Foi-se o tempo em que compras à vista diferiam das parceladas. Hoje, vendedores forçam compradores a optar pelo parcelamento. Motivo: dá mais lucros às empresas. Um perverso expediente tem sido largamente empregado para lesar os incautos. Alguém deseja um carro, mas sabe que não pode comprar a vista e... as prestações também não cabem em seu orçamento. O vendedor insiste, afirma que não há problema, que, se por ventura ocorrer algum imprevisto (ele tem certeza que ocorrerá), pode-se conversar. A vítima cai no engodo e, feliz, desembolsa o que não pode e leva o carro para casa. Paga a primeira prestação, a segunda, a terceira já precisa emprestar de alguém (uma dívida a mais), a quarta é impossível de pagar e... é obrigado a devolver o carro e perder as prestações já pagas.
Esses espertos aprenderam com os bancos: quanto mais dívida, mais lucro, para o banco, é claro. Assim reiteradamente se assedia as pessoas enviando cartões de crédito não solicitados, forçando correntistas a investir no pior, oferecendo créditos não solicitados nem desejados, cobrando taxas indevidas, enfim, fazendo malabarismos para lesar endividando.
No plano mais amplo, governos nacionais são instados, pelas instituições financeiras multilaterais, a contrair empréstimos (mesmo que não necessitem) a juros estratosféricos. Endividados, são vítimas do mais antigo e esperto expediente de extorção: as famosas medidas de austeridade: corte nas aposentadorias e salários, redução dos recursos para educação e saúde, desemprego em massa. Simultaneamente, são levados a gastar mais do que podem comprando armas obsoletas encalhadas (inventando invasões e guerras), sediando megaeventos, comprando a crédito hipotecando o que não têm, jogando na sorte (quase sempre azar) das bolsas, cedendo aos afagos dos especuladores. Acuados pelas dívidas, são alvo de ameaças.
A crise, que explodiu em 2008, mostrou o quanto a banca é faminta. Lucrou superlativamente e, além de lesar milhões e milhões de cidadãos, em nome da salvação dos empregos, exige que os estados lhe socorram. Que quebrassem, seríamos mais felizes. No Brasil, o resultado já sabemos: com os bilhões recebidos do governo, banqueiros compraram títulos da dívida pública que rendem os mais altos juros da mundo, ou seja os da taxa selic, hoje, 12%. Os empregos foram salvos, não por quem abocanhou os bilhões para salvá-los, mas por malabarismos do governo federal.
Os chamados credores, ameaçam, ameaçam, mas estariam perdidos se governos resolvessem governar, ou seja, se não mais se submetendo às suas chantagens.
Na verdade, nós é que somos credores: nós, desempregadas/os, empregadas/os com salários de fome, desamparadas/os pelos sistemas de saúde, vítimas de escolas de má qualidade, carentes de transportes públicos descentes, vítimas da especulação imobiliária e outras mais. Credores são indígenas, quilombolas, marisqueiras, quebradeiras de coco, quituteiras, pescadoras artesanais, bordadeiras, crocheteiras, rendeiras, cuidadoras de crianças, idosas/os, enfermas/os, deficientes e... também de jovens e adultos saudáveis.
Iolanda Toshie Ide