O semáforo situado no cruzamento da avenida Duque de Caxias com a rua Rio Branco emite o sinal amarelo. Ao invés de reduzir a velocidade e frear antes de as rodas dianteiras dos veículos tocarem a faixa de pedestres, os motoristas aceleram. Querem aproveitar os últimos segundos e chegar à próxima quadra. Com isso, cruzam a rua quando o sinal já está vermelho.
Na rua 1º de Agosto, uma placa em perfeito estado de conservação e visivelmente exposta sinaliza que, naquele local, é proibido parar e estacionar do lado direito da via. Bem abaixo dela, um senhor estaciona seu carro, tranquilamente. Desembarca, abre o porta-malas, guarda um envelope e entra dentro de uma agência bancária. Enquanto isso, motoristas que circulam pela via são obrigados a desviar do carro irregularmente parado.
A alguns metros dali, na altura da Praça Rui Barbosa, outra irregularidade: um carro de autoescola estacionado na vaga destinada a portadores de deficiência física. O veículo ocupou, por cerca de dez minutos, uma vaga que não era dele. Enquanto o aluno aguardava estacionado irregularmente, o instrutor resolvia alguma pendência em uma loja ou agência bancária nas proximidades. Ou seja, quem devia ensinar o correto, dava o mau exemplo.
Situações como essas são comuns em Bauru, tornam o trânsito cada vez mais caótico e estressante e fazem pensar que a cidade obedece a um código de trânsito paralelo, diferente do que regra todas as outras cidades do País.
Parece, mas não é. Bauru, assim como todas as outras cidades, segue o Código Brasileiro de Trânsito. Sendo assim, as barbaridades e barbeiragens no trânsito são, mesmo, por conta dos motoristas.
Para o psicólogo Ilton Sant’Anna, pesquisador de trânsito e autor do livro Cartilha Brasileira de Trânsito, a maioria das infrações cometidas em Bauru são voluntárias e fruto do egoísmo dos motoristas.
“Não se pode dizer que uma pessoa que ultrapassa o sinal vermelho do semáforo não sabe que isso não é permitido. Isso se chama falta de educação e egoísmo. As pessoas pensam que o veículo funciona como uma blindagem, uma máscara. Se sentem influenciadas pelo ego e pela sensação de impunidade e são impulsionadas pelo resultado”, avalia Ilton.
De acordo com ele, a essência egoística do ser humano responde aos estímulos de forma egoísta, fazendo o motorista não enxergar que quem conduz o carro é mais importante que o bem material.
E como se não bastassem os títulos de sem educação e egoísta, o motorista bauruense é também desatento, o que faz com que infrações sejam cometidas e coloquem em risco a vida de outras pessoas.
“Para dirigir é necessário estar atento a uma série de fatores, como o próprio carro, as sinalizações, os pedestres e o trânsito ao redor. Com tantos elementos, distrair-se com uma vitrine e entrar em uma via na contramão pode ser fatal”, alerta Ilton.
Além disso, a forma como o trânsito se estabelece em Bauru também contribui para o caos nas ruas. Um exemplo é a rua 1º de agosto, onde é permitido estacionar somente do lado esquerdo da via, o que faz com que o motorista, em grande parte das vezes, realize a ultrapassagem pela direita.
“São falhas de usos e costumes. Neste ponto, o trânsito de Bauru deseduca o condutor e isso é grave. O estacionamento do lado esquerdo torna lenta a faixa que era para ser de trânsito rápido e ultrapassagem e ‘força’ a ultrapassagem pela direita. Os condutores, por sua vez, cometem o mesmo erro em ruas que não tem o mesmo problema”, exemplifica Ilton.
As mais autuadas
Andar sem cinto de segurança, falar ao celular ou usar fone de ouvido enquanto dirige, estacionar em local proibido, avançar o sinal vermelho do semáforo, executar conversão à esquerda em local proibido pela sinalização e transitar pela contramão em vias de mão única são, segundo a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) e a Polícia Militar (PM) as infrações mais cometidas no trânsito de Bauru.
Além delas, entram no ranking também as infrações de ordem administrativa, como transitar com veículo com licenciamento vencido, não portar documentação pessoal e do veículo, e dirigir sem carteira de habilitação.
Para dar conta de tantos erros, além de todo o efetivo da PM, mesmo os que não atuam no batalhão de trânsito, existem 17 agentes de trânsito contratados pela Emdurb.
“Realizamos bloqueios diariamente, em diversas partes da cidade. Por mês, constatamos mais de 200 tipos diferentes de infrações. Para se ter uma ideia, do início do ano até o momento, flagramos 1.200 pessoas dirigindo veículos sem ter carteira de habilitação”, aponta o capitão Paulo César Valentim, comandante da 1º Companhia da PM e responsável pela base de trânsito.
Embora o efetivo da PM e os agentes fiscalizadores de trânsito ainda sejam insuficientes para coibir e penalizar boa parte da prática de infrações na cidade, Valentim acredita que o trabalho desenvolvido está tendo resultados.
“Embora tenha aumentado o número de acidentes no trânsito, reduzimos o número de vítimas fatais. Penso que, com os bloqueios policiais, os motoristas autuados pensarão duas vezes antes de cometer o mesmo erro novamente”, avalia. (WF)