A inteligência humana fascina e equipamentos são ferramentas. O computador tem inteligência de minhoca, mas a capacidade de abstração do cérebro, incomparável é única. Com ferramentas apropriadas as ideias se concretizam e este é o papel da tecnologia: dar vazão à criatividade para resolver nossos problemas e chegarmos mais perto da felicidade pela coerência entre o que se pensa e fala com o que se faz e vive.
Apenas oferecer computadores com salas conectadas e lousas eletrônicas não melhora a educação. Os alunos com computadores e ipads devem ser induzidos a pensar, ser críticos, analíticos, criativos e se comunicarem bem. Os professores e pais devem saber o momento certo para cada estímulo, mas para detectar este momento vai ter que viver e conviver, repartir experiências e isto demanda tempo e dedicação. Estudos em vários países revelam: notebooks, ipads, celulares e redes sociais não melhoram a educação, podem facilitar, mas não diferencia mentalmente o indivíduo! Quase sempre as experiências de equipar a escola não são simultâneas ao melhoramento criativo e afetivo na abordagem do conteúdo pelos professores e pais.
Na vivência de sala de aula, como revelam programas tipo Fantástico, fica difícil achar normal aquela forma anárquica de convivência aos gritos e com grosserias. Sem conscientização e capacidade de liderança dos professores e diretores preparados em excelentes faculdades, não teremos melhora na educação mesmo em escolas super-equipadas. O segredo da boa educação está na formação dos professores com devida e justa remuneração para que os melhores cérebros queiram sê-los. Em geral, não são formados para liderar, dialogar e se comunicarem bem, mesmo com alunos grosseiros e mal formados. Assim, tentam heroicamente, mas não conseguem melhorar a educação.
Enquanto não mudarmos a formação e atribuir uma remuneração justa aos professores, ninguém terá sucesso nesta área. Não me venham com exemplos coreanos e chineses: estes países não têm educação humanística, suas universidades formam mão de obra técnica e não questionadora ou crítica para as suas fábricas. A educação destes países é de natureza utilitária, sem o objetivo focado em formar humanos analíticos, críticos, pensantes e criativos que possam ter propostas utópicas para mudar o mundo como fizeram Bill Gates e Steve Jobs.
Pensar ou fazer?
Enquanto o oriente fabrica, o ocidente pensa, cria e se eleva intelectualmente. O trabalho manual diário por muitas horas não permite reflexões profundas, não permite errar para aprender e muitos menos sentir para experimentar a felicidade profunda dos sentimentos errantes de nosso ser. O ocidente paga ao oriente para fabricar seus produtos e designs criativos; eles copiam, melhoram, mas raramente criam e inovam de forma absoluta!
A escola deve ser o espaço de desenvolvimento humano e não de treinamento de futuros empregados robóticos e pouco criativos. O professor não deve ser monitor para o cumprimento de tarefas e buscas, mas indutor de pensamentos e abstrações, deve ser o despertador do pensamento criativo e analítico. Em tempo algum a tecnologia substituirá aquele que induz a pensar. O ser humano evolui apenas com outros humanos ao redor, não existem eremitas criativos! A arte da convivência humana é a arte de ensinar e aprender. O egoísta ganha na competitividade e fracassa em si mesmo!
Fico feliz quando uma escola em nossa cidade (FourC - JC 22 nov 11) se propõe no ensino médio a desenvolver atividades como oratória, argumentação, debate, política, economia e sistemas de informação, visando a interação plena com o mundo ao seu redor. Os equipamentos, livros e sites são ferramentas e não diferencial na formação. Que tenha sucesso e sirva de exemplo na formação de homens pensantes e não apenas máquinas biológicas treinadas para o mercado, Enem e vestibular. Que se estenda este exemplo para outras escolas quer sejam privadas ou públicas.
Disse Zeferino Vaz: uma escola se faz com homens, apenas depois devemos nos preocupar com os equipamentos e prédios. Na ciência e educação, a tecnologia e máquinas sofisticadas nada resolvem se as idéias e os questionamentos de quem utilizam não forem criativas e buscarem respostas interessantes para o conhecimento e formação humana. Afinal, o lado humano deve prevalecer sobre o profissional. Sempre!
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br