Tribuna do Leitor

O meu papai Noel


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Hoje vi o Papai Noel. Dizer que foi uma verdade incorruptível, afirmo que foi. Mas tem um porém, não era um destes Noéis que vivem do Natal, que tiram fotos com as crianças que frequentam os shoppings. Era um Papai Noel real, bem verdadeiro, típico, numa visão bem marcante. Realmente era o meu Papai Noel.

Lá estava, na frente da calçada, com seu saco vermelho e roupa vermelha, Digamos que haviam perdido sua cor original, mas que tinham um algo de vermelho, ainda se podia ver. Mas era meu Papai Noel de todos os anos.

Que posso fazer se já se foram cinco décadas que o espero? Então lá estava sua digníssima pessoa em carne e osso. Pensei que teria mais barriga, um pouco mais de carne em todo o corpo, mas a roupa tinha um tom de vermelho, deve ser por causa das cinco décadas que já se foram e ela acabou ficando desta forma, meio desbotada com o tempo.

Suas feições eram como a roupa. O branco estava nos cabelos e na barba rala, nas mãos trêmulas que seguravam o saco, meio avermelhadas. Este é meu Papai Noel, de cor negra, com barba rala e cabelos brancos. O cheiro da falta de banho se espalhava por todo canto. Havia algo do cômico e real da vida. O meu Papai Noel, que tanto esperei, era magro, seu sorriso desdentado mostrava como a vida o fizera, as rugas na testa e o olho esperto, mesmo sendo apenas um, estavam ali. Olhamo-nos por muito tempo, como se estivéssemos nos medindo. O tempo da minha espera e da sua espera mostrou a cada qual seu pensamento.

Não veio o medo, é que na verdade ali se encontrava a minha figura de esperança, ou a minha figura de insegurança, tudo carregado em um saco vermelho desbotado de cinco décadas que se foram. No primeiro momento pensei que ele estava com o saco cheio das coisas que tanto esperei, mas percebi naquele olhar vago, naquelas mãos trêmulas segurando o saco desbotado, que não havia grande coisa ali, mas que devia ser pesado... Percebo, então, algo estranho: as botas eram novas, perfeitamente novas, formando um contraste entre a roupa, o homem e o cheiro. É que na verdade meu Papai Noel infantil tinha um cheiro agradável.

Continuamos a nos olhar, a distância não era muita, o cheiro de falta de banho mesclado com carne podre, que vinha às minhas narinas, era muito forte. O meu Papai Noel deu-me as costas, como sempre fez por cinco décadas, mas estava tão próximo que não poderia deixar de falar, indagar algo. Fui em sua direção, nem sei onde encontrei coragem para tanto, por um simples motivo: o cheiro era muito deprimente.

Quando sentiu que eu me aproximava, retornou seu olhar, que na verdade me deixou calado, quando vi um olho furado, de onde escorria um líquido amarelado. Ele sorriu, as gengivas amareladas de fumo. Ficamos não muito próximos, mas a uma distância conveniente para mim, não para ele. Nesse momento, com passos lentos e trêmulos, ele foi se aproximando. O cheiro já envolvia todo o ambiente. Chegou e retirou, daquele saco desbotado de cinco décadas, três embrulhos. Fiquei intrigado, mas não me movi, estávamos bem próximos, o que me causou um certo enjoo por causa do cheiro.

O primeiro pacote era pequeno, não passava de uma pequena caixa; com mãos trêmulas me entregou. Não disse uma só palavra. Até que estava bem embrulhado, pensei, peguei e tive curiosidade de abrir; ele apenas fez sinal com a mão, que não abrisse, mas sim que lesse o que estava escrito. Foi isto que fiz, assim estava escrito: "Aqui se encontram todos os seus dias". Segurei com força, era muito pesado, era como se todos os dias que se passaram estivessem dentro de mim. Entregou uma segunda caixa, um pouco maior, até um pouco mais leve; estava escrito: "Aqui se encontram todas as suas mágoas". Percebi que a primeira caixa era mais pesada, a segunda era bem mais fácil de carregar. Então veio a terceira caixa, bem grande; nela estava escrito: "Aqui se encon tram todos os seus sonhos não realizados". Deve ser por isto que a caixa era grande, mas com uma leveza infernal; tive que segurar para não sair voando com o vento.

As gengivas apareceram naquele sorriso, e sua voz surgiu no espaço do cheiro, como uma faca que corta a manteiga. Não posso dizer que era uma voz acolhedora, digo que era meio rouca, como a voz desses cantores modernos, que gritam no microfone para as pessoas não perceberem que não existe voz alguma ali. Foram marcantes as palavras que usou, simples, medonhas e verdadeiras, como era verdadeiro meu Papai Noel sujo, desdentado, com cabelos desleixados e fedendo a carne estragada. Doeu ouvir sua voz, doeu escutar as palavras, mas estão aqui presentes e nunca irão partir, é minha verdade, nada muda com a verdade.

Seu olhar foi de despedida, foi saindo e o cheiro foi-se dissipando e as palavras continuaram ali, estavam ali e estavam dentro de mim; não entendi. Fiquei olhando sua partida, é que todos os anos vem a vontade de fazer caridade a mim mesmo, ou até com as sobras dar um pouco de Natal aos outros... Mas ali ficaram as palavras, nada mais. A caixa pesada do meu passado, a caixa mais leve com minhas mágoas, a caixa levíssima dos meus sonhos. Suas palavras tomarão rumo dentro de mim, como qualquer coisa que nos faz lembrar de algo que nunca vamos admitir, mas era verdade, não poderia dizer que não. Suas palavras foram: "Viva, Viva, Viva... Seus sonhos são leves, sua vida é pesada, suas mágoas ficam bem pouco dentro de você. Viva, Viva, Viva a Vida... Feliz Natal!

Marcelo Veiga da Silva

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