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Ozires Silva, um bauruense

Archimedes Azevedo Raia Jr.
| Tempo de leitura: 4 min

Em 2011, o bauruense Ozires Silva completou 80 anos. A Assenag lança o livro "Ozires Silva - um líder da inovação". A Câmara lhe presta justa homenagem. A Embraer, também, com a exposição "Sonhos e Ousadia". Bauru não deve se esquecer, dentre tantos filhos ilustres, este que engrandece o seu nome e do Brasil pelo mundo todo. Ozires sempre faz questão de registrar, nas mais diversas formas, a sua origem bauruense, nas conversas, nas palestras. Na exposição da Embraer, consta em diversos trechos o nome de sua cidade natal. "O menino de Bauru..."; "Eu nasci há um bocado de tempo lá em Bauru"; "Foi no Aeroclube de Bauru..."; "Casado com Therezinha Silva, sua namorada desde os tempos do Colégio em Bauru".

Ozires e seu amigo Benedicto César, o Zico, possuíam o sonho de serem aviadores e, no Aeroclube, foram apoiados por Kurt Hendrik, um suíço que adotou a cidade como sua, e que tinha a aviação correndo nas veias. Pouco depois de criada a Força Aérea Brasileira, em 1948, eles se apresentaram como candidatos a Cadetes do Ar. Zico morreu muito cedo, com apenas 25 anos, deixando a concretização dos sonhos nas mãos do amigo.

Formou-se engenheiro no Instituto Tecnológico da Aeronáutica e, na formatura, em 1962, o reitor lhe falou: "Vou lhe dar na mão o diploma para o engenheiro mais aeronáutico que o ITA já formou". Ozires foi convidado a prestar serviços, em 1964, como diretor do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento. Obteve título de Mestre em Ciências Aeronáuticas no California Institute of Technolgy, onde também foi agraciado com a medalha Alumni Award. Foi homenageado em muitos outros países.

O engenheiro Ozires é um dos homens mais respeitados neste país e no exterior. Foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Embraer. Na sua primeira gestão (1969-86), desenvolveu o Bandeirante e outros seis aviões. Em 1986, assumiu a presidência da Petrobrás. De 1990 a 1991 foi o superministro da Infraestrutura. Neste período, ocorreu a privatização da Embraer. Em 1992, na sua segunda gestão na empresa, a conduziu neste processo. Hoje, a Embraer é terceiro maior fabricante de aeronaves comerciais leves do mundo, atrás somente da americana Boeing e da européia Airbus, na frente da canadense Bombardier. Foi também presidente da Varig e reitor da Unisa e da Unimonte, onde continua seu trabalho de educação. Publicou 8 livros.

Apesar deste invejável currículo, Ozires é de uma humildade contagiante. Isto me permitiu vivenciar com o superministro uma experiência singular. Em 1992, eu, que era diretor técnico, e a engenheira Cylene Garcia, então presidente, representávamos a Emdurb em um congresso de transportes, em Campinas. Ozires fez uma palestra sobre o tema, já que os transportes eram pertinentes ao Ministério da Infraestrutura. Após esbanjar simpatia e competência e, finalizando a sua fala, fomos eu e Cylene nos apresentar ao ministro como seus conterrâneos. Ele se mostrou muito satisfeito por ver a sua amada cidade representada naquele importante encontro nacional.

Ficamos conversando por um bom tempo até que a sala se esvaziasse. Ozires pegou sua pasta e foi saindo conosco para fora do recinto. Não havia nenhum assessor, nenhum segurança, nenhum político ladeando aquele que era o mais importante ministro do governo Collor. Tentando ser delicado, ofereci a ele uma carona para Bauru. Ele, muito solícito, agradeceu, e disse que aceitaria, mas que naquele momento retornaria a São Paulo, onde dona Therezinha, sua esposa, o esperava. Entrou no carro oficial, onde só havia o motorista, e partiu.

Posteriormente, Cylene e eu conversávamos: que sorte o ministro não ter aceito o convite, apesar da honra que nos proporcionaria. Já pensou ele neste carro velho da Emdurb? E se quebrasse no caminho, o que faríamos com o ministro? Rimos bastante pelo fato e pela nossa ousadia. Mas ficamos com a impressão maravilhosa daquela pessoa, uma das figuras mais proeminentes da República e que se fizera acessível a todos, inclusive a nós, pobres mortais!!! Que saudades dos tempos, onde ministros eram extraordinários, cultos, competentes, probos, respeitados e abertos à comunidade. Precisaríamos de outros tantos Ozires nos dias atuais.


O autor, Archimedes Azevedo Raia Jr., é engenheiro, mestre e doutor em Engenharia de Transportes pela USP, professor do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Urbana da UFSCar. E-mail: raiajr@ufscar.br

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