Articulistas

Chega de tanto "blá-blá-blá"

Samuel Biassi do Nascimento
| Tempo de leitura: 3 min

Estou cansado de tanto "blá-blá-blá". É muita falação para pouca ação. As pessoas falam, falam, falam... Falam dos erros dos outros, falam do que os outros deveriam fazer, falam de sonhos e projetos, falam dos políticos, dos líderes religiosos, falam de futebol e do preço do etanol. Vivemos na sociedade "Datena" que, como o profissional da mídia, gosta de especular sobre a realidade social. A sociedade é assim... Na política é assim: os políticos falam sobre saúde, segurança, educação e moradia, na grande maioria das vezes falam politicamente correto. A fala política é até previsível; é tanto "blá-blá-blá" que já sabemos o que os políticos vão falar. Falam muito e fazem pouco! Na religião também é assim. Principalmente no cristianismo, a fala parece ser sempre a mesma. Fala-se em amor, em compaixão, em misericórdia e em perdão. Pura falação... Fala-se em sacramentos, salvação, perdão, adoração, ofertas, oração, fé e um monte de conceitos que, na maioria das vezes, nem quem fala sabe bem o que está falando. Quando a fala se torna em um mero veículo de especulação da realidade, nada se transforma, porém tudo se deteriora: cidades, famílias, casamentos, empresas, carreiras profissionais, tudo resultado de muito "blá-blá-blá".

A sociedade contemporânea está precisando urgentemente trocar a fala pela ação, se quiser ter uma sociedade mais justa e humana. Cansa atravessar um ano e ver que existem pessoas que só sabem falar. Elas sentam na "roda dos escarnecedores" e vivem a falar de quem tenta de alguma forma realizar. A lei da realidade diz que: "quem muito fala, pouco consegue fazer!". No passado se diria que: "quem fala demais, dá bom dia a cavalo!". Gosto do período do Natal, porque ele é um sinal de que a vida não é feita só de palavras. O Natal é a maior declaração de que existe um Deus de poucas palavras e de grandes ações. Esse Deus que decidiu materializar suas palavras na pessoa do menino Jesus, deixando para nós o grande princípio de uma vida relevante, o princípio da encarnação.

Encarnar significa fazer-se carne, ou seja, tomar forma. Segundo a tradição cristã: "... o Verbo (Palavra) se fez carne e habitou entre nós" (João 1:14). Deus se humanizou em Jesus! Ele não ficou falando sobre o que pensava da realidade humana e muito menos sobre seus poderes celestiais. Deus tomou uma atitude e na pessoa do menino Jesus encarnou o amor, a graça, o perdão, a verdade, a justiça e a compaixão. Na manjedoura, Deus não colocou um dogma, doutrina, conceito ou tratado filosófico. Na estrebaria, em Belém da Judéia, uma pessoa foi ali depositada, como a materialização de tudo o que Deus falou e ainda fala.

Natal é tempo de encarnação. É tempo para se materializar o amor a todos os homens, sem discriminação de credo, cor, raça e condição social; um amor altruísta que não exige nada em troca e que não trata o outro segundo seus méritos pessoais, mas à luz de seu valor como pessoa. Natal é tempo para encarnar o perdão, abrindo as cadeias do coração, liberando o outro das algemas da mágoa e do ressentimento. Natal é tempo de encarnar a verdade, transformando palavras em atitudes éticas e morais, demonstrando que a verdade não é só aquilo que é certo para uma pessoa, mas o que é válido para o bem comum. Natal é tempo de materializar a justiça, dando a todo homem os direitos que lhes são devidos. Natal é tempo de se materializar a esperança, tendo atitudes que demonstrem que a vida não está entregue nas mãos do acaso e da aleatoriedade, mas nos propósitos eternos de um Deus soberano.

Deixemos de tanto "blá-blá-blá" e aproveitemos este Natal para materializar nossas palavras com atitudes que promovam a paz e a justiça entre todos os homens.


Samuel Biassi do Nascimento é teólogo, graduando em Psicologia pela Universidade Sagrado Coração ? USC, e pastor titular da Primeira Igreja Batista de Bauru.

Comentários

Comentários