Ciências

Cuidemos: a culpa é nossa!


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Frequentemente reclamamos dos produtos chineses com qualidade duvidosa e ou artificialmente baratos. São bilhões de chineses sem leis trabalhistas, sem sistema de saúde e muito mal remunerados. Os fabricantes são subsidiados pelo governo e a moeda local desvalorizada ditatorialmente em relação ao dólar. Lá não existe democracia, tem trabalho infantil e jornadas de trabalho extenuantes, mas tem gente que acha um bom modelo para o Brasil e fazem comparações. Eu, heim!

Está virando moda falarmos dos europeus e sua crise econômica e cultural. São muitos países unidos por conveniência econômica na moeda única do euro. Na Ásia e Europa, tem cada vez mais gente e no ritmo atual em 2600 se todos ficarmos em pé no planeta, os seres humanos ficarão encostados um no outro, sem espaço para mais nada. O planeta gerará tanta energia que ficará incandescente como uma brasa.

O equilíbrio da fauna e flora no planeta se faz com predadores, doenças, restrição de alimentos, guerras e incidentes como choque com asteroides e cometas. As mudanças visam restabelecer o equilíbrio dentro do potencial de sobrevivência que o ambiente oferece. A Europa e a Ásia viviam tendo fases de progressos e épocas de miséria e muitas mortes, dizimando-se populações inteiras.

Na China Imperial havia muita fome e miséria pois o solo era desértico ou pobre sem nutrientes; quase nada era cultivado. A população chinesa tinha um limite pela pouca disponibilidade alimentar pelo solo. Eis que o descobrimento da América deu aos chineses o milho e a batata-doce.

Estes vegetais podem ser cultivados em solos pobres e houve uma explosão populacional até hoje. Ficaram tão alucinados que também acabaram por destruir seus rios, florestas, promovem erosões, inundações e poluições desenfreadas pelo seu vasto território. Se não fosse nosso milho e a batata-doce nada disso estraria acontecendo agora! Sem contar que o dinheiro chinês nos séculos 17 e 18 era feito quase que exclusivamente com prata explorada na Bolívia e exportada para a China pelo porto de Acapulco no México.

A história é uma ciência e aplicando-se as mesmas ferramentas de análise sobre a Europa vamos descobrir que a batata salvou populações inteiras e permitiu que em solo pobre este alimento alavancasse o progresso e a explosão demográfica no velho continente. Há séculos não se vê mais episódios catastróficos de fome e miséria na Europa, como acontecia antes da batata, ironicamente chamada de "inglesa".

A redenção econômica e populacional do Sudeste Asiático se deu em grande parte graças à borracha das seringueiras amazônicas. Levadas de forma escusa para esta região do mundo, foi plantada e explorada como monocultura, alavancando a economia local.

O que ganharemos?

De imediato, cedemos a batata, milho, batata-doce, borracha e prata, mas depois acabamos por dar o ouro, alumínio e ferro até hoje. E o que a América ganhou em troca? Tem coisas interessantes que até poderíamos chamar de boas como o boi de origem europeia, mas induziu-nos a desmatar para criar pastos e hoje somos o maior produtor de gás butano destruidor da camada de ozônio. Da África, ganhamos a cana-de-açúcar, uma monocultura advinda da Nova Guiné, cada vez mais mecanizada e que produz açúcar e álcool, mas degrada o solo.

De imediato ganhamos o parasita da malária advindo da Inglaterra e África, se estendendo por quase todo o continente americano. Ao mesmo tempo vieram os vírus da varíola e gripe, bactérias da tuberculose e muitas armas que simplesmente dizimaram a população nativa. O que dávamos permitia a sobrevivência e a explosão demográfica e o que deram levou nos a perda de vidas e de espaço para os bois e cana! Assim invadiram a América, ou como querem: a colonizaram!

Ainda não acabou. No século 17 os barbeiros da cidade do México reclamavam de concorrência desleal dos profissionais chineses: trabalhavam muito e cobravam muito barato! Os japoneses, na mesma época, desempregados como samurais, mudavam-se para a América e aqui eram seguranças nos transportes de prata e outros minerais em suas rotas para viajarem por outros continentes.

Na comparação científica entre acontecimentos dos séculos 17 e 18 com os dias atuais não se deve dar lugar a empirismos como "mera coincidência" ou afirmações como a "história é cíclica". A história como ciência pode nos ensinar a não repetirmos os mesmos erros e sermos explorados novamente. Nos cuidemos!


Alberto Consolaro ? Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC

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