Ciências

Pirulito de catapora imuniza?


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Não! Imunizar significa livrar, tornar-se protegido de uma doença. O organismo pode ficar imune naturalmente quando um microrganismo ou micróbio entra nos tecidos, ou em "nossas carnes". Ocorre produção de células e substâncias programadas para matar especificamente cada agente invasor: este conjunto de reações se chama resposta imunológica.

Entre as células estão os linfócitos e entre as substâncias, proteínas que ficam circulando no sangue popularmente conhecidas como anticorpos ou imunoglobulinas. Para cada agressor, uma reação imunológica exclusiva.

O homem imita artificialmente os microrganismos ou os modificam de tal forma que não fazem mais mal. Os colocam em líquidos e injetam nas pessoas para que formem linfócitos e anticorpos imunizando-a: este produto se chama vacina. A imunização natural implica em ter a doença, sofrer sinais, sintomas e correr riscos de complicações e morte.

A imunização induzida por vacinas protege sem sofrimento e com riscos baixíssimos. Antigamente uma mulher solteira era aconselhada a visitar pessoas com rubéola para ter a doença antes de casar, pois em grávidas o vírus provocaria severas anomalias no embrião ou aborto.

O vírus da varicela, popularmente conhecida como catapora, entra em contato ainda na infância e induz a febre com máculas ou manchas nas quais aparecem bolhas, às vezes com pus, que secam com crostas. As lesões acometem, primeiro o tronco, depois a face, inclusive a boca, e o couro cabeludo, podendo deixar cicatrizes.

As crianças sentem desconforto e a doença se auto-resolve em 2 a 3 semanas, embora em alguns poucos casos possa se complicar. O vírus da varicela circula entre as pessoas pelo ar e o contágio se faz por contato pessoal e inalação de gotículas de saliva ao falar, respirar ou espirrar. São milhões de casos por ano.

Com a cura da varicela acreditava-se que a pessoa estava livre da doença, mas hoje sabe-se que não. O vírus pode ficar alojado em um nervo ou na sua raiz em um gânglio, um pequeno nódulo onde se conecta com o sistema nervoso central como a medula e cérebro. Ao lado da coluna vertebral temos uma fileira de gânglios neurais e na cabeça temos o gânglio do nervo trigêmio.

Varicela e zoster?

Quem teve varicela pode ter guardado nos nervos e gânglios o vírus na forma latente, pois neles não entram anticorpos ou células. Quando essa pessoa ficar doente, com defesas diminuídas, hiponutrida e especialmente velhinha, pode ter a reativação e o vírus viajará de volta à pele via nervo infectado. Apenas na região sensibilizada por este nervo ocorrerão manchas vermelhas, vesículas e bolhas com líquidos e até pus, além de crostas: esse quadro clínico é o zoster ou herpes zoster, também conhecido em criança como cobreiro.

O zoster afeta apenas um lado do corpo, respeita a linha média. É mais comum na pele do tronco, mas na cabeça e pescoço ocorre com frequência, inclusive face. Em muitos casos de zoster, semanas ou meses antes, no local tem-se parestesia ou sensibilidade modificada.

Ainda pode-se sentir muita dor no local, quase insuportável, ou neuralgia pré-zosteriana. Parestesia e neuralgia podem ocorrer durante e até após a doença. Quem tem zoster deve ficar atento: a defesa pode estar diminuída, uma checagem geral deve ser providenciada para descobrir algo de errado no sistema!

Pode parecer incrível: festas infantis são promovidas nos EUA pelos pais para distribuírem pirulitos contaminados com o vírus da varicela para adquirirem-na e se imunizarem. A varicela não é uma doença tão simples e há riscos de complicações. Mas, pasmem mais ainda: os pirulitos lambidos por crianças com varicela são vendidos pela Internet por US$ 50.

Se preferirem, compram pela Internet roupas ou cotonetes usados por crianças contaminadas. Em reuniões infantis marcadas pelo Facebook têm-se as "festas da catapora", quando pais reúnem crianças saudáveis com outras com a varicela para se contaminarem!

O risco de quem teve varicela desenvolver zoster na fase mais avançada da vida é grande com seus riscos d e complicações e morte. O serviço público e privado oferecem vacinas contra varicela e foi incluída no calendário oficial de prevenção. O pirulito não imuniza, pois ao "pegar" a varicela, os vírus podem ficar latentes nos nervos, prontos para provocar zoster. Já a vacina não permite ter varicela e por consequência, nem o zoster.
Quanto ao pirulito ou festa da catapora, resta nos dizer: quanta ignorância!


Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br.

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