Os laços que nos unem à África são mais do que sabidos: 12 milhões de africanos forçados a uma diáspora que até hoje traz conseqüências nefastas ao continente. O nosso falar, o nosso andar, a nossa culinária, os nossos saberes e fazeres, religiosidade, enfim a "civilização brasileira" que foi criada a ferro, fogo e miscigenação com os povos africanos, sofre transformações que não deveríamos permitir, mas são marcantes.
Em uma mesa redonda realizada nessa segunda-feira, dia 21 de novembro, na Universidade Sagrado Coração, promovida pelo Centro de Ciências Humanas, Filosofia e História, em comemoração ao dia 20 de novembro, efeméride que lembra a morte de Zumbi dos Palmares, último rei desse importante quilombo, e evoca o dia da Consciência Negra, os palestrantes convidados, dois de Angola, um de Cabo Verde e uma convidada de Guiné Bissau, percebeu-se que muito do passado colonial que se encerrou na segunda metade do século XX ainda persiste causando males que vão além da exploração das riquezas naturais.
Os palestrantes ressaltaram que as notícias veiculadas pela mídia mundial sobre o continente e seus países divulgam apenas a violência, as mortes, as doenças ao invés de mostrarem o cotidiano de um continente tão diverso e que é berço da humanidade. Lembraram também que essa distorção da mídia não ocorre só em relação à África, mas também em relação ao Brasil, que tem a sua imagem ligada a uma sexualidade libertina de um país licencioso, afeito a festas, violento e corrupto. Na fala dos palestrantes angolanos uma revelação: a maciça presença dos chineses, filhos do Império do Meio, em Angola interessados nos diamantes, madeira, café e, em especial, no petróleo do país que tanto contribuiu para a nossa cultura miscigenada e tão admirada pelo mundo afora.
A revelação é espantosa pelos métodos empregados pelos chineses para estabelecer relações comerciais e culturais com o país africano que podem enfraquecer os laços que unem os nossos povos de forma umbilical: os chineses criaram duas linhas aéreas, a primeira, saindo de Luanda voa direto para Pequim sem escalas e a segunda, saindo também da capital angolana, voa para Dubai a preços sem concorrência. A rota de Pequim para estimular compras que os angolanos a pouco faziam em solo brasileiro e a segunda para estimular o lazer que também era desfrutado por aqui.
Como é sabido, os chineses para sustentarem o seu crescimento tem uma sede de petróleo insaciável e de qualquer parte do mundo. Angola, como todo país, necessita desse comércio e, se aproximando dos chineses, afasta-se do Brasil e do seu passado histórico que foi de sofrimento, mas que hoje é de respeito e de consideração pela herança deixada aqui, pelos seus antepassados. Como brasileiros não podemos permitir que esses laços históricos culturais se desfaçam ou se afrouxem. Devemos nos voltar para a África com coragem para restabelecer a herança que nos une e ajudar Angola e todos os países africanos a restaurar esses laços em todos os níveis e, no comércio internacional, oferecermos opções menos predatórias do que outras nações oferecem e praticam.
O autor, Fábio Pallotta, é professor de história e colaborador de Opinião