Bairros

Aids: avanços fazem jovens ?relaxar?

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Um tema que sempre merece atenção e espaço na mídia. É assim a discussão da aids, cujo dia mundial de combate à doença é hoje (leia mais abaixo e na página 28). Mesmo com todos os alertas, muitos ainda não se previnem, principalmente os jovens. Para especialistas que convivem diariamente com os soropositivos, a causa desse “desleixo” é justamente o fato de essa parcela da população não ter convivido com a fase drástica da doença.

Antigamente, a visão de quem tinha o vírus HIV era de uma pessoa condenada à morte com ares de sofrimento. Quem não se lembra da foto do cantor Cazuza pouco antes de sua morte? Hoje, os tratamentos existentes possibilitaram uma significativa diminuição do índice de mortalidade e também maior qualidade de vida aos portadores. O que é para ser comemorado, ao mesmo tempo, deve servir de alerta.

O paradoxo se consiste no fato de que os jovens, justamente por terem “convivido” com a aids depois de todas essas melhorias científicas, passaram a se preocupar menos com a doença. A infectologista Maristela Pastore Oliveira confirma essa preocupação.

“É inegável que houve melhorias incríveis nos tratamentos e que o portador de HIV possui uma qualidade de vida muito melhor do que antigamente. Mas os jovens precisam entender que a aids ainda é uma doença gravíssima e que não tem cura”, explica.

De acordo com ela, apesar de os medicamentos terem evoluído bastante, eles continuam sendo medicamentos e, assim, sujeitos a apresentarem efeitos colaterais. “Quem faz uso de remédios para combater a aids, precisa tomar mais de um. Diariamente, o tratamento é feito de, no mínimo, três medicamentos. Isso pode trazer alguns efeitos colaterais e até aumentar o risco de outros problemas, como infarto, derrame e acidente vascular cerebral (AVC)”.

A coordenadora administrativa e de prevenção da Sociedade de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru (Sapab), Márcia Pereira da Silva, confirma que os jovens passaram a achar que a doença se tornou uma enfermidade crônica como as outras. “Isso é um grande engano. Não é porque as pessoas conseguem viver com a aids que ela se tornou uma doença comum”, completa.

Nas ruas, questionada pela reportagem do JC, a população ainda diz temer a doença. Porém, Márcia da Silva explica que, mesmo com essa consciência, a sensação de que o vírus sempre está longe da nossa realidade é um grande fator de risco.

 

Preservativo

Segundo os especialistas, a utilização do preservativo continua sendo a melhor maneira de se prevenir da aids. Porém, em um misto de confiança - conforme já citado - e busca por liberdade, muitos jovens ainda não se protegem durante as relações sexuais.

Conforme o JC divulgou no começo deste mês, um levantamento realizado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) aponta que existam 224 jovens entre 13 e 24 anos infectados pelo vírus da aids em Bauru.

“Hoje, os jovens têm relações sexuais em qualquer hora e qualquer lugar. Assim, muitas dessas relações ocorrem sem o uso de preservativo”, conta a infectologista Maristela Pastore.

Márcia da Silva confirma essa realidade, a qual chama de fazer sexo “na loucura”. “Existem relatos de jovens que aproveitam até um muro para fazer sexo. Você acha que eles estão prevenidos?”, questiona, em tom de alerta.

 

Mulheres

Outro grupo que merece atenção especial são as mulheres jovens. De acordo com dados do Ministério da Saúde, as mulheres entre 13 e 19 anos representam a única faixa etária na qual há mais pessoas do sexo feminino soropositivas do que homens.

“As meninas ainda se submetem a não usar o preservativo para ter a aceitação do parceiro. Algumas tem vergonha em pedir para que eles usem e, por isso, fazem sexo sem”, explica a coordenadora administrativa e de prevenção da Sociedade de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru (Sapab), Márcia Pereira da Silva.

A infectologista Maristela Pastore ainda coloca outro fator. “Elas acham que, se pedirem para que o parceiro use o preservativo, ele vai achar que ela tem alguma doença. Isso tem que mudar”, alerta.

 

Alerta a casais

Apesar de o alerta estar focado nos jovens, a aids não tem “preferência” por faixa etária. Assim, o público adulto ainda é visto com muita preocupação, principalmente as pessoas casadas.

“Mesmo casadas, as pessoas precisam continuar se prevenindo. Hoje, é indiscutível que a traição existe. E de ambas as partes. Tenho casos de mulheres que são soropositivas e não conseguem contar ao marido por medo”, relata a infectologista Maristela Pastore.

 

Campanha enfoca os jovens homossexuais

A campanha deste ano do Dia Mundial de Luta Contra a Aids foca o público homossexual. Com o slogan “A Aids não tem preconceito. Previna-se”, as ações visam estimular a reflexão em jovens homossexuais entre 15 e 24 anos.

A escolha desse público ocorre uma vez que, de acordo com os boletins epidemiológicos sobre a aids/HIV, a porcentagem nessa faixa aumentou 10,1% nos últimos 12 anos, enquanto, no total da população, diminuiu.

A coordenadora administrativa e de prevenção da Sociedade de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru (Sapab), Márcia Pereira da Silva, destaca que a aids é um problema que deve ser de alerta a todos. Porém, enxerga que é válido priorizar esse público.

Segundo ela, a causa do aumento registrado pode ser por uma mudança de foco dos movimentos que lutam pela diversidade. “Quando esses movimentos começam a se engajar mais na busca por direitos, o foco muda um pouco. Hoje, eles continuam lutando por acessos, inclusive de saúde, porém, focados mais na questão dos direitos”, acredita.

Porém, Márcia da Silva faz questão de ressaltar que a aids não escolhe opção sexual e, por isso, o extremo cuidado deve ser de todos.

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