Bairros

A regra é clara!

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

Cadê a seta?

O motorista bauruense, no geral, não tem o hábito de sinalizar conversões ou mudança de faixa com seta. E para constatar o desleixo não é preciso ser expert no assunto nem agente fiscalizador de trânsito. Basta ficar alguns minutos observando o fluxo de veículos em qualquer uma das muitas avenidas e cruzamentos de grande movimentação existentes na cidade.

O mau hábito é tão frequente que, inclusive, motivou uma brincadeira: alguns dizem que a seta, atualmente, é item opcional. Sendo assim, na hora de comprar o veículo, os motoristas, de olho na economia, preferem deixa-la de fora do pacote.

“Outro dia, eu estava passando pela avenida Comendador José da Silva Martha quando um homem, na direção de uma Mercedes, saiu da faixa esquerda sem sinalizar e entrou em uma rua à direita, cortando minha frente. Não resisti: emparelhei ao lado dele e elogiei: ‘Que carro bonito’. Ele me olhou e sorriu. Foi quando provoquei: ‘Pena que não vem com seta!’”, lembra, rindo, o analista de sistemas Vinícius Valeze Ferrari, 21 anos.

“Foi o jeito que encontrei de repreendê-lo e amenizar minha raiva”, explica.

De acordo com o pesquisador de trânsito Ildo Sant’Anna, a seta tem a função de avisar uma intenção e funciona como um sinal de alerta.

“É um facilitador do trânsito. Deve ser usada sempre, em todas as situações”, ressalta.

Não sinalizar conversão ou mudança de faixa, além de aumentar a possibilidade de acidentes, é infração grave: o motorista perde cinco pontos na carteira e é multado em R$ 127,69.

 

Uma vez de cada!

Se pedestre tivesse placa, certamente, um grande número de pessoas voltaria para casa com algumas multas depois de um breve passeio pelo Calçadão da Batista de Carvalho de adjacências. Isso porque muita gente estende a tranquilidade de transitar livremente pelo Calçadão para a travessia entre as quadras. Resultado: risco de acidentes.

Para flagrar situações de grande perigo bastou que a equipe do JC nos Bairros permanecesse por alguns minutos no cruzamento entre as ruas Batista de Carvalho e Treze de Maio. Ali, mesmo com o semáforo verde para os carros, jovens, idosos, adultos e crianças ultrapassavam o limite da calçada, se posicionavam na rua e, cada vez mais, formavam um corredor para a travessia dos carros. Houve até mesmo quem se arriscasse a transpor as quadras desviando dos veículos em movimento.

E se os pedestres erram ao ocupar o espaço que, em determinado momento, é destinado aos veículos, a recíproca também é verdadeira.

Na ânsia de chegar mais rapidamente ao seu destino, muitos motoristas não se atentam ao fato de que o sinal pode fechar a qualquer momento, grudam no veículo da frente e, quando menos esperam, ficam parados sobre a faixa de travessia de pedestres.

Só que, diferente dos pedestres que invadem o espaço dos veículos, os motoristas podem, sim, ser penalizados com multa. De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, parar o veículo sobre a faixa de pedestres durante a mudança de sinal é infração média e acarreta na perda de quatro pontos na carteira e multa no valor de R$ 85,13. Se o local não for dotado de semáforo, a infração é considerada leve e é penalizada com a perda de três pontos na carteira e multa no valor de R$ 53,20. Já se o motorista estacionar na faixa de pedestres, além de ter o veículo removido, perderá cinco pontos na carteira e terá de pagar multa de R$ 127,69.

 

Olha o sinal vermelho!

Menos sete pontos na carteira e uma multa de R$ 191,54. Essa é a mais leve das consequências que um motorista se disponibiliza a arcar quando cruza o sinal vermelho de um semáforo. Isso, se der sorte, já que ao cometer a infração considerada gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro, o motorista corre o grande risco de colidir com outros veículos ou atropelar pedestres, causando graves acidentes.

E se engana quem pensa que poucos são capazes de cometer tal loucura. De 1º e janeiro a 30 de setembro deste ano, por exemplo, 1.076 multas por cruzar o semáforo com o sinal vermelho foram expedidas pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

Isso, sem contar quem se atreve ao feito e, por sorte, não é pego pela fiscalização, como as centenas de motoristas que, no anseio de chegar mais rapidamente ao seu destino, ignoram o aviso de atenção dado pelo sinal amarelo e, ao invés de reduzir a velocidade, aceleram, passando no sinal vermelho.

Enquanto fazia a reportagem, a equipe do JC nos Bairros presenciou vários momentos como o flagra registrado na avenida Duque de Caxias.

“Em Bauru, é proibido cruzar o sinal vermelho qualquer que seja o horário do dia. Muitas pessoas acreditam que de madrugada, por conta da segurança, é permitido. Isso não é verdade”, explica Ildo Sant’Anna, pesquisador de trânsito, que ressalta que a regra pode sofrer alterações em outras cidades, como São Paulo, por exemplo.

 

Direita ou esquerda?

Quem, ao andar pelas ruas de Bauru, nunca perdeu a paciência com o motorista do veículo da frente que, teimosamente, insistia em andar em baixa velocidade na pista da esquerda? Se você respondeu que nunca viveu uma situação dessas, atenção: provavelmente, você é um dos motoristas que tira a paciência de dezenas de outros no trânsito.

Isso porque, divergências quanto a ultrapassagens e trânsito em pistas duplas são muito comuns em Bauru. Tão comuns que os protestos chegaram às redes sociais em forma de um cartaz que diz: “Apelo: se você não sabe, vias com duas pistas servem justamente para motoristas apressados ultrapassarem com segurança pela pista da esquerda”.

De acordo com Ilton Sant’Anna, pesquisador de trânsito e autor da Cartilha Brasileira de Trânsito, os motoristas devem ficar muito atentos quanto às regras de ultrapassagem e trânsito em vias de duas pistas.

“A faixa da esquerda é reservada para ultrapassagem. É uma pista de trânsito rápido. Não faz sentido o motorista transitar por ela se na pista da direita não tiver carros. Da mesma forma que não faz sentido uma pessoa transitar por ela em uma velocidade mais baixa que os carros que estão na pista da direita”, esclarece.

O desrespeito a essa norma pode ocasionar outras infrações, como as ultrapassagens pela direita. A infração cometida pelos carros que não dão passagem pela esquerda quando solicitado é média. O motorista perde quatro pontos na carteira e paga multa de R$ 85,13.

 

É proibido estacionar...

De janeiro a setembro deste ano, 5.947 multas foram aplicadas pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) a motoristas que estacionaram em desacordo com a lei. Entre elas, 2.999 motoristas deixaram de utilizar cartão de área azul nas vagas marcadas pelo estacionamento rotativo, 2.239 estacionaram em local ou horário proibido por placas de sinalização e 709 ocuparam vagas destinadas a carga e descarga. Em comum, todos levaram para casa um papel com multa e perderam de três a quatro pontos na carteira de habilitação.

Já no relatório de infrações da Polícia Militar, a infração aparece em quinto lugar no ranking das mais cometidas na cidade.

Os números causam espanto, afinal, a sinalização é clara e, sendo assim, quem comete a infração está consciente de seu erro.

Para o capitão Paulo Sérgio Valentim, comandante da 1º Companhia da Polícia Militar e responsável pela base de trânsito, Bauru vive, atualmente, uma disputa por território, especialmente no Centro da cidade e na zona Sul. Por conta disso, os motoristas não se intimidam em desrespeitar a lei para garantir seu ‘lugar ao sol’.

“Temos uma frota aproximada de 240 mil veículos. Boa parte deles se concentra, em horário comercial, no Centro; e, aos finais de semana e feriado, na Zona Sul. Com isso, a disputa por vagas aumenta e o motorista, sem paciência, acaba ignorando a sinalização e, como consequência, leva pra casa uma autuação”, explica o capitão.

 

Cada um no seu quadrado

“Estacionei em uma vaga reservada sem usar cartão. Eu não tenho educação”. Colar um adesivo com estes dizeres em carros sem identificação legal que estacionam nas vagas destinadas a idosos ou deficientes físicos é a alternativa defendida pelo pesquisador de trânsito e escritor do livro Cartilha Brasileira de Trânsito, Ilton Sant’Anna.

“Já vi isso em outras cidades e penso que funciona. É uma forma educativa de dizer a quem estaciona nestes locais que aquela vaga não é dele nem por um minuto. Se a pessoa, realmente, tiver mais de 60 anos ou for portadora de deficiência física, ela deve usar o cartão de identificação para fazer valer deu direito”, explica Ilton.

E se a sugestão dada pelo pesquisador fosse acatada em Bauru, certamente, muitos motoristas passariam vergonha. Isso porque a falta de respeito da lei é visível, especialmente em áreas de grande movimento e disputa por vagas, como o Centro.

Na sexta-feira, dia 11, por exemplo, a reportagem do JC nos Bairros flagrou um instrutor de autoescola pedir ao aluno que estacionasse o carro em uma vaga destinada a deficientes físicos enquanto resolvia uma pendência em uma das lojas próximas à Praça Rui Barbosa. O veículo ficou no local por cerca de dez minutos, tempo suficiente para que o fotógrafo Éder Azevedo pudesse fazer vários registros. E então, ficou bem na foto?

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