Impossível não abrir um sorriso de felicidade quando, ao acordar, se descobre pela janela a paisagem deslumbrante revelada pela luz do dia. Montanhas salpicadas de neve, de um branco que se confunde com as nuvens do céu. O mar escuro reflete a sombra dos pássaros pescadores. Tudo é um espetáculo que nos segura na cama de olhos paralisados naquela janela que mais parece um quadro vivo. Mas mesmo com a temperatura de 5 graus do lado de fora, pular da cama antes das 7 horas é a melhor escolha. Navegamos pelas águas do Estreito de Magalhães e o destino é o fim do mundo, em uma expedição de muitas histórias, mitos e a natureza selvagem da Patagônia. Os sorrisos de felicidade estão só no começo.
A jornada corta algumas das centenas de fiordes, ilhas e canais da região mais austral do planeta, uma pérola do continente sul-americano. Uma misteriosa grandeza vive entre as montanhas que se elevam umas atrás das outras, deixando entre si profundos vales. Região que por séculos desafiou a habilidade de grandes navegadores e hoje habita o sonho de turistas de todo o mundo. A viagem é para contemplação e exclamações. E também para curtir uma solidão sem tristeza.
Para descobrir geleiras, os caminhos da história e andar entre pássaros e pinguins, é preciso se desligar do mundo. Os passageiros não têm acesso a internet, telefone ou mesmo televisão. E sem nenhum sacrifício - muito pelo contrário.
Desde o início da década de 1990, a região é explorada por cruzeiros turísticos, sempre em versões menores que os convencionais. Estamos a bordo do Stella Australis, um dos que realizam essa expedição. De bandeira chilena, o navio tem capacidade para somente 210 passageiros.
Abrigo com instalações luxuosas, áreas de convívio com preguiçosos sofás de couro, serviço all-inclusive e, é bom avisar, uma agradável temperatura ambiente. O frio, que nesta época do ano varia entre zero e 10 graus, está só do lado de fora.
Apesar do luxo e do bar aberto, esqueça festas noturnas e bailes que entram pela madrugada. A programação prioriza as saídas para terra, a maioria nas primeiras horas das manhãs.
Partida
O ponto inicial da aventura é a cidade chilena de Punta Arenas, no paralelo 53° ao Sul, na costa do estreito descoberto em 1520 pelo navegador português Fernando de Magalhães, a serviço da Espanha. Até chegar a Ushuaia, na Argentina - e também ao voltar a Punta Arenas, para aqueles que fazem o tour completo - vestimos o colete salva-vidas repetidas vezes e nos jogamos a bordo de botes Zodiac para desembarcar em baías e geleiras. Sempre em grupos de até 15 pessoas, divididos pelo idioma dos passageiros.
As línguas oficiais são o espanhol e o inglês. Prepare-se para conhecer gente do mundo todo. Mais da metade dos passageiros - 57% do total - são europeus. Norte-americanos e canadense são 24% e da América Latina, 16%. Os brasileiros correspondem a apenas 6% dos expedicionários deste cruzeiro. Apesar disso, havia em nossa viagem guias que falavam português - e, em um dos trechos que o grupo de brasileiros era maior, todas as informações eram traduzidas.
A viagem tem quatro noites na ida, três na volta. Cruzar essas águas é um ingrediente valioso para a recarga de aventura no espírito de qualquer pessoa. Para a porção de informação, guias afiados destrincham detalhes da fauna, flora e também das glórias e inglórias dos navegantes. "Somos privilegiados por navegar nestas águas", diz um dos guias.
Naturalista inglês Charles Darwin esteve na região no século 19
Até ancorar na Baía Ainsworth, a primeira exploração em terra programada no roteiro do Stella Australis, navegamos durante a noite pelo Fiorde Almirantazgo - à esquerda, a maior ilha da Patagônia, a Terra do Fogo. Chegamos de bote a uma praia de pedras, com pedaços de gelo que boiavam em água calma e desenhavam verdadeiras esculturas. Dali, podem ser vistos ao longe o Glaciar Marinelli e a Cordilheira Darwin. Uma admirável sequência de montes e montanhas imponentes e branquinhas.
O naturalista inglês Charles Darwin, que empresta o nome à cadeia de montanhas, conheceu a região no século 19 em uma expedição fundamental para sua teoria evolucionista.
O guia do grupo brasileiro, Cristóbal Fierro, explica que a cordilheira possui 1.872 fendas de gelo. São essas fendas que garantem a vida dos glaciares que rodeiam as montanhas.
O trajeto segue terra adentro, tendo como trilha sonora o canto dos pássaros e as explicações detalhadas sobre árvores, flores e liquens que amarelam as pedras. Os tons de cinza e verde da vegetação herbácea oferecem um bonito contraste com o branco virtuoso da neve das elevações enfileiradas no horizonte. Pendurado nas árvores, praticamente secas nesta época, os farolitos del China formam espécies de lustres. Dizem que um beijo dado sob esses ornamentos naturais prenuncia amor eterno. Os casais não resistem.
Uma parada diante de outra árvore, a que dá a frutinha mais famosa do extremo sul do continente, o calafate. "Você precisa comer para voltar à Patagônia", repete Fierro. No navio, provei a geleia. Deliciosa, como uma amora de sabor marcante e levemente azedinho.
A baía e pequenas ilhas do entorno abrigam uma colônia de elefantes marinhos. Mas, como ali é a natureza quem dá as cartas, não tivemos a sorte de avistar nenhum destes animas.
De volta ao bote, seguimos a um passeio de quarenta minutos em torno da ilha Tuckers. Não desembarcamos. Pela água, circundamos formações rochosas onde vimos uma colônia de cormorões, aves que fazem de ninho buracos na pedra. São aves migratórias, encorpadas, de um preto retinto e pescoço alongado. Os animais são monogâmicos e se encontram para namorar e procriar em seu ninho. Mais um capítulo fofo da expedição, para deleite dos apaixonados.
Saiba mais
Aéreo: São Paulo-Punta Arenas-São Paulo, com escala em Santiago, a partir de R$ 991 na Lan (lan.com). São Paulo-Ushuaia-São Paulo, desde R$ 1.101 na Lan e R$ 1.286 na Aerolineas (aerolineas.com.ar) uCruzeiros: 3 noites no sentido Ushuaia-Punta Arenas, desde US$ 1.124; Punta Arenas-Ushuaia, 4 noites, a partir de US$ 1.498. O roteiro de 7 noites custa desde US$ 2.622. Os preços são por pessoa, com todas as refeições, bebidas e passeios guiados
O que levar
Contra o frio
As temperaturas patagônicas são baixas mesmo durante o verão. Leve blusas de lã, jaqueta, cachecol, gorro e luvas
Para desembarcar
Sempre realizados em botes, os desembarques estão sujeitos a contato com a água. Não esqueça calça e jaqueta impermeáveis. Tênis ou botas de trekking também são importantes para as excursões por ambientes e solos úmidos
Muitos cliques
A máquina fotográfica será sua melhor companheira. Não desgrude dela
O que trazer
Souvenirs
Praticamente não há artesanato local. Em Ushuaia, lojas vendem lembrancinhas "do fim do mundo". A geleia da frutinha vermelha calafate é boa aquisição
Roupas
Roupas esportivas de frio são mais baratas no Chile e na Argentina. Um tênis de trekking, por exemplo, custa metade do preço brasileiro
Lembrei de você
A oficina postal (agência de correio) de Ushuaia é ponto turístico: não deixe de mandar o seu cartão-postal desde o fim do mundo. Custa cerca de R$ 5. Naturalista inglês Charles Darwin esteve na região no século 19