Articulistas

Baixando a espuma do governo Lula

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Em janeiro de 2008 começamos nosso comentário sobre o governo Lula assim: "A sabedoria popular diz a verdade, de forma simples e compreensível para todos, utilizando imagens de fatos da vida real. Uma dessas imagens é ?fazer espuma?. A espuma é um aglomerado de bolhas gasosas, volumoso, produzido por agitação, que causa efeitos, que às vezes impressionam, mas dura pouco e ao se desfazer não deixa nada. Assim, quando alguém diz que vai fazer isto e mais aquilo, de forma enfática, criando expectativas e esperanças e depois, com o passar do tempo, se verifica que nada, ou muito pouco foi feito, não há expressão melhor para qualificá-lo do que de fazedor de espuma."

Dizer que o governo Lula não fez nada é tão exagerado quanto dizer que fez muito. Fez, mas alardeou muito, fez mais espuma, como um chope mal tirado que, quando o colarinho baixa, fica menos chope que o esperado. Com tanta espuma conseguiu eleger a presidente Dilma. Agora a espuma está baixando, assoprada pela imprensa, e estamos vendo o que efetivamente foi feito. Dois exemplos, apenas, ilustrarão. Dias atrás foi divulgado o resultado de uma pesquisa encomendada pela Confederação Nacional do Transporte, mostrando que 12,6% da malha rodoviária são considerados ótimos; 30%, bons; 30,5%, regulares; 18,1%, ruins e 8,8% estão em péssimas condições. Considerando que a pesquisa envolveu as estradas estaduais, onde estão as melhores, como as de São Paulo, o que sobra para as estradas federais é o que a televisão vem mostrando quase diariamente ? buracos, lama, atoleiros, falta de acostamento e sinalização precária.

O projeto de pedágio barato, de forte apelo eleitoral, está mostrando o que realmente é. A rodovia Fernão Dias, ligando São Paulo a Belo Horizonte, concedida ao grupo espanhol OHL, apresenta "asfalto ruim, trechos com buracos, outros sem acostamento e, quando chove, a água empoça em vários pontos. Está longe do que se espera de uma rodovia privatizada", declarou à Exame o presidente da Federação das Empresas de Transportes de Carga de Minas Gerais, Vander Francisco Costa. Também a Regis Bittencourt - São Paulo a Curitiba; a Autopista Fluminense - Rio à bacia de Campos e trechos da BR-116 e BR-101, em Santa Catarina, arrematados pelo grupo espanhol, estão com problemas seriíssimos e atraso de três anos nas obras compromissadas. A espuma se desfez.

Pessoas maldosas exprobraram a escolha do hospital Sírio-Libanês pelo ex-presidente, perguntando por que ele não procurou o SUS. Não procurou, porque, como qualquer outro cidadão que pode, quis ser tratado logo e com mais chances de se curar. A quimioterapia, no SUS está com uma espera média de 70 dias e a radioterapia com mais de 100. A população mais pobre, hoje está com mais dinheiro e comprando mais celulares, televisores etc., mas continua ainda mais dependente do SUS, que não consegue evitar que pessoas morram por incapacidade de atendimento. As críticas que o Lula fazia ao SUS, antes de ser presidente, continuam atualizadas depois do seu mandato. Usando uma expressão poética, as promessas de saúde para todos eram ?espumas ao vento?.

O chope restante ainda ficou com a impureza da corrupção. As ONGs fajutas chuparam o dinheiro público para o bolso de partidos e indivíduos aliados. A presidente Dilma deveria ter pedido ao tirador de chope para passar a espátula, retirando a espuma indesejada dos ministros corruptos. Dos cinco defenestrados, até agora, graças à ação da imprensa, quatro vieram do governo Lula.


O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru, e membro da ABLetras

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