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Eu gostava mesmo é de gibi

Marcondes Serotini
| Tempo de leitura: 3 min

Qual o nome da galinha do Chico Bento? Giselda, claro. Todo leitor das histórias em quadrinhos (HQ) de Maurício de Sousa sabe disso. Mas que Olívia Palito calça 44 é uma informação deveras importante, porque só se deu conta disso quem acompanhou gibi a gibi as aventuras de Popeye, o marinheiro que ficava fortão por causa do espinafre que comia, numa propaganda do governo norte-americano para popularizar o consumo do vegetal rico em ferro e vitaminas.

De minha parte sempre quis, ao menos, tocar na moedinha nº 1 do Tio Patinhas, aquela que representa o primeiro dinheiro que o velho pato milionário ganhou e, segundo ele mesmo, deu a maior sorte, propiciando momentos como nadar naquela piscina de dinheiro. Torcia muito pra ele contra as ações maldosas do seu rival Patacôncio ou dos Irmãos Metralha.

Fazem parte de nosso imaginário estes personagens porque em casa ? e na casa de muitos contemporâneos meus ? havia gibis aos borbotões, em caixas, nos cantos da casa, armazenados embaixo da mesa de centro, nos porta-revistas. A nossa convivência com o Pato Donald, Mônica, Cebolinha, Madame Min, Professor Pardal era muito intensa, cujas aventuras sempre revelavam algum item da personalidade ou da vida deles, fazendo-nos companheiros de longa data.

Tanto é que não esqueço das fórmulas mágicas da Maga Patalójika, que levavam asa de morcego, pó de rato e outros ingredientes tétricos, que nunca conseguiam fazê-la alcançar seu intento único: pegar a moedinha nº 1 do Tio Patinhas para ficar rica também.

Exercitar a leitura ficava fácil, porque os balões onde estavam escritos os textos dos personagens tinham qualidade e respeitavam a ortografia vigente, cumprindo seu papel educador, incitando a criança a invadir o mundo da magia e da novidade, sendo um primeiro passo para adentrar a seara mais séria e não menos lúdica dos livros. Assim, até hoje posso garantir que sempre confundi o Quácula com o Morcego Vermelho. Mas tenho certeza que o Morcego Vermelho tem como sua identidade secreta o Peninha, amigo do Pato Donald.

Decorar o nome dos sobrinhos dos personagens de Disney era uma tarefa, inclusive Huguinho, Zezinho e Luizinho eram diferentes em algum detalhe do desenho, assim como Tico e Teco se diferem acho que pela cor do focinho e pelos dentinhos à mostra. Poucos sabem que o sobrinho do Prof. Pardal, o maior inventor de Patópolis, se chama Pascoal. Para se ter uma idéia, cheguei a ler "Os sobrinhos do capitão", os irmãos Hans e Fritz, pioneiros das HQs, num gibi que apareceu em casa não sei como, meio rasgado, mas eu sabia que estava com uma relíquia em minhas mãos, porque estes personagens têm mais de 110 anos de vida.

Os vilões são um capítulo à parte, porque têm a mesma importância e muitas vezes são mais charmosos que os próprios heróis, haja vista o Coringa e a Mulher Gato das histórias do Batman. Super-Homem, Batman, os personagens da Marvel já são uma evolução dos gibis, as verdadeiras HQ que eram o passo seguinte de quem se enveredava por esses caminhos. Eu parti mais direto dos gibis para a literatura, lendo esporadicamente as intrincadas aventuras dos heróis e vilões das HQ adultas.

Quem nunca desejou que um plano do Cebolinha para derrubar a Mônica desse certo? Ou sonhou ver o Cascão tomando banho no gibi da semana seguinte? Eu sonhava era com aquele monte de comida da Bolota ou com os brinquedos do Riquinho e não entendia, naquele tempo, o slogan dele: "O pobre menino rico". Claro, depois, quando crescemos, percebemos a lição e moral implícitas nesta e em tantas outras tiras de quadrinhos: o Riquinho não tinha pais presentes e era disso que se ressentia, apesar de sua fortuna. Mas era generoso e tinha grandes amigos, inclusive seu cachorro chamado Dólar. Talvez Riquinho fosse mais feliz com todo aquele dinheiro, se recebesse o amor dos pais, que lhe dariam de presente, por exemplo, os gibis, que tanto preencheram nossos momentos de alegria de nossa infância, provocando a faísca vibrante da leitura de toda uma geração.


O autor, Marcondes Serotini, é especialista em Ortodontia e em Saúde Pública, cronista colaborador do Jornal da Cidade

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