Ribeirão Preto - Exímio passador e com grande visão de jogo, Sócrates, que morreu na madrugada de ontem, aos 57 anos, ganhou o apelido de “Calcanhar de Ouro” por ter um estilo de jogo único ao usar o calcanhar para criar efeito no passe e marcar gols memoráveis com os dois pés.
Sua precisão e estilo na cobrança de pênaltis, com um estilo que se diferenciava do tradicional formato de correr e chutar direto para o gol, não surtiu efeito em 1986, quando o Brasil perdeu para a França nas quartas-de-final, nos pênaltis, após sua cobrança ter sido defendida.
Vencedor de 60 jogos com a seleção brasileira, com 21 gols marcados, Sócrates também era conhecido por suas posições firmes em temas ligados ao futebol e à política.
Astúcia política
O ex-treinador da seleção brasileira Carlos Alberto Parreira, que comandou Sócrates em 1983 e 1984, disse: “Era o mais intelectualizado dos jogadores com os quais trabalhei. Era muito inteligente, objetivo e tinha opiniões muito proprias e definitivas sobre qualquer assunto e, principalmente, sobre política”.
“Dentro de campo foi genial. Marcou uma geração com a qualidade técnica e inteligencia do seu futebol. Foi um ídolo de clubes e da Selecão onde marcou e fez parte da famosa seleção de 1982. Foi um dos grandes icones daquele time que encantou o mundo.”
No Corinthians, durante o período do governo militar, Sócrates atuou como forte liderança na Democracia Corintiana, movimento em que todos os assuntos do clube eram decididos pelo voto de diretores, comissão técnica e jogadores.
O time mandava mensagens ao governo brasileiro, levando cartazes nos jogos com frases como “Diretas Já” ou “Quero votar para Presidente”.
Sócrates teve uma rápida e difícil passagem pela Itália, na Fiorentina e, após sofrer com o frio em um momento excêntrico de sua carreira, também fez uma breve aparição como jogador, em 2004, como substituto pelo clube amador Garforth Town.
Tempos depois, ele participava de seminários sobre liderança e relacionamento interpessoal, enquanto atuava na medicina e trabalhava em um livro de ficção sobre a Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil.
O ex-presidente Lula afirmou: “O doutor Sócrates foi um craque no campo e um grande amigo. Foi um exemplo de cidadania, inteligência e consciência política, além de seu imenso talento como profissional do futebol”.
“A contribuição generosa de Sócrates para o Corinthians, para o futebol e para a sociedade brasileira jamais será esquecida. Neste momento de tristeza, prestamos solidariedade a esposa, familiares e amigos do Doutor”, disse Lula, torcedor do Corinthians, em nota.
A presidente Dilma Rousseff também manifestou pesar pela morte de Sócrates, a quem chamou de “campeão da cidadania”. “Fora dos campos, nunca se omitiu. Foi um brasileiro atuante politicamente, preocupado com o seu povo e o seu País”, disse Dilma em nota divulgada pelo site da Presidência da República.
Zico lembra do ‘amigo’ em seu site
São Paulo - Colega de Sócrates na Seleção Brasileira em duas Copas do Mundo (1982 e 1986), Zico prestou homenagem pela morte do ex-jogador, na madrugada de ontem, em São Paulo, com uma nota de luto em seu site oficial.
Zico contou sua preocupação ao saber da internação, quinta-feira, e a tentativa nos últimos dias de falar com o amigo para homenageá-lo no Jogo das Estrelas, amistoso que promove todo fim de ano, desta vez marcado para o Morumbi, dia 28.
“As informações eram preocupantes, mas a gente sempre acredita na força de caras como o Sócrates. Dormi ainda confiante, acordei com a certeza de que o destino nos levou o Sócrates no dia de uma grande decisão do futebol, esporte em que ele é um de seus mais importantes personagens”.
Zico lembrou que, além da seleção Brasileira, estiveram juntos no Flamengo por um ano, em 1986, e considerou “difícil descrever tamanha classe, categoria e a inteligência”. Prestou solidariedade aos familiares e definiu o companheiro como “leal, obstinado, íntegro e sincero”.
Velório
Chorando, o ex-lateral Wladimir chegou ao velório onde está sendo velado o corpo de seu colega de Democracia Corintiana, em Ribeirão Preto, e disse que perdeu uma referência.
“Magrão era minha grande referência, mais do que só um companheiro (de equipe). Perco não só o amigo, mas essa referência”, disse o ex-atleta.
Wladimir já fazia parte do Corinthians quando Sócrates chegou ao clube de Parque São Jorge, em 1978.
Juntos, os dois foram alguns dos jogadores que lideraram a Democracia Corintiana, movimento que tinha como um dos objetivos extinguir as concentrações antes das partidas na década de 80.