Neide Carlos |
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Denise com o marido Ricardo e o filho Ricardo Amantini Filho: alta gastronomia em família |
Um pedido de casamento ou um simples jantar romântico, despedidas, comemorações, reuniões festivas... A vida acontece em volta da mesa. E cada vez mais o ato de cozinhar em casa para a família e amigos recupera o espaço perdido para o “comer fora”. Segundo especialistas, o cozinhar e receber faz parte do movimento de socialização, ajuda a fortalecer os laços familiares e de amizade, o que gera prazer e qualidade de vida
“O ser humano desde a pré-história tem uma ligação muito forte entre a alimentação e o convívio social. Mas foi nas civilizações clássicas (greco-romanas), que a alimentação ganhou uma conotação ritualística mais intensa, com banquetes políticos e sociais e, em muitos casos, também ligadas ao sexo”, explica o professor de história e sociologia Marco Aurélio de Oliveira Filho.
Partindo da ideia de que reunião à mesa é um convite à socialização, é possível dizer que, nas últimas décadas, a correria do cotidiano, com trabalho, estudo e todos os afazeres diários, e a explosão do “fast food” (comida rápida) e dos congelados contribuíram para que a vida social fosse colocada de lado. Isso aconteceu, segundo o professor, principalmente entre as décadas de 80 e 90 com a sociedade e velocidade nos transportes, comunicação, informação e até alimentação. “A ideia de que tempo é dinheiro não deixou espaço para um banquete ou seu preparo. As famílias deixaram de se encontrar no almoço e até no jantar. Um indício inegável de crise social”.
Mas, como todo movimento humano é cíclico, o coordenador do curso de gastronomia da Universidade Sagrado Coração (USC), Paulo Renato de Paula Frederico, acredita que o hábito de cozinhar e reunir em casa está voltando com força com o reencontro do prazer de estar com as pessoas. “As pessoas estão se vendo sozinhas e valorizando mais o estar com os outros”, aponta.
“Mãos na massa”
Como parte desse movimento de valorizar o alimento desde o seu preparo até o prazer de sentar-se à mesa para comê-lo, Paulo Renato destaca o “Slow Food”, uma associação internacional que nasceu em meados da década de 1960, na Itália, e defende a mudança nos hábitos alimentares. Tal movimento ganhou força no mundo contra o ritmo frenético da vida atual, falta de interesse pela alimentação e tradições culinárias. “É o vamos nos sentar em volta da mesa e saborear os alimentos e a companhia que ressurgem”.
E, segundo o professor Marco Aurélio, os movimentos de resgate desses valores alimentares ritualísticos ganharam novas roupagens como a premissa de uma alimentação mais saudável e a revalorização da vida social, sobretudo da familiar, pensando em qualidade de vida. Dessa forma, o regresso do prazer do preparo e degustação do alimento é tendência visível.
“Cozinha integrada a outros ambientes, áreas de lazer que além da churrasqueira possuem forno e fogão à lenha ganham destaque nas residências e provam a busca da união do cotidiano cheio de afazeres com as noites e fins de semana de reuniões, quase que sagradas, que lembraram que somos seres sociais”, acrescenta o professor.
Outra prova de que o “colocar a mão na massa” está em alta é, de acordo com Paulo Renato, o aumento na procura pelo curso de gastronomia. Temos alunos de todas as idades, desde aqueles que têm em mente seguir a carreira profissional ou montar um negócio, até aqueles que têm o cozinhar como hobby e querem aprimorá-lo para cozinhar para a família e amigos”.
Grupo se reúne entre sinuca, bom prato e muito bate-papo
Cozinhar para os amigos e jogar conversa fora. Esse é o intuito do jantar da terça-feira à noite, sagrado para os cerca de 14 membros da “Turma da Sinuca”, um grupo de amigos que se reúne há duas décadas para jogar sinuca, cozinhar, jogar conversa fora e, é claro, se divertir.
Júlio Akio Kosaka é um dos membros do grupo e lembra que tudo começou em volta de uma mesa de sinuca: “Os amigos gostavam muito de se reunir para jogar e, por isso, decidimos nos reunir em uma chácara. Mas, na época, tínhamos um cozinheiro particular”.
Tempo depois, a “Turma da Sinuca” encontrou uma casa na cidade para suas reuniões e ficou decidido que cada semana um membro seria o responsável pela comida. Então, entre temperos e ingredientes, os amigos colocam as novidades em dia. E o cardápio é variado, com direito a pratos orientais, como gengiskan e yakisoba, além da tradicional comida brasileira, com escondidinho de carne seca, churrasco de carneiro, entre muitos outros. “Nessas reuniões, falamos sobre tudo. É nosso momento de descontração semanal onde só os homens podem participar. Para as famílias, temos uma festa especial, o Bonenkai”, afirma Júlio.
Recentemente, outro membro da turma tem tomado gosto pela cozinha. O aposentado Luiz Carlos D’ Andrea, além de cozinhar para o grupo, também tem preparado banquetes em casa com a esposa, sua professora na arte de cozinhar. Comida oriental, italiana, arroz carreteiro e peixes são os pratos mais preparados por “seo” Luiz para toda a família e amigos. E a recompensa: “É uma grata satisfação ouvir que meu tempero é bom. É um elogio que faz bem ao ego”, orgulha-se.
Paixão que virou profissão e tradição de pai para filhos e netos
“Sempre fui assim: desde pequena eu deixava as brincadeiras de lado para me aventurar nos quitutes com minha avó. Com o incentivo do meu pai, eu fazia minhas experiências com sanduíches, bolos e tudo mais. O incentivo dele e os olhos de cobiça dele e de meus irmãos para o que estava sendo preparado eram o combustível perfeito para minhas aventuras gastronômicas”, lembra a chef e professora de gastronomia Denise Amantini sobre como surgiu sua paixão por cozinhar.
Cozinhar para a família e amigos sempre foi rotina para Denise. Na infância, o prato preferido dos primos era o brigadeiro da pequena chef. “Tive outras duas profissões antes de cursar gastronomia, mas estava sempre inventando moda na cozinha e convidando amigos e familiares para provar”. E nas raras reuniões que não eram feitas em sua casa, Denise sempre era a convidada especial de eventos que exigiam alguém para cozinhar. “A paixão virou profissão. Não teve jeito”.
Referência em gastronomia, na casa de Denise a cozinha até ganhou bancos e sofá, pois é lá que ela reúne os amigos, que não aceitam outro cômodo da casa para a recepção. “E a conversa rola solta entre temperos e drinques”.
Para Denise, a satisfação de surpreender na cozinha é ímpar. Já os elogios, ela diz que acalentam a alma. “Consegui passar a paixão para os meus filhos. Eles adoram cozinhar para os amigos. E as receitas seguem passo a passo por telefone e muitas vezes no ato em tempo real. Eles de um lado e eu do outro orientando quanto disso ou daquilo deve ser colocado no prato”.
