados pela Secretaria Municipal de Saúde, a demanda por consultas antes de o AME existir era de 31 mil em Bauru. O número caiu para pouco mais de 21 mil no início deste ano, mas voltou a crescer, chegando às atuais 22.490 solicitações ainda não atendidas.
Quando da inauguração da unidade, a Secretaria de Estado da Saúde informou que a expectativa era de que a capacidade máxima de prestação de serviço chegasse a 15,3 mil consultas mensais aos 18 municípios da região. Como Bauru representa 60% do contingente populacional da região abrangida, era de se esperar que fosse reservada à cidade ao menos 4,5 mil consultas, sendo outras 4,5 mil destinadas a retornos. Mas, segundo informações da Secretaria Municipal de Sáude, a oferta real não chega à metade disso.