O anarquismo é uma ideologia que aponta os problemas estruturais da sociedade, prega a destruição dessa estrutura, mas não sugere nada como alternativa de mundo. Os punks eram anarquistas. Os hippies também tinham muita influência da filosofia anarquista, mas pregavam algo melhor para o futuro. Existe, porém, um anarquismo pessoal (ou individual) que é muito interessante enquanto modelo de pensamento e experiência de vida. Esse tipo de anarquismo prega a fuga da sociedade como forma de conseguir compreendê-la e analisá-la. Uma pessoa que atinge tal grau de consciência tem o poder de viver na sociedade de modo crítico e libertário. O norte americano Henry David Thoreau foi um escritor anarquista do século XIX. Vivia próximo a Boston, quando resolveu se isolar nos campos, em uma vida solitária e extremamente simples. Procurava, com isso, uma experiência que conseguisse libertá-lo da cultura e da sociedade da época - que se tornava urbana, rica e avançada, mas que criara um universo de alienação do qual Thoreau não suportou compactuar. Dessa experiência resultou seu livro "Walden e a vida nos bosques". Publicado em 1854, é uma poética análise da sociedade, em que o escritor tenta revelar como a cultura da época explorava a miséria e a ignorância alheias. Thoreau analisa o problema da moda, por exemplo, da seguinte forma:
"Cada geração faz pouco das modas ultrapassadas, mas segue religiosamente as novas. Achamos a maior graça ao olhar as roupas de Henrique VIII ou da Rainha Elisabete, tanto como se fossem as do Rei e da Rainha das Ilhas Canibais. Toda roupa isolada do homem é lamentável e grotesca. Só o olhar cheio de seriedade, vislumbrando a vida que ali esteve, é capaz de conter o riso e reverenciar a roupa de qualquer pessoa. (...) O gosto infantil e bárbaro de certos homens e mulheres pela última moda leva muitos à constante roda viva e a queimarem pestanas no caleidoscópio de formas e cores para descobrir qual é a crista da onda na geração atual. Os fabricantes, por sua vez, já sabem que esse gosto é puro capricho. De dois modelos que diferem apenas no tom de alguns fios de tecido, um será vendido a jato, enquanto o outro vai mofar na prateleira, embora também aconteça com freqüência que este último se torne a coqueluche da estação seguinte. Comparandose, a tatuagem não é um costume tão horrível como o consideram e não é bárbaro simplesmente porque o desenho é profundo e definitivo.
Não posso de modo algum acreditar que nosso sistema de produção para vestir os homens seja o melhor. A situação dos operários entre nós torna-se cada dia mais parecida com a dos ingleses, o que não é de admirar, pois pelo que tenho observado, o objetivo primordial do sistema não é o de vestir bem e de modo honesto a humanidade, mas, sem a menor dúvida, o de enriquecer as empresas. A longo prazo os homens alcançam apenas o que ambicionam. Portanto, embora a curto prazo possam fracassar, agiriam melhor se ambicionassem algo elevado. Henry Thoreau só conseguiu chegar a tais conclusões porque se isolou da cidade, vivendo em um lugar onde os signos do progresso que moldavam aquela visão de mundo estavam bem menos presentes.
É por isso que a cidade precisa de espaços verdes. As praças e os parques servem como um isolante sonoro e espacial da pulsação de concreto e eletrônica que é a cidade. Se passássemos mais tempo nas praças, conseguiríamos ter uma visão melhor, mais isenta, dos acontecimentos. Iria ficar mais difícil aderir a essa inspiral de insensatez, essa disputa frenética pelo sucesso financeiro ou pelo sucesso no show business, que se tornou a principal e mais profunda característica do nosso dia-a-dia. É precioso saber que um breve afastamento do nosso universo urbano pós moderno - que seja uma caminhada pela zona rural - pode gerar consequências tão benéficas. Obs: "Quem te sustenta? Estás no rol dos noventa e sete que fracassaram ou dos três que tiveram êxito?" (H. D. Turreau em 1854, mas em consonância com o slogan dos movimentos sociais de hoje: "somos os 99%")
O autor, Luís Paulo Domingues, é colaborador de Opinião