Sim, essas divagações tendem a convergir em determinado momento, e elas podem ? pela complexidade ou pela metáfora - nos levar a encontrar respostas para uma questão recorrente na mídia atual: como eliminar a corrupção na política? Ambos, Morin e um ?animal de estimação?, apesar de todos os antagonismos que uma mente precipitada possa conceber, nos ajudarão neste momento a decifrar esse enigma. Vamos começar por Edgar Morin: filósofo e sociólogo francês, autor de vários livros, entre eles "O método e Ciência com consciência". Morin é um pensador da complexidade e um crítico contemporâneo. No outro lado, e aparentemente sem qualquer relação, está o ?animal de estimação? ? e pode ser qualquer um -. Um ?animal de estimação? é sempre assim...todos tentam, à sua maneira, condicionar o comportamento dele. Morin fala da complexidade e um animal de estimação nos remete às tentativas para modificar o comportamento dele.
Vejamos então o caso do ?político corrupto?, alguém que sempre está no palco da mídia. Podemos inseri-lo na lógica de Morin, afinal esse tipo de político possui "um pensamento mutilado que conduz a ações cegas, e também ações mutilantes que cortam, talham e retalham, deixando em carne viva o tecido social e o sofrimento humano." (Morin). São aqueles que se aproveitam das fragilidades de um país que deixou o sistema educacional de lado. E aqui me refiro aos valores educacionais intrínsecos e consistentes, não aos que atendem a superficial ou subsistente permanência na escola para atender ? apenas - as quimeras estatísticas. E essa fragilidade que citamos pode conduzir ao esquecimento das condutas corruptas que muitos já apresentaram e, muito pior, essa fragilidade também contribui para que os corruptos voltem a dominar a cena politica. Para os que não constatam isso, é suficiente uma rápida consulta aos arquivos dos jornais para que seja revelado aquilo que nunca deveria ter sido velado, já que ? no raciocínio de Morin - "a perda da memória torna-nos imbecis".
Enquanto isso, numa residência qualquer, um cão está sendo treinado. A ?dona de casa? ou uma ?criança? vê a sua cortina sendo dilacerada e, com decisão quase maternal, diz ao animal: "não faça isso, é muito feio". Assim, essa reação sobre o comportamento errado agrada ao bicho de estimação e, como tal, torna-se um motivo para repetir a ação e manter o ciclo, visto que o tom daquele que julga é o próprio reforço. Entretanto, o problema do dono em relação ao ?cãozinho? não é a memória, mas a incapacidade para eliminar o comportamento. No final, diante da ineficácia de quem julga, o cão "reconhece" que seu jeito é o melhor jeito...é a melhor maneira para se viver. E o ?político corrupto?, de modo similar, está sempre por aí, pois a forma de punição reforça a sua continuidade.
Se somarmos com a perda da memória poderemos os ver surgirem continuamente em todos os cantos deste país ? gigante pela própria natureza. Não é bom esperar que o próximo ano seja melhor, já que tudo tende a se repetir diante da ausência de punição e de memória.
O autor, Renato Dias Baptista, é professor assistente doutor do curso de Administração da Unesp, câmpus de Tupã. E-mail: rdbapt@gmail.com