Malavolta Jr. |
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Segundo Evandro Borgo, a maioria das pessoas que desenvolvem surto psicótico tem entre 20 e 35 anos |
Após permanecer dois dias sob observação médica em um hospital particular de Bauru, Eder Francisco Batista Pires, 26 anos, deixou, na tarde de ontem, a unidade para ser internado em um hospital psiquiátrico em Tupã (SP). De acordo com a assessoria de imprensa do hospital no qual Eder permaneceu em Bauru, o médico que fez sua avaliação requereu a transferência do paciente para uma unidade especializada na área de psiquiatria devido à complexidade do caso.
A notícia sobre a situação envolvendo Pires ganhou abrangência nacional por alguns veículos de comunicação que descreveram o caso como “o surto do noivo”. Após sofrer um possível surto psicótico no último sábado, ele abandonou a festa de seu próprio casamento, destruiu equipamentos na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Mary Dota, tentou enforcar um funcionário que desejava contê-lo e andou despido pela rua.
O psiquiatra Evandro Luis Pampani Borgo explica que o surto psicótico ainda é uma incógnita para a medicina. “O caso (de Pires) terá que ser avaliado muito bem, os médicos deverão realizar uma ampla investigação no paciente para excluir todas as hipóteses e chegar a uma conclusão. O primeiro tratamento é sempre à base de tranquilizantes para conter a agitação provocada pelo surto. Depois vem o diagnóstico, no qual o médico psiquiatra irá traçar um plano de tratamento de acordo com as necessidades do paciente e do tipo de surto sofrido”, explica o psiquiatra.
Na unidade hospitalar de Bauru onde foi internado, Pires tentou fugir chegando até a portaria do local, mas foi detido por seguranças. Conforme divulgado na edição de ontem do JC, o rapaz exaltou-se em diversas ocasiões e apresentou agressividade. Por conta disso, foi sedado com tranquilizantes e amarrado ao leito. O diagnóstico do caso não foi divulgado à imprensa, assim como mais informações a respeito do quadro clínico de Eder Pires.
De acordo com familiares e um funcionário da empresa em que Pires trabalha há menos de seis meses, o rapaz não teria apresentado nenhum problema psiquiátrico anteriormente e teria uma rotina de vida normal. Ontem, a reportagem do JC apurou que ele chegou a ficar afastado do trabalho durante um período de novembro deste ano, mas a empresa não informou a causa do afastamento.
Parentes do rapaz relataram à reportagem que Eder casou-se com Natália (somente o primeiro nome foi divulgado) no sábado pela manhã num cartório, após aproximadamente dois anos e meio de união estável. O casal tem um filho de quase 2 anos. Segundo o depoimento prestado por Natália à reportagem do JC na segunda-feira, ela e o noivo sempre tiveram uma vida normal.
Além de responder pelas lesões causadas ao vigilante da UPA que foi atacado por Eder, ele será responsabilizado pelos danos provocados ao patrimônio municipal. Segundo consta em boletim de ocorrência, um computador, uma impressora, cadeiras, macas, um telefone, um monitor de LCD, entre outros objetos foram danificados na UPA. Estima-se que o prejuízo possa atingir R$ 10 mil.
Preconceito
“A população tacha a psicose como loucura, maluquice. Isso está errado, pois vários motivos patológicos podem estar por trás deste tipo de comportamento. Esse tipo de patologia não quer dizer que a pessoa seja ‘fraca da cabeça’. A psiquiatria compreende um leque de diagnósticos e as pessoas devem respeitá-los e acreditar que eles existem”, observa o psiquiatra Evandro Luis Pampani Borgo.
Segundo ele, às vezes um trauma pode causar um surto psicótico. “Existem casos em que a sociedade acaba pressionando tanto, tendo tanto preconceito e tachando tanto a pessoa, que o paciente acaba com todo o tratamento prejudicado”, enfatiza Evandro, lembrando que uma das grandes discussões na psiquiatria atualmente é em relação ao preconceito daqueles que não acreditam na existência das doenças psiquiátricas.
‘Qualquer pessoa está sujeita a um surto’
“Qualquer pessoa pode sofrer um surto psicótico. Isso é muito raro, mas acontece e são muitas as causas”, relata o psiquiatra Evandro Luis Pampani Borgo. Segundo ele, a maioria das pessoas que desenvolvem o surto está na faixa entre 20 e 35 anos.
“Mesmo alguém com a vida 100% regrada está sujeito a apresentar um surto. Nada é garantido. Existe o fator hereditariedade e existe o fator orgânico que devem ser levados em conta”, considera o psiquiatra. Mas adverte: o uso de drogas ou uma vida muito desregrada também pode ser fator determinante para a ocorrência de um surto.
“Tenho pacientes que tiveram surtos psicóticos e vivem normalmente à base de remédios, e outros que conseguiram superar e alcançaram a cura sem qualquer tratamento”, diz Borgo, sem poder falar especificamente sobre o caso de Eder Francisco Batista Pires por não conhecê-lo.
No surto hereditário, por exemplo, a pessoa possui uma pré-disposição à psicose e acaba recebendo apenas um gatilho por meio de explosão de sentimentos, como a frustração, as alegrias intensas e choque. Esse quadro, segundo o médico, se encaixa também à esquizofrenia e à bipolaridade.
Existe também um quadro dissociativo no qual a pessoa fica abalada com algo da realidade, entra em choque com alguma notícia ou fato cotidiano e chega ficar fora de si por alguns dias, mas consegue voltar ao seu normal. Mas, em uma situação de muito estresse, ela pode voltar a apresentar o surto.
No caso do surto orgânico, o corpo acaba respondendo por algo que esteja desregulado no organismo, como o caso de uma pessoa que tenha câncer, que sofra uma infecção, uma doença ou algum tipo de intoxicação por metais pesados.
O fato é que não existe uma forma de prevenção ao surto psicótico, apenas tratamento para cada caso. O melhor é tentar viver de maneira saudável e sem muito estresse, segundo o psiquiatra.
